
E se a ansiedade não fosse sua inimiga? Talvez o problema seja quem está no volante Antes de tentar silenciar a ansiedade, talvez seja preciso entender o que ela está tentando sinalizar
Por Márcia M. Reis Psicóloga Clínica e Corporativa | CRP 05/29707

Você recebe uma mensagem: “Precisamos conversar.” A conversa nem aconteceu, mas sua mente já imagina o pior. O coração acelera, o estômago aperta e sua atenção se volta para algo que ainda nem aconteceu. A ansiedade chegou antes do problema. A ansiedade faz parte da experiência humana. Relacionada à antecipação e à incerteza, ela pode nos preparar para situações importantes. O problema surge quando se torna intensa ou frequente e começa a limitar nossas escolhas, nossos relacionamentos e nossa vida. Imagine um detector de fumaça. Ele dispara, e a primeira reação é querer desligá-lo. Mas, antes, precisamos entender por que disparou: há um incêndio, uma torrada queimou ou o detector está sensível demais? Com a ansiedade, também vale investigar antes de simplesmente lutar contra a sensação. Em vez de perguntar apenas “Como faço isso parar?”, experimente perguntar: “O que está acontecendo comigo agora?” Três perguntas podem ajudar: • O que aconteceu de fato, e o que minha mente está imaginando? • O que meu corpo está sinalizando? • Existe alguma ação possível agora ou preciso conviver com a incerteza até ter uma resposta? Essas perguntas não eliminam automaticamente a ansiedade, mas podem ajudar a criar espaço entre sentir e agir. Regular não é deixar de sentir. É criar, quando possível, algum espaço entre sentir e agir. Equilíbrio emocional não significa permanecer calmo diante de tudo. Podemos sentir medo e ter uma conversa necessária, experimentar insegurança e tentar algo novo. Sentir ansiedade não significa estar fazendo algo errado. Às vezes, a ansiedade também aparece diante daquilo que importa: uma oportunidade, um projeto, uma mudança desejada. Reconhecer isso não significa romantizar o sofrimento, mas compreender que uma emoção pode trazer informações sem precisar determinar nossas decisões. Pense na ansiedade como alguém dentro de um carro. Ela pode alertar sobre uma curva ou sugerir que é preciso reduzir a velocidade. Mas não precisa segurar o volante. Não se trata de impedir que a ansiedade apareça, e sim de desenvolver recursos para reconhecê-la e escolher como responder, mesmo quando o desconforto permanece. Quando a ansiedade se torna persistente, intensa ou limita a vida cotidiana, buscar ajuda profissional pode ser um passo importante de cuidado. A ansiedade pode tocar o alarme e sinalizar que algo importa. Mas sentir ansiedade não significa que ela precisa decidir por nós. Viver não é construir uma vida em que nada nos assusta. É continuar encontrando caminhos mesmo quando surge a pergunta: “E se der errado?” Referências GRUPE, D. W.; NITSCHKE, J. B. Uncertainty and anticipation in anxiety: An integrated neurobiological and psychological perspective. Nature Reviews Neuroscience, v. 14, p. 488–501, 2013. GROSS, J. J. The emerging field of emotion regulation: An integrative review. Review of General Psychology, v. 2, n. 3, p. 271–299, 1998. 1CISLER, J. M.; OLATUNJI, B. O. Emotion regulation and anxiety disorders. Current Psychiatry Reports, v. 14, n. 3, p. 182–187, 2012. 2
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