
MÁRCIO CHAER
O jornalista, o amigo e uma história que permanecerá para sempre
Fundador do Consultor Jurídico, pioneiro de uma nova maneira de cobrir o Direito no Brasil e responsável por uma obra editorial que atravessa décadas, Márcio Chaer deixa muito mais do que reportagens, revistas e anuários. Para a Família Ciglioni, deixa a lembrança de um amigo verdadeiro, parceiro histórico de Hilda e Waldemar Ciglioni e presença fundamental na trajetória do programa Questão de Justiça.
São Paulo TV Broadcasting — Diretoria e Família Ciglioni
Há momentos em que o jornalismo, acostumado a encontrar palavras para explicar os acontecimentos, simplesmente não consegue encontrá-las. A morte de Márcio Chaer, neste sábado, 3 de outubro, é um desses momentos. Como escrever sobre a partida de alguém que passou a vida justamente trabalhando com palavras, notícias, entrevistas, opiniões e histórias? E como fazê-lo quando esse personagem não era apenas uma personalidade do jornalismo, mas um amigo de verdade?
Para a Diretoria da São Paulo TV Broadcasting e para a Família Ciglioni, falar de Márcio Chaer significa atravessar décadas de lembranças. Significa voltar à história de Hilda Ciglioni, de Waldemar Ciglioni, do programa Questão de Justiça e de uma época em que uma parceria profissional, construída inicialmente pelo jornalismo e pelo Direito, transformou-se em respeito, confiança, lealdade e amizade.
Márcio foi um jornalista de personalidade, convicções e coragem. Era direto, verdadeiro e profundamente comprometido com aquilo em que acreditava. Quem conviveu com ele sabia que não era homem de meias palavras. Mas quem teve a oportunidade de ser seu amigo conheceu também uma pessoa presente, capaz de ajudar, ouvir e estender a mão.
É por isso que nós, da Família Ciglioni, podemos dizer com absoluta sinceridade que temos uma enorme dívida de gratidão com Márcio Chaer. Não é uma frase criada para uma homenagem póstuma. Essa gratidão nasceu durante sua vida e foi construída durante anos.
Muito antes de o jornalismo digital assumir a dimensão que possui atualmente, Márcio percebeu que existia um espaço praticamente inexplorado na comunicação brasileira. O Direito produzia diariamente acontecimentos capazes de modificar a vida do país, mas a cobertura especializada ainda era limitada. Tribunais decidiam questões fundamentais, a jurisprudência se transformava, grandes advogados construíam teses que mudariam a interpretação das leis e as instituições brasileiras passavam por profundas mudanças.
Márcio percebeu que tudo aquilo precisava ser acompanhado por jornalistas que compreendessem aquele universo.
Foi assim que, em 1997, nasceu a Revista Eletrônica Consultor Jurídico — ConJur.
A palavra “eletrônica” merece ser lembrada. Hoje parece natural falar em veículos digitais. Naquele momento, não era. A internet brasileira ainda estava começando. Não existiam redes sociais como conhecemos atualmente e os grandes jornais impressos dominavam o cotidiano da informação. Criar uma publicação especializada em Direito para aquele novo ambiente exigia visão de futuro.
Márcio teve essa visão.
Mais do que criar um site, ajudou a implantar uma verdadeira revista eletrônica, com identidade jornalística, reportagens, entrevistas, artigos, documentos, decisões e acompanhamento permanente do mundo jurídico. Com o passar dos anos, o ConJur transformou-se em referência para advogados, magistrados, integrantes do Ministério Público, professores, estudantes, jornalistas e leitores interessados em compreender a Justiça brasileira.
Ali estava uma das grandes qualidades profissionais de Márcio: compreender que Direito também é notícia.
Uma decisão judicial não interessa apenas aos advogados envolvidos naquele processo. Ela pode modificar relações de trabalho, interferir na economia, alterar políticas públicas, mudar a interpretação de uma lei ou atingir diretamente a vida de milhões de brasileiros. Era necessário explicar não somente quem ganhou ou perdeu uma causa, mas compreender os fundamentos, as teses e suas consequências.
Márcio ajudou a consolidar essa cultura no jornalismo brasileiro.
Ao longo dos anos, o ConJur deixou de ser apenas um veículo de notícias para se transformar também em um extraordinário arquivo da evolução da Justiça no país. Milhares de reportagens, entrevistas, artigos, decisões, documentos e análises passaram a registrar mudanças de jurisprudência, transformações nos tribunais, grandes debates jurídicos e momentos decisivos da vida institucional brasileira.
Mas Márcio queria mais.
Sua inquietação jornalística avançou para outros projetos editoriais e encontrou uma de suas maiores expressões nos Anuários da Justiça.
O projeto iniciado em 2007 passou a produzir verdadeiras radiografias do Poder Judiciário. O Anuário da Justiça Brasil, que em 2026 chegou à sua 20ª edição, acompanhou durante duas décadas a cúpula do Judiciário brasileiro, seus integrantes, suas decisões e as transformações da jurisprudência. Outros projetos ampliaram esse trabalho, entre eles o Anuário da Justiça São Paulo, dedicado ao maior Tribunal de Justiça do país, e publicações voltadas à Justiça do Trabalho.
Ali estava novamente a marca de Márcio: não apenas informar sobre o presente, mas construir memória para o futuro.
Uma revista termina sua edição. Uma notícia deixa a página principal. Uma manchete é substituída no dia seguinte. Mas um trabalho de documentação permanece. Os Anuários passaram a registrar uma época, seus personagens, decisões, tendências e mudanças institucionais.
Essa preocupação em preservar a história aproxima ainda mais a obra de Márcio daquilo que a Família Ciglioni viveu ao seu lado.
Porque existe um capítulo dessa trajetória que, para nós, possui um significado profundamente especial: a relação de Márcio Chaer com Hilda Ciglioni e com o programa Questão de Justiça.
Hilda dedicou grande parte de sua trajetória profissional à aproximação entre comunicação, Justiça e cidadania. À frente do Questão de Justiça, entrevistou personalidades da advocacia, da magistratura e das instituições brasileiras. Eram conversas que buscavam levar ao público personagens e discussões importantes do universo jurídico.
E Márcio estava presente nessa história.
As entrevistas realizadas pelo Questão de Justiça eram veiculadas por Márcio Chaer no ConJur.
Isso precisa ficar registrado.
Não se tratava de uma colaboração eventual ou de uma gentileza isolada. Existia uma verdadeira parceria jornalística. O conteúdo produzido pelo programa encontrava no ConJur uma nova janela de divulgação e chegava diretamente ao universo jurídico que acompanhava diariamente a publicação de Márcio.
Uma entrevista não terminava quando as câmeras do Questão de Justiça eram desligadas. Ela podia continuar sua trajetória nas páginas do ConJur, alcançar advogados, magistrados, professores, estudantes e integrantes das principais instituições brasileiras.
Para nossa família, isso tinha um valor enorme.
Márcio acreditava no trabalho de Hilda.
Respeitava sua trajetória, reconhecia a importância das entrevistas e ajudava a dar repercussão ao conteúdo produzido pelo programa. Entre os dois havia algo que somente jornalistas que viveram intensamente uma redação conseguem compreender: o reconhecimento profissional de quem sabe identificar uma boa pauta, uma entrevista importante e uma informação que merece chegar ao público.
A parceria transformou-se em confiança. E a confiança transformou-se em amizade.
Essa proximidade não se restringiu a Hilda. Waldemar Ciglioni também manteve uma relação estreita com Márcio, fazendo com que aquela convivência ultrapassasse os limites profissionais. Já não estávamos falando simplesmente de um veículo que divulgava o trabalho de outro. Estávamos falando de pessoas que passaram a fazer parte da história umas das outras.
Márcio tornou-se parte das nossas lembranças.
Quando recordamos Hilda, inevitavelmente aparecem as histórias do Questão de Justiça. Quando recordamos aquele programa, aparecem seus entrevistados, suas pautas, suas grandes conversas e também aqueles que acreditaram no projeto. E entre essas pessoas está Márcio Chaer.
Por isso, a notícia de sua morte nos atingiu de maneira tão profunda.
Perder Márcio significa perder um dos últimos grandes personagens vivos de uma história que nossa família guarda com enorme carinho. Significa abrir novamente os arquivos da memória e encontrar Hilda, Waldemar, as entrevistas, as conversas, as pautas e os momentos em que Márcio estava lá.
E existe uma palavra que retorna permanentemente quando pensamos nele: lealdade.
Márcio era um amigo de verdade.
Podia discordar. Podia ter suas posições. Podia defender suas convicções com enorme firmeza. Mas conosco sempre existiu verdade. Era possível conversar, pedir uma opinião, apresentar uma pauta ou simplesmente falar como amigos.
Nos momentos em que podia ajudar, ajudava.
Isso não aparece em currículo.
Não está registrado na ficha profissional.
Não cabe em uma biografia.
Mas talvez seja uma das coisas mais importantes que uma pessoa deixa quando parte.
Sua morte inesperada, depois de um episódio de violência em São Paulo, torna este momento ainda mais doloroso. As circunstâncias estão sendo registradas e apuradas pelas autoridades e pela imprensa. Mas a Família Ciglioni faz questão de deixar uma posição muito clara: não queremos que os últimos minutos da vida de Márcio sejam maiores do que todas as décadas que vieram antes deles.
Márcio Chaer não pode ser definido pela maneira como morreu.
Precisa ser lembrado pela maneira como viveu.
Pelo jovem jornalista que passou por grandes redações.
Pelo profissional que percebeu o potencial da internet quando aquele universo ainda estava começando.
Pelo homem que ajudou a implantar uma nova maneira de acompanhar o Direito no Brasil.
Pelo fundador do ConJur.
Pelo editor.
Pelas revistas.
Pelos Anuários.
Pelas milhares de reportagens.
Pelas entrevistas.
Pelos documentos preservados.
Pela memória construída.
Pelos jornalistas que trabalharam ao seu lado.
Pelos profissionais do Direito que encontraram naquele veículo um espaço permanente de informação e debate.
E também pelo amigo.
O próprio mundo jurídico demonstrou, nas manifestações de pesar que se seguiram à notícia de sua morte, o tamanho das relações construídas por Márcio ao longo da vida. Advogados, magistrados, integrantes das instituições, jornalistas e pessoas que conviveram com ele passaram a registrar suas lembranças. É significativo perceber que as homenagens vieram de pessoas com pensamentos e posições diferentes.
Isso diz muito sobre a trajetória de um jornalista.
O Brasil atravessa um momento em que diálogo e equilíbrio são cada vez mais necessários. Vivemos uma época em que divergências rapidamente se transformam em confrontos e em que a velocidade das redes sociais muitas vezes substitui a reflexão pela reação imediata.
Márcio tinha posições. Tinha convicções. Nunca escondeu isso.
Mas também sabia conversar.
Sabia construir relações.
Sabia que o jornalismo precisava ouvir.
E homens capazes de preservar relações mesmo diante das diferenças fazem falta.
Hoje pensamos também na equipe do ConJur. Uma redação sabe perfeitamente o que significa perder alguém que representa muito mais do que o cargo que ocupa. Um fundador não é substituído simplesmente pela troca de um nome no expediente. Sua presença está na cultura, nas decisões tomadas ao longo de décadas, nos projetos criados e na maneira como aquela instituição aprendeu a enxergar o mundo.
Márcio continuará presente em cada arquivo do ConJur.
Estará nos Anuários.
Estará nas revistas.
Estará nas entrevistas.
Estará nas reportagens.
Estará nas decisões históricas preservadas.
Estará nos textos que continuam disponíveis para pesquisadores, estudantes e profissionais do Direito.
E estará, principalmente, nas pessoas que trabalharam com ele.
Para a Família Ciglioni, entretanto, haverá ainda outro arquivo.
Um arquivo que não está hospedado em nenhum servidor.
A memória.
É nela que Márcio permanecerá conosco.
Estará ao lado de Hilda quando recordarmos as grandes entrevistas do Questão de Justiça.
Estará ao lado de Waldemar quando lembrarmos dos amigos que fizeram parte de nossa caminhada.
Estará em cada história daquela época.
Estará na lembrança das entrevistas que saíam das câmeras do programa e encontravam espaço no ConJur.
Estará na gratidão por alguém que acreditou em nosso trabalho quando acreditar significava estar presente.
Talvez Hilda, se estivesse aqui neste sábado, tivesse muito mais histórias para contar. Certamente falaria das pautas, das entrevistas, dos telefonemas, das conversas e daquela cumplicidade que existe entre jornalistas que se respeitam.
Hoje cabe a nós falar também por essa memória.
E dizer aquilo que provavelmente ela própria gostaria de dizer:
obrigada, Márcio.
Obrigado por acreditar no Questão de Justiça.
Obrigado por acreditar em Hilda.
Obrigado pelo carinho e respeito por Waldemar.
Obrigado por cada entrevista que encontrou espaço no ConJur.
Obrigado pelas conversas.
Obrigado pela confiança.
Obrigado pela lealdade.
Obrigado por nunca precisar de meias palavras conosco.
Obrigado pela amizade.
Obrigado por ter feito parte da história da Família Ciglioni.
E obrigado por tudo aquilo que você construiu para o jornalismo brasileiro.
Algumas pessoas deixam empregos. Outras deixam carreiras. Algumas deixam empresas. Poucas conseguem deixar uma instituição e uma obra que ajudam a explicar a evolução de um segmento inteiro do jornalismo.
Márcio deixa a Revista Eletrônica Consultor Jurídico.
Deixa os Anuários da Justiça.
Deixa décadas de jornalismo.
Deixa um arquivo extraordinário sobre a história recente do Direito brasileiro.
Deixa uma geração de profissionais que conviveu com sua maneira de fazer jornalismo.
Mas, para nós, deixa algo ainda maior.
Deixa amor, respeito, gratidão e saudade.
A saudade de um homem que esteve presente em nossa história.
A saudade de um profissional que acreditou no trabalho de nossa família.
A saudade de um parceiro de Hilda e Waldemar.
A saudade de alguém que não precisava concordar com tudo para continuar sendo amigo.
A saudade de Márcio Chaer, nosso amigo.
A amizade verdadeira não desaparece quando alguém parte. Ela apenas deixa de existir na convivência diária e passa a ocupar outro lugar: a memória daqueles que ficaram.
E é ali que Márcio continuará.
O jornalismo brasileiro perdeu um profissional que ajudou a construir o jornalismo jurídico moderno. O Direito perdeu um interlocutor que dedicou décadas a acompanhar suas instituições. O ConJur perdeu seu fundador. Sua família perdeu alguém insubstituível.
E a Família Ciglioni perdeu um amigo de verdade.
Neste momento de imensa tristeza, nosso abraço mais carinhoso aos filhos, familiares e amigos de Márcio e a cada profissional do Consultor Jurídico.
Não queremos terminar esta homenagem com a palavra “adeus”.
Preferimos terminar como amigos.
Obrigado, Márcio.
Por Hilda.
Por Waldemar.
Pelo Questão de Justiça.
Pelo ConJur.
Pelo jornalismo.
Pelas revistas e pelos Anuários.
Pela amizade.
Pelo respeito.
Pela lealdade.
Por tudo.
Você fez parte da nossa história e continuará fazendo.
Com profundo respeito, carinho, amor e eterna gratidão,
Diretoria da São Paulo TV Broadcasting
Família Ciglioni

