
Fausto Camunha: mais de seis décadas de jornalismo, uma vida entre a notícia, a história e amizades que atravessam gerações
Série Especial São Paulo TV Broadcasting
Grandes Nomes do Jornalismo Brasileiro
Por Beatriz Ciglioni — São Paulo TV Broadcasting
Há jornalistas cuja trajetória pode ser medida pelo número de redações pelas quais passaram, pelas reportagens que produziram ou pelos grandes acontecimentos que testemunharam. E há profissionais cuja história ultrapassa o currículo porque, ao longo de décadas, eles também construíram relações humanas, amizades e vínculos que acabam se confundindo com a própria memória do jornalismo.
Fausto Eduardo Camunha pertence a essa geração.
Sua vida profissional atravessa mais de seis décadas de profundas transformações na comunicação brasileira. Fausto conheceu o jornalismo impresso, viveu a força do rádio, participou dos primeiros tempos do telejornalismo moderno, acompanhou a passagem do filme para o videotape, ocupou posições de comando em redações, conheceu os bastidores da política, tornou-se gestor público, escritor e chegou à era dos portais e podcasts ainda fazendo aquilo que sempre fez: comunicando.
Mas, para a família Ciglioni, contar a história de Fausto Camunha significa contar também uma história de amizade.
Uma amizade de mais de quatro décadas, construída muito antes da atual geração e transmitida de pai para filho como parte de uma herança afetiva.
Fausto conviveu com Waldemar Ciglioni, grande radialista e jornalista de uma época de ouro da comunicação brasileira. A amizade entre os dois nasceu em um período no qual o rádio possuía uma força extraordinária na sociedade e os profissionais da imprensa construíam relações que frequentemente ultrapassavam as redações.
Ao lado dessa história está também Hilda Ciglioni, jornalista, mulher de personalidade forte e figura central na história da família. Para aqueles que vieram depois, Hilda permaneceu como referência de coragem, determinação e independência feminina — uma mulher que fez do jornalismo parte de sua identidade numa época em que ocupar espaços profissionais na imprensa representava um desafio ainda maior para as mulheres.
Fausto conheceu essa geração.
Conviveu com ela.
E a amizade permaneceu.
Com o passar dos anos, o vínculo construído com Waldemar e Hilda chegou à geração seguinte. A amizade foi herdada pelo meu Pai jornalista e relações-públicas, e hoje alcança também a nova geração da família.
São mais de quarenta anos de uma relação que deixou de ser apenas profissional.
Fausto tornou-se nosso querido amigo.
E talvez poucas coisas expressem tanto o caráter de uma pessoa quanto amizades capazes de atravessar décadas, sobreviver às mudanças da vida e continuar chegando às gerações seguintes.
A inesperada porta de entrada para o jornalismo
Curiosamente, uma carreira tão longa começou por um acontecimento aparentemente banal.
Antes de entrar para a imprensa, Fausto trabalhava como office-boy do Banco Noroeste. Certo dia recebeu a incumbência de transportar uma pesada chopeira da residência de um gerente. Sem condições de carregá-la sozinho e sem conseguir ajuda, recusou-se. Acabou demitido.
Ao voltar para casa encontrou na Gazeta de Santo Amaro um anúncio perguntando: “Você quer ser jornalista?”.
Queria.
Participou da seleção, foi aprovado e começou ali uma carreira que atravessaria mais de sessenta anos. Décadas depois, ele próprio passaria a chamar aquele objeto responsável indiretamente por sua demissão de “bendita chopeira”.
Na Gazeta de Santo Amaro permaneceu sete anos e viveu experiências que antecipavam o olhar atento que marcaria sua carreira. Foi responsável, por exemplo, pela primeira reportagem sobre a estátua de Borba Gato quando a obra de Júlio Guerra ainda estava sendo produzida. Também conviveu profissionalmente com jovens jornalistas que posteriormente conquistariam projeção nacional.
Do rádio para o Jornal Nacional
O rádio abriu a etapa seguinte.
Depois de um encontro com Lorival Pacheco, surgiu a oportunidade de realizar um teste na Rádio Bandeirantes. Aprovado, passou a integrar a equipe dos históricos “Titulares da Notícia”, permanecendo oito anos na emissora. Mais tarde seguiria para a Rádio Nacional.
Outra coincidência modificaria sua vida.
Um redator do Jornal Hoje faltou e Fausto foi chamado para substituí-lo. A substituição se repetiu até que surgiu o convite para permanecer definitivamente na televisão.
Pouco depois estava diante de um dos maiores desafios profissionais possíveis para um jornalista brasileiro daquele período: trabalhar no Jornal Nacional. Fausto tornou-se editor-chefe do telejornal em São Paulo no início da década de 1970.
Era outra televisão.
As reportagens eram registradas em filme e precisavam ser reveladas quando as equipes retornavam à emissora. Uma falha técnica poderia simplesmente eliminar o trabalho realizado durante todo o dia. Fausto presenciou a chegada da televisão em cores e a transformação tecnológica que substituiria gradualmente o filme pelo vídeo.
Ele não apenas assistiu à modernização do jornalismo brasileiro.
Ele estava dentro das redações enquanto ela acontecia.
TV Cultura, Vladimir Herzog e uma decisão de princípios
Depois vieram outras experiências importantes, incluindo a Jovem Pan e a TV Cultura.
Na Cultura, convidado pelo jornalista Walter Sampaio, Fausto ocupou função de liderança no jornalismo e conviveu profissionalmente com Vladimir Herzog, um dos nomes mais emblemáticos da história da imprensa brasileira.
Um episódio daquele período revela muito sobre sua personalidade.
Quando houve mudança na direção, Herzog teria convidado Fausto para continuar na emissora. Camunha preferiu acompanhar Walter Sampaio, responsável por sua chegada à TV Cultura.
Para ele, era uma questão de lealdade e ética profissional.
Esses valores atravessariam sua carreira.
Fausto nunca foi apenas um homem de câmera ou microfone. Sua vocação sempre esteve profundamente ligada à redação: escrever, editar, organizar, dirigir equipes e ajudar outros profissionais a crescer.
E muitos cresceram.
Uma de suas maiores satisfações, segundo ele próprio relata, é justamente saber que ajudou a abrir caminhos para outros jornalistas.
Da redação para o poder público
Sua experiência acabaria conduzindo-o também à comunicação institucional e à administração pública.
Trabalhou em assessoria de imprensa, passou pela Comgás, teve experiências ligadas ao governo estadual e à Federação Paulista de Futebol e, posteriormente, assumiu responsabilidades diretamente relacionadas à gestão pública.
Em 1993 tornou-se secretário-adjunto de Esportes e Turismo do Estado de São Paulo e, posteriormente, secretário titular. Entre junho de 1998 e dezembro de 2000, exerceu o cargo de Secretário Municipal de Esportes, Lazer e Recreação de São Paulo, durante a administração Celso Pitta.
Foi uma experiência singular para um jornalista.
Depois de passar anos fazendo perguntas às autoridades, Fausto conheceu o outro lado da relação entre imprensa e poder público.
E esse percurso lhe proporcionou algo raro: compreender a comunicação a partir da redação, da assessoria e da própria administração.
A maior dor de sua vida
Nenhuma carreira, por mais brilhante que seja, existe separada da vida.
E a de Fausto foi atravessada por uma dor impossível de dimensionar.
Em setembro de 1997, perdeu seu único filho, Eduardo, em um acidente automobilístico.
Há acontecimentos diante dos quais títulos, cargos e conquistas profissionais perdem qualquer importância.
Fausto conheceu essa dor.
Mas continuou.
Recomeçou.
Trabalhou.
Escreveu.
E transformou também as experiências difíceis em memória.
Essa capacidade de seguir em frente talvez revele tanto sobre o homem quanto toda a sua extensa biografia profissional.
Um mergulho na própria história
Depois de décadas testemunhando a história dos outros, chegou o momento de Fausto registrar a própria.
Em 2024 lançou “Um Mergulho na História – Relatos sobre mudanças no jornalismo e na política”, reunindo lembranças pessoais e profissionais acumuladas durante mais de seis décadas.
O livro funciona também como documento sobre uma imprensa que praticamente não existe mais.
Fausto viu máquinas desaparecerem, redações se informatizarem, filmes serem substituídos pelo vídeo, a televisão ganhar cores, o rádio se reinventar, jornais enfrentarem a revolução digital e a informação passar a circular instantaneamente pelo celular.
E continuou trabalhando.
Ligou sua experiência também ao Orbis News, além de levar sua trajetória para os novos formatos digitais.
O programa “Gente que Fala”, criado no início dos anos 2000, tornou-se outro símbolo dessa longevidade profissional. Em 2025, o projeto ganhou também formato de podcast diário, demonstrando algo essencial sobre Fausto Camunha: ele pertence a uma geração antiga do jornalismo, mas nunca decidiu viver apenas de passado.
Jornalismo é, antes de tudo, compromisso com o fato
Depois de tantas décadas, sua concepção da profissão permanece surpreendentemente simples.
O jornalista precisa respeitar o fato.
Antes da opinião existe a informação. Antes da interpretação existe a apuração. E antes da velocidade precisa existir responsabilidade.
É uma lição particularmente importante em um momento no qual qualquer pessoa pode produzir conteúdo, mas nem todo conteúdo pode ser chamado de jornalismo.
Fausto atravessou tecnologias diferentes sem abandonar esses princípios.
Talvez seja por isso que suas amizades também tenham atravessado o tempo.
Para a família Ciglioni, ele não é apenas o jornalista que passou por algumas das principais redações brasileiras.
É o amigo de Waldemar Ciglioni.
É o amigo de Hilda Ciglioni.
É a amizade que Pai recebeu de seus pais e que preservou ao longo da própria vida e que agora vira parte da minha.
E é, hoje, também amigo daqueles que vieram depois.
Essa continuidade possui um significado especial porque o jornalismo é feito de memória. E a memória não está apenas nos arquivos, fotografias, gravações ou antigas páginas de jornal.
Ela está nas pessoas.
Está nas conversas que permanecem.
Nos conselhos.
Nas histórias repetidas durante anos.
Nos amigos que conheceram nossos pais e avós e que, ao permanecerem próximos, acabam preservando também uma parte deles dentro de nossas próprias vidas.
Mais de quarenta anos depois, Fausto Camunha continua fazendo parte da história da família Ciglioni.
Por isso, esta homenagem da série “Grandes Nomes do Jornalismo Brasileiro”, da São Paulo TV Broadcasting, tem um significado diferente.
Não é somente uma reportagem sobre um grande profissional.
É também um agradecimento.
Ao jornalista que testemunhou transformações extraordinárias na imprensa brasileira.
Ao homem que enfrentou conquistas e perdas sem abandonar sua capacidade de recomeçar.
Ao profissional que continua acreditando no valor da notícia.
E, sobretudo, ao amigo que atravessou gerações.
Fausto Camunha faz parte da história do jornalismo brasileiro. Mas, para nós, faz parte também da nossa própria história.
E existem amizades que não precisam de manchetes para se tornarem importantes.
Precisam apenas de tempo.
A de Fausto Camunha com a família Ciglioni já tem mais de quatro décadas — e continua sendo escrita.

