
TIRADENTES: O LEGADO DE LIBERDADE E OS DESAFIOS DA DEMOCRACIA NO BRASIL DE HOJE
Por Georgina Sales e Edir Sales Vereadora de São Paulo
O dia 21 de abril não é apenas uma data no calendário nacional. É um marco de reflexão sobre o passado e, sobretudo, sobre o presente e o futuro do Brasil. A trajetória de Joaquim José da Silva Xavier permanece como um dos maiores símbolos da luta por liberdade, justiça e construção de uma sociedade mais equilibrada.
Nascido em 1746, em Minas Gerais, Tiradentes viveu em um Brasil ainda sob o domínio da Coroa portuguesa. Era um homem comum, que exerceu diversas funções ao longo da vida, como tropeiro, minerador, dentista prático e militar. Não pertencia à elite, mas foi profundamente impactado pelas ideias iluministas que circulavam no mundo naquele período, especialmente aquelas que defendiam liberdade e autonomia.
Esses ideais o levaram a integrar a Inconfidência Mineira, um movimento que buscava romper com a exploração econômica e estabelecer uma nova forma de organização política: uma república independente. O movimento, no entanto, foi descoberto antes de sua execução. Seus integrantes foram presos, julgados e condenados.
Entre todos, Tiradentes foi o único a assumir integralmente a responsabilidade pelo levante.
Sua execução, em 21 de abril de 1792, foi marcada pela brutalidade. Enforcado em praça pública e posteriormente esquartejado, seu corpo foi exposto como forma de intimidação. O que a Coroa pretendia usar como exemplo de repressão acabou se transformando, com o passar do tempo, em símbolo de resistência.
Com a Proclamação da República, Tiradentes foi reconhecido como herói nacional, passando a representar a luta por liberdade, justiça e soberania. Mais do que um personagem histórico, tornou-se um referencial moral para o Brasil.
Hoje, mais de dois séculos depois, o país vive sob um regime democrático, com instituições consolidadas e direitos garantidos pela Constituição Federal de 1988. O voto é universal, há liberdade de expressão e mecanismos de participação social. Sob esse aspecto, é inegável que o Brasil avançou.
Mas a democracia não se resume às instituições.
Ela se concretiza na vida das pessoas.
E é justamente nesse ponto que ainda enfrentamos grandes desafios. A desigualdade social, a dificuldade de acesso a serviços essenciais e a distância entre o Estado e o cidadão mostram que, embora tenhamos conquistado a democracia formal, ainda estamos em processo de consolidar uma democracia plena.
Se no tempo de Tiradentes a luta era contra a opressão colonial, hoje os desafios são estruturais. Eles se manifestam na necessidade de políticas públicas eficazes, capazes de transformar direitos em realidade concreta.
A educação de qualidade, o acesso à saúde, a mobilidade urbana, a segurança pública e a proteção dos mais vulneráveis não são apenas demandas sociais — são pilares fundamentais de uma democracia verdadeira.
Tiradentes não lutou apenas por independência política. Lutou contra a injustiça. Lutou por um país onde as decisões não fossem impostas de cima para baixo, mas construídas com base no interesse coletivo.
Esse ideal continua atual.
A manutenção dos direitos conquistados exige vigilância constante. Nenhuma democracia está plenamente garantida. Ela precisa ser defendida, fortalecida e aperfeiçoada diariamente.
Mais do que isso, precisa alcançar todos os brasileiros — especialmente aqueles que mais necessitam do Estado.
O 21 de abril, portanto, não deve ser apenas um momento de homenagem. Deve ser um compromisso renovado com a construção de um país mais justo, mais igualitário e mais humano.

As lições de Tiradentes para o Brasil de hoje
A história de Tiradentes não é apenas um registro do passado — é um guia para o presente. Entre as principais lições que seu legado nos deixa, destacam-se:
A liberdade exige coragem. Tiradentes mostrou que mudanças não acontecem sem enfrentamento e sem disposição para agir diante das injustiças.
A justiça social deve ser um compromisso permanente. Não basta conquistar direitos; é preciso garantir que eles cheguem a todos, especialmente aos mais vulneráveis.
A democracia precisa ser vivida, não apenas proclamada. Votar é essencial, mas a verdadeira democracia se constrói no acesso real a oportunidades e dignidade.
O cidadão tem papel central na transformação do país. A história mostra que grandes mudanças começam com atitudes individuais que inspiram coletivos.
O poder público deve servir à população. Políticas públicas eficazes são o instrumento mais concreto para reduzir desigualdades e promover inclusão.
A liberdade não é definitiva. É uma construção contínua que exige vigilância, responsabilidade e compromisso de toda a sociedade.
Mais de dois séculos depois, Tiradentes continua vivo na consciência nacional.
E sua história nos lembra que o Brasil que desejamos ainda está em construção — e depende, todos os dias, das escolhas que fazemos como sociedade.
