
Pedro Nastri: o jornalista que fez de São Paulo sua grande reportagem e da memória paulistana uma missão de vida
Série Especial São Paulo TV Broadcasting
Grandes Nomes do Jornalismo Brasileiro
Por Beatriz Ciglioni — São Paulo TV Broadcasting
Há jornalistas que acompanham a história. Outros têm a oportunidade de testemunhá-la de perto. E existem aqueles que, depois de décadas observando as transformações de uma cidade e de seu povo, acabam eles próprios incorporados à memória que passaram a vida registrando. Pedro Oswaldo Nastri é um desses jornalistas.
Nascido em São Paulo, em 29 de junho de 1956, e profundamente ligado ao Brás, Nastri construiu uma trajetória que atravessa jornal, rádio, televisão, literatura, crônica e pesquisa histórica. Mais do que um profissional da comunicação, tornou-se um contador das histórias de São Paulo — especialmente das histórias que muitas vezes escapam aos registros oficiais, mas permanecem na memória de seus moradores.
Formado em Comunicação e Jornalismo pela tradicional Faculdade Cásper Líbero em 1979, começou a trabalhar ainda durante a faculdade. Sua formação profissional aconteceu em uma época muito diferente do jornalismo atual: redações barulhentas, máquinas de escrever, fechamento impresso, telefone como instrumento fundamental de apuração e repórteres que precisavam conhecer pessoalmente as ruas sobre as quais escreviam.
E rua é algo que Pedro Nastri conhece.
Seu vínculo com São Paulo começa antes do jornalismo. O Brás de sua infância, seus personagens, os imigrantes, comerciantes, trabalhadores, famílias e transformações urbanas acabariam fornecendo matéria-prima para uma vida inteira de observação da capital paulista. Sua produção como cronista e escritor passou justamente a preservar essa São Paulo humana, feita não apenas de grandes avenidas e edifícios, mas de bairros, lembranças e pessoas.
Sua juventude também coincidiu com um dos períodos mais difíceis da história política brasileira. Nastri participou dos movimentos estudantis durante a ditadura militar e, segundo registros biográficos disponíveis, foi levado ao DOPS em 1975. Dois anos depois, em 22 de setembro de 1977, estava entre os estudantes atingidos pela repressão ao encontro realizado na PUC-SP ligado à reorganização da UNE. Foi novamente conduzido ao DOPS.
É impossível separar completamente essas experiências da formação de um jornalista.
Nastri conheceu ainda jovem o significado da liberdade de expressão, da circulação de ideias e do direito de uma sociedade se manifestar. Décadas mais tarde, continuaria fazendo da palavra seu principal instrumento.
Sua carreira percorreu veículos que marcaram diferentes períodos da imprensa paulista. Trabalhou no Notícias Populares, na Folha da Tarde, na Gazeta Esportiva, no Popular da Tarde e na Rádio Trianon, além de ter passagem pela TV Gazeta, entre 1979 e 1980. Também colaborou com publicações como Shopping News, City News, Jornal da Semana e Folha de Esportes.
Essa diversidade ajuda a explicar sua formação.
Pedro Nastri aprendeu o jornalismo em várias de suas linguagens. Conheceu a velocidade da notícia diária, a força popular dos jornais, o imediatismo do rádio, a imagem da televisão e, ao mesmo tempo, a permanência proporcionada pelo livro.
Participou ainda do ambiente cultural paulistano do início dos anos 1980. Esteve ligado ao movimento do Grupo Poetasia e colaborou com o Lira Paulistana, espaço emblemático da efervescência cultural daquele período. Era uma São Paulo que experimentava novas formas de música, poesia, teatro e comunicação — e Nastri estava no meio dessa transformação.
Mas foi sua relação com a memória da cidade que deu à carreira uma característica muito particular.
Nastri escreveu sobre São Paulo como alguém que não observa a cidade de fora. Ele escreve como quem pertence a ela.
Seus textos e histórias chegaram a veículos como O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo, além de projetos dedicados à preservação da memória paulistana.
Também transformou essa pesquisa em livros. Entre suas obras estão “Memórias Paulistanas”, “1000 Histórias da Cidade de São Paulo”, “Pequena História da Imprensa Paulista” e “50 Anos da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo”.
Os títulos dizem muito sobre o autor.
Memória. São Paulo. Imprensa. História.
São palavras que acompanham praticamente toda a sua vida profissional.
Sua participação nas entidades representativas da imprensa também demonstra uma preocupação com o jornalismo para além do trabalho individual. O Portal dos Jornalistas registra sua passagem pela Diretoria Cultural da Associação Paulista de Imprensa entre 2010 e 2013, pela direção da União Brasileira de Imprensa e, posteriormente, pela vice-presidência da entidade, além de outras atividades institucionais ligadas à comunicação.
A biografia disponível atualmente também o apresenta como integrante da cadeira nº 8 da Academia Contemporânea de Letras.
Mas currículo algum explica completamente um jornalista.
O que explica Pedro Nastri é a curiosidade.
A capacidade de conversar.
A memória.
O prazer de contar uma boa história.
E, principalmente, uma relação quase afetiva com São Paulo.
É o jornalista que consegue transitar da política para a memória de um bairro; da entrevista para a crônica; da história de uma personalidade conhecida para a lembrança aparentemente pequena de uma rua, de um comércio ou de um personagem paulistano.
No rádio, essa característica ganha ainda outra dimensão. A voz aproxima. A conversa substitui a solenidade. O entrevistado deixa de ser apenas fonte e passa a contar sua própria história.
A Rádio Trianon, uma das casas profissionais de Nastri, pertence à tradição do radiojornalismo paulistano e consolidou-se como emissora voltada ao jornalismo e à prestação de serviços.
É justamente nesse ambiente que o estilo de Pedro Nastri encontra uma de suas melhores expressões: a entrevista como conversa inteligente.
Existe nele algo do jornalista de uma escola que o tempo tornou cada vez mais rara — aquela em que conhecer a cidade era tão importante quanto conhecer a pauta.
Uma escola em que o repórter acumulava histórias porque estava presente.
Porque ouviu.
Porque perguntou.
Porque viu.
Porque guardou.
Aos 70 anos, completados em junho de 2026, Pedro Nastri carrega aproximadamente meio século de convivência com o jornalismo.
E talvez seja justamente por isso que contar sua história significa também contar um pedaço da própria imprensa de São Paulo.
Do jornal impresso ao rádio.
Da máquina de escrever ao celular.
Do fechamento da redação à transmissão instantânea.
Do velho Brás à metrópole global.
Pedro Nastri atravessou essas transformações sem abandonar aquilo que está na essência da profissão: a vontade de contar histórias.
Por isso, a São Paulo TV Broadcasting abre com ele um novo capítulo de sua série de homenagens.
Depois de celebrar grandes nomes do Direito e da Justiça, chega o momento de preservar também a memória daqueles que fizeram da informação uma vida.
“Grandes Nomes do Jornalismo Brasileiro” nasce para contar as histórias dos homens e mulheres que ajudaram a construir a imprensa, formar opinião, registrar seu tempo e preservar a memória do país.
E começar por Pedro Nastri tem um significado especial.
Porque poucas coisas combinam tanto com a história do jornalismo quanto um homem que passou a vida fazendo perguntas e poucas coisas combinam tanto com São Paulo quanto alguém que jamais se cansou de contar suas histórias.
Pedro Nastri não apenas noticia São Paulo.
Ele guarda São Paulo na memória — e devolve essa memória em forma de jornalismo.

