
Luiz Edmundo Marrey Uint: o desembargador que transformou elegância humana, equilíbrio jurídico e respeito à advocacia em marca permanente da magistratura paulista – Grandes Homens da Justiça Brasileira
Por Beatriz Ciglioni — São Paulo TV Broadcasting
Existem magistrados cuja passagem pelo Judiciário é medida pela quantidade de processos julgados. Outros deixam marcas pela força institucional dos cargos ocupados. Mas há aqueles cuja trajetória ultrapassa os números e permanece gravada principalmente pela maneira como trataram as pessoas, pela elegância no exercício do poder e pela humanidade construída ao longo da vida pública.
Luiz Edmundo Marrey Uint pertence a esse grupo raro da magistratura brasileira.
Após quase duas décadas no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, sua despedida da magistratura, em março de 2025, transformou-se em uma sucessão de homenagens emocionadas, pronunciamentos afetuosos e manifestações de respeito vindas de desembargadores, procuradores, advogados, servidores e integrantes de praticamente todos os setores do sistema de Justiça paulista.

Não era apenas a aposentadoria de um desembargador.
Era a despedida de um magistrado cuja presença havia se tornado símbolo de equilíbrio, cordialidade, cultura jurídica e profundo respeito humano.
A emoção tomou conta das sessões de despedida realizadas tanto na 3ª Câmara de Direito Público quanto no Primeiro Grupo de Câmaras de Direito Público do TJ-SP.
Os discursos feitos pelos colegas revelaram algo raro no ambiente institucional contemporâneo: unanimidade no reconhecimento humano.
O presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, Fernando Antonio Torres Garcia, resumiu de forma emblemática aquilo que muitos enxergavam em Marrey Uint:
“Prestou a jurisdição da melhor maneira que poderia prestar, com muita eficiência, presteza e qualidade. Ao mesmo tempo em que deixou amigos na Advocacia, fez inúmeros outros na Magistratura. Fez um bem ao brasileiro de São Paulo.”
A frase talvez sintetize sua trajetória.
Porque Luiz Edmundo Marrey Uint nunca foi apenas um técnico do Direito.
Foi construtor de relações humanas dentro do sistema de Justiça.
Nascido em São Paulo em 1950, graduou-se em Direito pela Faculdades Metropolitanas Unidas na turma de 1974.
Seu início profissional aconteceu ainda no serviço público federal, atuando entre 1974 e 1976 como assistente jurídico do Departamento Nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.
Mas sua trajetória seria profundamente marcada pela advocacia.
Durante quase três décadas atuou intensamente na profissão, construindo carreira sólida e respeitada até chegar ao Tribunal de Justiça paulista pelo Quinto Constitucional — Classe Advogado — em 2005.
Essa origem deixaria marcas permanentes em sua atuação.
Marrey Uint jamais perdeu a sensibilidade de quem conhecia profundamente a realidade da advocacia.
Colegas frequentemente ressaltavam sua capacidade de compreender não apenas o processo, mas também o esforço humano de cada profissional que atuava perante a Corte.
Talvez por isso tenha construído relação de enorme respeito com a advocacia paulista.
Em sua despedida, o próprio desembargador destacou algo revelador:
“A qualidade das decisões de meus pares é inquestionável e o respeito e cortesia que dispensam a todos é marca reconhecida pela Advocacia.”
A frase mostra uma característica central de sua personalidade institucional: a crença de que Justiça também se faz através do respeito.
Ao longo de quase 20 anos na magistratura, Marrey Uint construiu trajetória marcada por discrição, refinamento técnico e extraordinária capacidade de convivência institucional.
Em um ambiente frequentemente tensionado pela pressão processual e pelas divergências jurídicas, tornou-se referência de cordialidade e equilíbrio.
O vice-presidente e corregedor do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo, desembargador José Antonio Encinas Manfré, destacou justamente essa combinação rara entre cultura jurídica e humanidade:
“Agradecimento pelo convívio, sempre fraterno, como se não bastasse sua cultura jurídica e sensibilidade.”
Já o desembargador Kleber Leyser de Aquino afirmou que os colegas aprenderam com Marrey Uint não apenas sobre técnica jurídica, mas “com o ser humano que quer fazer o bem”.
Talvez esse seja o ponto mais marcante de sua história.
Luiz Edmundo Marrey Uint construiu uma magistratura baseada na serenidade.
Nunca precisou de protagonismo excessivo para conquistar respeito.
Sua autoridade nasceu da elegância pessoal, da firmeza discreta e da maneira respeitosa com que sempre tratou colegas, advogados, membros do Ministério Público e servidores.
A desembargadora Ligia Cristina de Araújo Bisogni, em uma das homenagens mais emocionadas, resumiu o sentimento coletivo ao citar a música que fala sobre “o trem da chegada ser o mesmo da partida”, afirmando que Marrey Uint deixava “laços de amizade e lealdade em cada um”.
O procurador de Justiça Sérgio Turra Sobrane também ressaltou o bom senso que sempre marcou sua atuação:
“Um juiz que pauta suas decisões no bom senso e na Justiça.”
Poucas definições seriam tão precisas.
Ao longo da magistratura, Luiz Edmundo Marrey Uint participou de mais de 50 mil julgamentos.
Foram exatamente 50.448 votos proferidos em duas décadas de atividade jurisdicional.
Mas talvez o número mais importante não esteja nos processos julgados.
Está no respeito construído.
Na admiração unânime.
Na ausência de inimigos institucionais.
Na capacidade rara de sair da magistratura deixando amigos em todos os setores do sistema de Justiça.
Durante sua despedida, o assistente judiciário Addas Nascimento Oliveira fez uma observação profundamente humana:
“Os momentos mais importantes são aqueles vivenciados ao lado de pessoas especiais.”
O comentário emocionou os presentes porque traduzia aquilo que muitos sentiam.
Marrey Uint não deixava apenas um gabinete.
Deixava uma história.
Deixava uma forma elegante de exercer o poder.
Deixava um exemplo de convivência institucional em tempos cada vez mais marcados por radicalização, intolerância e conflitos públicos.
Sua trajetória demonstra que a magistratura não se constrói apenas com erudição jurídica.
Constrói-se também com humanidade.
Mais do que desembargador, Luiz Edmundo Marrey Uint tornou-se símbolo de uma geração de magistrados que compreendia o Judiciário como espaço de equilíbrio, respeito e civilidade.
Uma geração que acreditava que autoridade não precisava ser agressiva para ser respeitada.
Sua aposentadoria encerra um ciclo importante da magistratura paulista.
Mas o legado humano, institucional e jurídico que construiu permanecerá como referência permanente dentro da história do Judiciário brasileiro.
A série “Grandes Homens da Justiça Brasileira”, da São Paulo TV Broadcasting, segue homenageando personalidades cuja trajetória ajudou a construir os fundamentos éticos, humanos e institucionais da Justiça brasileira contemporânea.
