
SECRETARIO MUNICIPAL DA FAZENDA DE SÃO PAULO -LUIS FELIPE VIDAL ARELLANO: A RESPONSABILIDADE DE ADMINISTRAR OS RECURSOS QUE MOVIMENTAM O FUTURO DE SÃO PAULO
SECRETÁRIOS DA NOSSA CIDADE DE SÃO PAULO
À frente da Secretaria Municipal da Fazenda da Gestão Ricardo Nunes, Luis Felipe Vidal Arellano participa de decisões fundamentais para o funcionamento da maior cidade do Brasil, conciliando responsabilidade fiscal, planejamento financeiro e investimentos destinados a melhorar a qualidade de vida da população.
Administrar a Secretaria Municipal da Fazenda da Gestão Ricardo Nunes, significa cuidar de uma cidade que reúne milhões de moradores, milhares de empresas e necessidades que se renovam diariamente. Por trás da construção de hospitais, escolas, moradias, corredores de transporte e equipamentos públicos existe uma estrutura de planejamento financeiro que precisa garantir recursos, equilíbrio das contas e capacidade de investimento.
É nesse cenário que atua a Secretaria Municipal da Fazenda da Prefeitura de São Paulo, responsável por áreas fundamentais da administração financeira e tributária da capital. À frente dessa missão está Luis Felipe Vidal Arellano, que participa da condução de uma agenda marcada pela elaboração e execução do orçamento, modernização dos sistemas tributários, transparência e efeitos da reforma tributária.
A proposta de orçamento municipal da Gestão Ricardo Nunes, para 2027, estimada em aproximadamente R$ 146,5 bilhões, demonstra a dimensão das decisões que passam pela área financeira da Prefeitura. Entretanto, os números não contam toda a história. Por trás de cada decisão orçamentária estão pessoas que precisam de atendimento médico, crianças nas escolas, trabalhadores no transporte público e famílias que aguardam melhorias nos bairros. Administrar recursos públicos é também administrar expectativas e oportunidades.
Mas quem é Luis Felipe Vidal Arellano além das responsabilidades de secretário? Como começou sua trajetória? Quais experiências o prepararam para decisões que influenciam a vida de milhões de pessoas? É essa história que a São Paulo TV Broadcasting pretende apresentar.

ENTREVISTA ESPECIAL
Como foi sua infância, sua formação acadêmica e o início de sua carreira? Quais pessoas e experiências mais influenciaram seus valores e escolhas profissionais?
Tive uma infância comum de classe média na Cidade de São Paulo, dividida entre os livros e o futebol no Ibirapuera. Duas experiências de adolescência, porém, anteciparam o que eu faria da vida. Aos 11 anos, fui eleito presidente do grêmio estudantil disputando com candidatos bem mais velhos, com uma plataforma simples e de forte apelo entre os colegas. No ensino médio, como tesoureiro do grêmio, organizei a captação de recursos por meio de festas entre as grandes escolas da cidade, e com o que arrecadamos fizemos doações relevantes a instituições de caridade. Estas experiências me ensinaram as primeiras lições de liderança, gestão de recursos e responsabilidade pela entrega de resultados concretos.
Na faculdade, cursei Direito na USP, mas nunca abandonei os números. Fiz Mestrado e Doutorado em Direito na própria USP, concluído em 2018, e, em paralelo, pós-graduação em Economia na Fipe/USP, bacharelados em Ciências Contábeis e em Matemática e MBAs em Gestão de Finanças (FDC) e em Investimentos e Private Banking (IBMEC). Essa combinação pouco convencional entre humanas e exatas é o que define meu perfil profissional.
Quem mais influenciou meus valores durante toda a minha vida foram meus pais e meus professores. Com eles aprendi que os bons resultados exigem estudo, esforço e paciência, que às vezes é preciso assumir riscos, e que a crítica construtiva vale mais do que o conforto, que leva à acomodação.

Quais foram os principais momentos de sua trajetória profissional? Que experiências contribuíram para sua compreensão sobre gestão pública, economia, finanças e responsabilidade no uso de recursos públicos?
Comecei como estagiário em um escritório de Direito Tributário em São Paulo, onde tive o primeiro contato com órgãos como a Receita Federal, a CVM e o Banco Central. O ponto de virada foi um estágio de férias na Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, em Brasília. Até então eu pensava em advogar para grandes empresas; ali percebi que minha vocação era a Administração Pública, na intersecção entre o mundo técnico e o mundo político.
A partir dessa decisão, construí minha carreira como técnico no setor público: Primeiro, Assistente Técnico Administrativo do Ministério da Fazenda, ainda na faculdade; após a formatura, Analista Tributário da Receita Federal; alguns anos mais tarde, Auditor Fiscal de Tributos Municipais da Prefeitura de São Paulo; e, por fim, Procurador do Município de São Paulo, carreira à qual pertenço até hoje.
Na Prefeitura, em paralelo ao meu cargo efetivo, ocupei sucessivamente os cargos de confiança de Assessor Econômico, Diretor de Departamento, Subsecretário do Tesouro Municipal, Secretário Adjunto e Secretário Municipal da Fazenda. Cada um deles me ensinou algo sobre finanças públicas, governança e gestão de pessoas, e sobre a responsabilidade de administrar um dinheiro que não é nosso.

Como surgiu o convite para assumir a Secretaria Municipal da Fazenda? Quais foram suas primeiras prioridades e desafios ao administrar as finanças de São Paulo?
O convite do Prefeito Ricardo Nunes veio em 2023, quando o Secretário anterior foi indicado para o Tribunal de Contas do Município. Eu havia sido Subsecretário do Tesouro entre 2014 e 2017 e Secretário Adjunto da Fazenda entre 2018 e 2023, e o Prefeito entendeu que eu poderia dar continuidade ao trabalho com a segurança de quem já conhecia a casa por dentro.
A primeira prioridade foi ajustar o crescimento das despesas correntes ao crescimento das receitas correntes, para preservar e ampliar o espaço de investimentos. O resultado desse ajuste é mensurável: a Cidade saiu de R$ 6,7 bilhões de investimentos empenhados em 2022 para cerca de R$ 15,5 bilhões em 2024, e a proposta orçamentária para 2027 prevê mais de R$ 20 bilhões em investimentos e inversões financeiras.
O maior desafio pessoal foi conciliar a agenda técnica, de acompanhamento próximo das decisões das áreas da Secretaria, com a agenda pública de representação institucional, em eventos e na Câmara Municipal. Venho de uma formação de gestor, não de político, e fiz questão de não abrir mão do controle técnico ao assumir a função de representar a Fazenda perante a sociedade.

A proposta orçamentária para 2027 está estimada em aproximadamente R$ 146,5 bilhões. Quais são as prioridades desse planejamento e como os recursos serão distribuídos entre saúde, educação, habitação, mobilidade, segurança e infraestrutura?
A proposta orçamentária para 2027, que encaminhamos à Câmara Municipal, soma R$ 146,52 bilhões, cerca de 6,6% acima do orçamento deste ano. É o maior orçamento da história da Cidade, mas o número que mais me orgulha não é esse. É o de investimentos e inversões financeiras: R$ 20,6 bilhões, aproximadamente 14% do total. Para dar a dimensão, em 2021 a Cidade investia na casa de R$ 5 bilhões por ano. Quadruplicamos a capacidade de investimento em seis anos, sem criar ou aumentar nenhum imposto, e com mais de 66% das receitas vindo da arrecadação própria do Município, o que nos dá uma autonomia que poucas capitais brasileiras têm.
A lógica da distribuição é simples: as áreas sociais crescem em linha com a receita, e o espaço fiscal que abrimos com a disciplina das despesas correntes vai para infraestrutura e serviços que mudam o cotidiano das pessoas. A Educação terá R$ 33,53 bilhões, quase 10% a mais que em 2026, e quero destacar que 69,8% desse valor são recursos próprios da Prefeitura, não transferências. A Saúde terá R$ 27,76 bilhões, também cerca de 10% acima deste ano. A Assistência Social e os direitos da cidadania terão R$ 4,14 bilhões, dos quais mais de R$ 974 milhões dedicados à população em situação de rua.
Nas áreas de infraestrutura, o crescimento é ainda mais forte. A Mobilidade Urbana e Transporte passa de R$ 11,2 bilhões para R$ 13,96 bilhões, quase 25% a mais, com destaque para a eletrificação da frota de ônibus e para os corredores e terminais. A Secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras cresce quase 48%, de R$ 3,05 bilhões para R$ 4,5 bilhões. A Segurança Urbana terá R$ 2,05 bilhões, quase 12% a mais, e as 32 Subprefeituras, que cuidam da zeladoria do dia a dia, R$ 2,27 bilhões. Na Habitação, além dos R$ 1,7 bilhão do orçamento fiscal, o programa Pode Entrar conta com financiamento específico e que coloca a Cidade no maior ciclo de investimento habitacional das últimas décadas.
Parte dos investimentos, cerca de R$ 8 bilhões, será financiada com operações de crédito, de longo prazo e com custo baixo, algo que só é possível porque a Cidade tem grau de investimento e capacidade de pagamento reconhecida pelo Tesouro Nacional e pelos bancos multilaterais. E temos orçamentos temáticos que atravessam todas as áreas: o Orçamento Climático, de R$ 33 bilhões; o da Primeira Infância, de R$ 23,7 bilhões; o da Mulher, de R$ 15,2 bilhões; e, pela primeira vez, o Orçamento da Pessoa Idosa, de R$ 6,34 bilhões. Isso dá transparência sobre onde o dinheiro público está sendo aplicado para quem mais precisa dele.

Como a Prefeitura mantém o equilíbrio das contas públicas sem comprometer investimentos? Quais indicadores demonstram a situação fiscal do município e sua capacidade de realizar projetos?
A regra que adotamos desde que assumi a Pasta é simples de enunciar e difícil de cumprir: a despesa corrente não pode crescer mais rápido do que a receita corrente. Quando o custeio cresce mais que a arrecadação, o investimento é a primeira vítima, porque é a única despesa que o gestor pode cortar sem descumprir uma obrigação legal. Em 2023 e 2024, as despesas correntes tinham crescido em torno de 20% ao ano, em boa parte por decisões legítimas de ampliação de serviços. Em 2025, trouxemos esse ritmo para menos de 5% até agosto e fechamos o ano com crescimento de 6,8%, abaixo do crescimento de 7,3% das receitas correntes e dos 10% da arrecadação tributária. É esse diferencial, acumulado ano após ano, que financia o salto de investimentos de que falei.
Os indicadores mostram uma Cidade com folga fiscal rara no setor público brasileiro. A despesa com pessoa consolidada está em torno de 27,2% da Receita Corrente Líquida, contra um limite legal de 54%. A dívida consolidada líquida ficou em cerca de 14% da Receita Corrente Líquida, quando o teto permitido pelo Senado é de 120%. Ou seja, São Paulo deve, em termos líquidos, muito menos do que a lei de responsabilidade fiscal permitiria. Mesmo com as novas operações de crédito contratadas para financiar habitação, transportes e saúde, que elevaram esse número para perto de R$ 19 bilhões, estamos muito abaixo de qualquer parâmetro de alerta. Esse endividamento é bom endividamento: é dívida de longo prazo, barata, com garantia da União, aplicada em ativos que vão durar décadas.
Isso não aconteceu por acaso. Foi resultado de medidas estruturais tomadas ao longo dos últimos anos, de várias das quais tive a honra de participar. A primeira foi a extinção da dívida de quase R$ 24 bilhões que a Cidade tinha com a União, por meio do acordo que envolveu a cessão do Campo de Marte, uma pendência que se arrastava havia décadas. A segunda foi a reforma da previdência municipal, que reduziu o déficit anual em quase R$ 3 bilhões e o passivo atuarial em cerca de R$ 100 bilhões. A terceira é o enfrentamento do estoque de precatórios: a Cidade vinha pagando em torno de R$ 4 bilhões por ano e se comprometeu a manter os pagamentos no nível previsto pela Emenda Constitucional nº 136 pelo tempo necessário para quitar o estoque dessas dívidas. Nenhuma outra capital fez as três coisas ao mesmo tempo.
O reconhecimento externo veio. A Fitch Ratings atribuiu à Cidade de São Paulo um perfil de crédito individual ‘bbb+’, além de ter obtido a nota ‘aa’ no Perfil Financeiro, que avalia a capacidade de o Município honrar suas obrigações, bem como manter ou restaurar um fluxo de caixa robusto e um serviço de dívida estável com liquidez adequada. Nossa nota final, ‘BB’ com perspectiva estável, só não é maior porque, pela metodologia da agência e pelo marco regulatório brasileiro, os governos locais e regionais do país não podem ter nota superior à do próprio Brasil. Na prática, isso significa que a Cidade de São Paulo tem hoje, de forma consistente, uma saúde fiscal melhor do que a da República. E é isso que nos permite acessar o Banco Mundial, o BID e o BNDES: em agosto deste ano, o Senado autorizou US$ 701,9 milhões, cerca de R$ 3,5 bilhões, em financiamentos do BID e do BIRD para a eletrificação de mais de 1.100 ônibus e para a modernização da rede hospitalar. Um credor internacional só empresta a quem demonstra que vai pagar.

Quais serão os principais impactos da reforma tributária para a arrecadação municipal? Como São Paulo se prepara para a transição e as mudanças na tributação do consumo?
Sou franco sobre isso: São Paulo é, em termos estáticos, a cidade mais exposta do país à reforma tributária do consumo. O ISS é a nossa primeira fonte de receita, a cota-parte do ICMS é a terceira e ambas serão substituídas pelo IBS, cuja arrecadação migra gradualmente do local da produção para o local do consumo. Como São Paulo é o maior polo de serviços da América Latina, exporta muito mais serviços do que consome. Em um cenário sem crescimento adicional da economia, os estudos da Secretaria indicam que, ao longo dos 50 anos de transição, a Cidade poderia perder algo entre a metade e dois terços da arrecadação somada de ISS e cota-parte do ICMS. Para compensar isso apenas com crescimento, precisaríamos crescer um ponto percentual a mais por ano durante cinco décadas.
Dito isso, uma reforma do sistema atual é sabidamente necessária para o Brasil e, por consequência, para a economia paulistana. A reforma atual elimina a cumulatividade, acaba com a guerra fiscal e simplifica radicalmente a vida das empresas, especialmente no setor de comércio e indústria. São Paulo, com sua economia diversificada e sua densidade de negócios, tende a capturar uma parte relevante dos ganhos de produtividade que o novo sistema vai gerar. E a transição foi desenhada para não haver rupturas: nos primeiros anos, 80% da receita destinada aos Municípios continua seguindo o histórico de ISS e de cota-parte, e apenas 20% obedecem ao critério do destino. Há também um mecanismo de retenção de 5% da arrecadação para compensar os Municípios com maiores perdas relativas.
O que mais tenho repetido aos meus colegas de outras cidades é que a reforma não é um evento de 2026 nem de 2033. É uma trajetória de 50 anos, e a posição de cada Município nessa trajetória está sendo definida agora. Os coeficientes de participação que o Comitê Gestor do IBS vai publicar em 31 de agosto de 2027 serão calculados sobre os dados fiscais de 2019 a 2026: ISS lançado e arrecadado, dívida ativa, cota-parte recebida. Cada real de ISS mal declarado nesse período deixa de entrar no coeficiente por quase cinco décadas. Por isso a Secretaria da Fazenda montou uma força-tarefa para revisar e consolidar a nossa base histórica, cruzando a Nota Fiscal Paulistana com a arrecadação efetiva, para que São Paulo chegue a 2027 com a informação mais limpa e defensável possível.
No lado operacional, São Paulo largou na frente. Fomos a primeira grande cidade do país a ter nota fiscal de serviços 100% eletrônica, ainda em 2006, e hoje cerca de metade de todas as notas de serviços emitidas no Brasil são emitidas aqui. Por isso não migramos para o emissor nacional, que não teria capacidade para esse volume: mantivemos o nosso sistema, adaptamos o layout da NFS-e com os campos de IBS e CBS, obrigatórios desde 1º de janeiro de 2026, e integramos diariamente a base paulistana ao ambiente nacional. Além disso, tenho a honra de ocupar a 1ª Vice-Presidência do Conselho Superior do Comitê Gestor do IBS, com mandato até março de 2027. É de lá que saem os regulamentos, os manuais e o calendário da apuração assistida. Minha prioridade no Comitê tem sido garantir previsibilidade: um calendário público, documentação técnica com antecedência e prazo mínimo de adaptação, para que nenhum contribuinte fique para trás.

Quais inovações estão sendo implantadas para simplificar tributos, melhorar o atendimento ao contribuinte e ampliar a transparência? Como a tecnologia facilita a relação entre cidadãos, empresas e administração?
A Secretaria da Fazenda de São Paulo sempre teve vocação para a inovação. O Programa Nota Fiscal Paulistana, que devolvia ao cidadão até 30% do ISS em créditos para abater o IPTU ou receber em conta, e que atualmente sorteia prêmios mensais, é da nossa Secretaria e virou referência nacional. A NFS-e eletrônica, o Domicílio Eletrônico do Cidadão Paulistano e a emissão de notas pelo celular nasceram aqui antes de existirem em qualquer outra capital. Hoje praticamente todo o relacionamento com o contribuinte, da consulta do IPTU à emissão de certidões e ao parcelamento de débitos, é feito on-line, sem necessidade de ir a um posto de atendimento.
Ainda no capítulo atendimento ao contribuinte, temos que, desde 2023, o tempo médio de permanência de um processo administrativo tributário na Secretaria até a sua conclusão definitiva caiu de forma contínua, refletindo uma melhor na percepção da qualidade do serviço prestado à população. Nossos índices de satisfação junto aos usuários dos nossos serviços são, por isso, atualmente, próximos dos máximos previstos nas pesquisas seguidamente realizadas.
Outra prioridade minha tem sido a segurança jurídica. Criamos o Conselho Municipal de Promoção da Segurança Jurídica Tributária, o CONSEJUT, que tenho a honra de presidir, para que divergências de interpretação entre o Fisco e os contribuintes sejam resolvidas de forma institucional, antes de virarem litígio, e para que a Administração assuma posições públicas e estáveis sobre temas controvertidos. Somado ao trabalho do Conselho Municipal de Tributos, nossa instância de julgamento administrativo, isso reduz contencioso, reduz custo para as empresas e dá previsibilidade, que é o que o investidor mais valoriza. Essa cultura de diálogo vai ser ainda mais importante na transição para o IBS, quando dúvidas interpretativas vão surgir em escala.
Em transparência, a Fazenda presta contas a cada quatro meses em audiência pública na Câmara Municipal, com a participação do Tribunal de Contas do Município, apresentando receitas, despesas, investimentos, dívida e metas fiscais com detalhamento que vai muito além do que a lei exige. Os orçamentos temáticos, como o Climático, o da Primeira Infância, o da Mulher e o da Pessoa Idosa, são outra forma de transparência, porque permitem que qualquer cidadão veja quanto a Cidade gasta com cada público. E estamos aplicando inteligência de dados ao próprio trabalho da Secretaria: cruzamento de bases, análise de risco na fiscalização e automação da cobrança, para que o auditor dedique seu tempo aos casos que realmente importam.

Como a política fiscal municipal pode estimular investimentos, gerar empregos, fortalecer pequenos negócios e promover maior justiça tributária? Que iniciativas merecem destaque?
Política fiscal municipal não é apenas arrecadar e gastar bem. É usar os instrumentos que o Município tem, que são o IPTU, o ISS, o ITBI, as taxas e o próprio orçamento, para orientar o desenvolvimento da Cidade. O primeiro e mais importante estímulo que demos foi a previsibilidade: São Paulo não criou nem aumentou imposto nos últimos anos, e mesmo a atualização obrigatória da Planta Genérica de Valores foi feita com travas que limitaram o reajuste do IPTU. Enquanto isso, ampliamos a faixa de isenção do IPTU para imóveis de até R$ 260 mil de valor venal e a faixa de desconto para até R$ 390 mil, o que mantém mais de um milhão de imóveis isentos. Isso é justiça tributária na prática: quem tem menos paga menos ou não paga, e quem tem mais contribui proporcionalmente.
O segundo eixo são os incentivos direcionados. A lei que sancionamos para o Centro, a Lei nº 18.065/2023, concede isenção parcial de 40% do IPTU para imóveis não residenciais no Triângulo Histórico e no Quadrilátero, reduz a alíquota do ISS para 2% nos serviços de construção, reforma e manutenção e isenta as taxas de instalação e funcionamento. É a combinação com o Requalifica Centro para trazer de volta comércio, serviços e moradia à região mais bem servida de infraestrutura da Cidade. No ISS, reduzimos alíquotas para setores com alta capacidade de gerar emprego e de se deslocar, como franquias, plataformas digitais e audiovisual, e os resultados aparecem na arrecadação: a receita de ISS sobre eventos, por exemplo, saltou de R$ 42 milhões em 2015 para mais de R$ 323 milhões em 2025, um crescimento de 672%, porque São Paulo se consolidou como a capital dos grandes eventos da América do Sul.
Para o pequeno negócio, a melhor política é a simplificação. O MEI e as empresas do Simples têm regimes facilitados de ISS, a nota fiscal é emitida pelo celular em segundos, e os programas de regularização permitem que o empreendedor que passou por dificuldade volte a ficar em dia e a ter acesso a crédito. Com isso, a Cidade registrou mais de um milhão de novos negócios abertos nos últimos anos. O orçamento também é instrumento de estímulo: R$ 20 bilhões de investimento por ano em obras, ônibus elétricos, habitação e equipamentos públicos significam contratos, empregos diretos e demanda para toda a cadeia de fornecedores da Cidade.

Quais realizações da Secretaria considera mais importantes? Que metas e projetos pretende concretizar e qual legado gostaria de deixar?
Se tivesse de escolher uma única realização, seria a mudança de patamar da capacidade de investimento da Cidade: de cerca de R$ 6,7 bilhões empenhados em 2022 para R$ 15,5 bilhões em 2024 e para os R$ 20,6 bilhões propostos para 2027. Isso foi feito com responsabilidade, com a despesa de pessoal em 27,23% da receita, a dívida líquida abaixo de 20% da receita, grau de investimento mantido e elevado, e sem criar ou aumentar imposto. Fazer a Cidade investir mais sem comprometer o equilíbrio das contas era o objetivo que eu tinha ao assumir, e ele foi alcançado.
Ao lado disso, houve as medidas estruturais: o fim da dívida de R$ 24 bilhões com a União pelo acordo do Campo de Marte, a reforma da previdência municipal, que tirou R$ 3 bilhões por ano do déficit, e a estratégia de pagamento dos precatórios, uma dívida que o Município acumulou durante décadas e que estamos paulatinamente reduzindo em proporção da receita corrente líquida. Também me orgulho do acesso que conquistamos aos bancos multilaterais, como o BID e o Banco Mundial, que hoje financiam a eletrificação da frota de ônibus e a modernização dos hospitais municipais, e da construção de uma cultura de segurança jurídica e de diálogo com o contribuinte, por meio do CONSEJUT e da transação tributária.
Para frente, o maior projeto é conduzir São Paulo pela transição da reforma tributária. Isso significa entregar ao Comitê Gestor do IBS, em 2027, uma base de dados fiscais impecável, para que os coeficientes de participação da Cidade reflitam exatamente o que ela arrecada; garantir que a NFS-e paulistana continue sendo a espinha dorsal da emissão de documentos fiscais de serviços no país; e, no Comitê, assegurar que a implantação do IBS seja previsível e tecnicamente sólida. É um trabalho de 50 anos cujas decisões mais importantes são tomadas nos próximos dois.
O legado que gostaria de deixar é institucional, não pessoal: uma Fazenda que se relaciona com o cidadão com base em regras e não em humor político ou de mercado; que trata o contribuinte como parceiro na construção de uma cidade mais próspera e na criação de oportunidades; e que prova, com números, que responsabilidade fiscal e investimento social não são opostos, mas condições um do outro. Se daqui a dez anos a Cidade continuar investindo mais de 10% do seu orçamento, com dívida baixa e nota de crédito melhor que a do país, terá valido a pena.

Que mensagem de confiança, transparência, responsabilidade e participação cidadã gostaria de transmitir aos moradores de São Paulo, especialmente aos jovens?
Minha mensagem é a de que o dinheiro público de São Paulo está sendo bem cuidado, e que isso tem efeito concreto na vida de cada morador. Quando a Cidade mantém as contas em dia, ela consegue financiar ônibus elétricos a juros baixos, construir moradias, abrir creches e hospitais, e fazer tudo isso sem pedir mais impostos de ninguém. Responsabilidade fiscal não é uma abstração de economista. É a diferença entre uma obra que começa e termina e uma obra que fica pela metade. É a diferença entre uma moeda forte e estável ou promessas que ficam pelo caminho.
Aos jovens, em especial, quero dizer duas coisas. A primeira é que a Administração Pública é um lugar extraordinário para quem quer transformar a realidade. Entrei no serviço público por concurso, ainda no nível médio, e tive a oportunidade ao longo da minha trajetória de participar de decisões que mudaram as finanças da maior cidade do país. Não há carreira privada em que um jovem técnico tenha acesso tão rápido a problemas tão relevantes. A segunda é que a Cidade pertence a vocês, e isso inclui o orçamento. As audiências públicas da Câmara são abertas, os dados da Fazenda são públicos, os orçamentos temáticos mostram quanto se gasta com primeira infância, com mulheres, com clima. Participem, fiscalizem, cobrem. Um gestor que presta contas a uma sociedade atenta toma decisões melhores.
E uma mensagem de confiança: São Paulo está entrando na maior transformação tributária da sua história com as contas em ordem, com a melhor nota de crédito entre as grandes cidades brasileiras e com uma equipe técnica, na Secretaria da Fazenda, que é patrimônio da Cidade e sobrevive a qualquer governo. Os próximos anos vão exigir decisões difíceis, mas nós as tomaremos com transparência, com base em dados e com um único compromisso: que cada real arrecadado volte para a população na forma de serviços de qualidade.

