
Quem disse que o IVA não é cumulativo?
Marcos Cintra
Há um mito repetido com tanta frequência que virou dogma: o IVA é neutro, não cumulativo, e por isso superior a qualquer tributo alternativo. Ensina-se isso nos manuais, repete-se em seminários, escreve-se em relatórios de organismos internacionais. O problema é que não é verdade — e a mentira tem nome técnico: cumulatividade implícita.
O raciocínio do livro-texto é simples. Em cada etapa da cadeia, a empresa credita o imposto pago nos insumos e debita o imposto devido nas vendas; recolhe apenas a diferença. Nenhum imposto se acumula sobre imposto. Perfeito — no papel.
Na prática, esse mecanismo só é neutro sob condições que nenhum país satisfaz: alíquota única e universal — a mesma para o remédio e para a joia — e, além disso, crédito e débito ambos instantâneos. Nenhuma sociedade tolera a primeira condição; e a segunda, decisivamente, não existe em lugar nenhum.
É aí que mora a cumulatividade implícita, e ela tem duas pontas, não uma. De um lado, o crédito do imposto pago nos insumos leva tempo para voltar — e, numa empresa em funcionamento, vários ciclos de produção rodam ao mesmo tempo, uns começando enquanto outros ainda não fecharam, de modo que o crédito represado não é um atraso pontual: é um estoque permanente de capital preso, com custo de financiamento. De outro lado, o débito — o imposto cobrado do cliente na venda — também não é recolhido ao governo no mesmo instante; a empresa o retém por um período, e esse dinheiro em caixa gera o efeito oposto, um benefício financeiro, um float a favor de quem vende. A cumulatividade implícita é o saldo líquido entre essas duas pontas: existe, como custo real, sempre que o crédito demora mais para voltar do que o débito demora para sair. Só desaparece — de fato, e não apenas na alíquota nominal — se as duas pontas forem instantâneas ao mesmo tempo. E há até o caso inverso, pouco discutido: em negócios de ciclo curto, em que o produto vira venda antes mesmo de o crédito do insumo ser exigível, o saldo pode se inverter, e o “defeito” vira, para aquela empresa, um benefício de caixa.
Isso não é conjectura teórica. É mensurável, e já foi medido. Um exercício aplicado à economia brasileira, com dados oficiais das Contas Nacionais e cobrindo 110 setores produtivos, comparou a distorção de preços relativos causada pelo nosso sistema tributário indireto — ICMS, IPI, ISS, INSS, com suas múltiplas alíquotas e regimes — contra a de um tributo único sobre transações, calibrado para arrecadar exatamente o mesmo. O resultado: o sistema convencional distorce os preços relativos da economia cerca de cinco vezes mais. Em nenhum dos 110 setores o sistema “não cumulativo” produziu menos distorção que a alternativa “cumulativa”.
Um dos economistas mais respeitados do país, Antônio Delfim Netto, já identificara o problema de método décadas atrás: a sofisticação da teoria tributária convencional repousa sobre dois postulados implícitos — que não existe sonegação, e que arrecadar não tem custo. Como ambos são falsos, escreveu ele, “começa-se a duvidar da qualidade das recomendações sugeridas”.
A pergunta que dá título a este artigo não é retórica. Quem disse que o IVA não é cumulativo foi a teoria — não a realidade. Antes de recomendar qualquer reforma com base na promessa de neutralidade, seria prudente perguntar: neutralidade medida, ou neutralidade presumida?
Doutor em Economia por Harvard, Marcos Cintra é atualmente professor titular da Fundação Getúlio Vargas e conselheiro do Instituto Atlântico.
Foi Vereador, Deputado Federal, Secretário Especial da Receita Federal do Brasil do Ministério da Economia, Presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), Secretário do Planejamento do Município de São Paulo, Secretário de Finanças do Município de São Bernardo do Campo, Secretário do Desenvolvimento Econômico e Trabalho do Município de São Paulo e Subsecretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo

