
Fraudes no INSS: investigação aponta esquema bilionário, participação de agentes públicos e prejuízo direto a aposentados a PF pediu ao STF prisão do senador Weverton Rocha; PGR foi contra
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Reportagem Especial jornalista Samys Montanaro
A retirada do sigilo de decisões judiciais no âmbito da Operação Sem Desconto revelou novos elementos de uma investigação que apura um dos maiores esquemas de fraudes já identificados no sistema previdenciário brasileiro. Segundo a Polícia Federal, descontos irregulares em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) podem ter causado prejuízos de até R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024.

As apurações indicam que entidades associativas realizaram cobranças mensais diretamente nos benefícios previdenciários sem autorização dos titulares. Os valores eram debitados automaticamente, como se aposentados e pensionistas tivessem aderido voluntariamente a associações que prometiam serviços como assistência jurídica ou convênios diversos. Em muitos casos, essas entidades não possuíam estrutura mínima, sede funcional ou prestação efetiva de serviços.
Fraudes no INSS: PF pediu ao STF prisão do senador Weverton Rocha; PGR foi contra, segundo informações do site G1 – https://g1.globo.com/google/amp/politica/noticia/2025/12/18/fraudes-no-inss-pf-pediu-ao-stf-prisao-de-weverton-e-de-numero-2-da-previdencia-pgr-foi-contra.ghtml
No centro do caso está o senador Weverton Rocha (PDT-MA). De acordo com a Polícia Federal, ele é citado nas investigações como possível beneficiário final de operações financeiras estruturadas pelo grupo investigado. A PF chegou a solicitar ao Supremo Tribunal Federal (STF) a prisão do parlamentar, apontando vínculos estreitos com operadores do esquema, uso de interpostas pessoas e relações diretas com integrantes da estrutura criminosa.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifestou contrária à prisão, sob o argumento de que, até o momento, não haveria comprovação direta de recebimento de valores ilícitos pelo senador. Diante desse entendimento, o STF autorizou apenas mandados de busca e apreensão. As investigações seguem em andamento.
Além do parlamentar, a operação identificou participação de agentes públicos e servidores ligados ao sistema previdenciário. O então secretário-executivo do Ministério da Previdência Social — segundo cargo mais alto da pasta à época — foi afastado e teve prisão domiciliar decretada por decisão judicial. Outros ex-dirigentes, assessores e operadores financeiros também foram alvo de prisões, afastamentos e medidas cautelares.
Segundo dados da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União (CGU), mais de 97% dos beneficiários entrevistados afirmaram não ter autorizado os descontos. Em muitos casos, as vítimas só perceberam a irregularidade meses ou até anos depois, ao consultar extratos detalhados ou ao tentar realizar operações bancárias.
O aposentado Gilson Barbosa da Silva, ouvido em reportagem da CNN Brasil, relatou que teve R$ 120 descontados mensalmente durante mais de dois anos sem seu conhecimento. Segundo ele, a irregularidade só foi descoberta ao tentar contratar um empréstimo consignado.
“O que eu senti foi indignação. Descobrir que estavam tirando dinheiro da minha aposentadoria sem autorização causa revolta. A gente contribui a vida inteira e espera segurança”, afirmou à CNN Brasil.
Outro aposentado, também ouvido pela CNN Brasil, relatou dificuldade semelhante:
“Ninguém avisou nada. A gente só percebe quando olha o extrato com atenção. Até lá, o dinheiro já foi descontado.”
Patrimônio do senador entra no radar público
Paralelamente às investigações criminais, reportagens jornalísticas passaram a analisar a evolução patrimonial do senador Weverton Rocha. Levantamento publicado pelo portal Metrópoles, na coluna do jornalista Tácio Lorran, com apuração conjunta de Manuel Marçal, revelou que o parlamentar adquiriu uma fazenda avaliada em R$ 15 milhões no município de Matões do Norte (MA) .
De acordo com a reportagem, o valor do imóvel é mais do que o triplo do patrimônio total declarado pelo senador à Justiça Eleitoral nas eleições de 2022, quando informou possuir cerca de R$ 4,2 milhões em bens. Parte da fazenda, com área de 837 hectares, foi adquirida por meio da empresa DJ Agropecuária, Comércio e Prestação de Serviços Ltda, ligada ao parlamentar. A escritura aponta pagamento por transferência bancária e recolhimento de aproximadamente R$ 140 mil em ITBI.
Ainda segundo o Metrópoles, após a aquisição do imóvel rural, foi construída uma pista de pouso ao lado da fazenda. No papel, o senador não declara possuir aeronaves, mas utiliza jatinhos com frequência no estado do Maranhão. Um deles, conforme revelado pela reportagem, pertence a um representante do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, apontado como figura central no esquema de fraudes investigado pela Polícia Federal .
A mesma apuração jornalística informa que, em abril de 2025, o senador também adquiriu um apartamento avaliado em R$ 1,2 milhão no bairro do Jardim Paulista, em São Paulo, com pagamento parcelado.
Em nota enviada ao Metrópoles, Weverton Rocha afirmou que todas as suas atividades econômicas e empresariais estão devidamente declaradas e que os bens adquiridos seguem a lógica da legalidade fiscal.
Estrutura do esquema
Segundo as investigações, pelo menos 11 entidades associativas foram alvo de medidas judiciais. Os contratos dessas entidades com aposentados e pensionistas foram suspensos. A Polícia Federal aponta que diversas dessas organizações não possuíam quadro técnico compatível, sede funcional ou capacidade operacional, apesar de movimentarem volumes expressivos de recursos.
A operação também identificou indícios de lavagem de dinheiro, uso de empresas de fachada e movimentações financeiras incompatíveis com a atividade declarada. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão, prisões preventivas e outras medidas cautelares em estados como São Paulo, Minas Gerais, Maranhão, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e no Distrito Federal.
Há ainda indícios de que o grupo investigado pretendia expandir o modelo de fraude para outros sistemas de pagamento de benefícios sociais, o que ampliou o alerta das autoridades.
Ressarcimento às vítimas
Diante do impacto social do caso, foi anunciada a devolução dos valores descontados indevidamente aos aposentados e pensionistas. O ressarcimento está sendo realizado em parcela única, e o prazo para contestação dos descontos foi prorrogado até 14 de fevereiro de 2026.
A Operação Sem Desconto segue em andamento, com análise de documentos, rastreamento de fluxos financeiros e novos depoimentos. As autoridades informam que outras fases da investigação não estão descartadas.
O caso evidencia falhas relevantes nos mecanismos de controle, fiscalização e autorização de descontos automáticos no sistema previdenciário e reforça a necessidade de procedimentos mais rigorosos de consentimento, transparência e proteção ao cidadão, especialmente em um sistema que atende milhões de brasileiros que dependem do benefício para sua subsistência.
