
A VIDA COMO ORAÇÃO, O DIREITO COMO MISSÃO: OS 90 ANOS DE IVES GANDRA MARTINS
Da Diretoria de Jornalismo da São Paulo Tv por Beatriz Ciglioni
Há vidas que não cabem apenas na biografia. Cabem na alma de um país. Aos 90 anos, Ives Gandra da Silva Martins é um desses homens que deixam de pertencer à própria história e passam a pertencer ao Brasil. Celebrar o seu aniversário não é apenas celebrar um notável jurista. É celebrar um intelectual que tratou a ética como fundamento, a cultura como missão, a fé como coluna e o Direito como forma de servir.
A São Paulo TV Broadcasting tem orgulho e comoção em publicar esta entrevista especial. É mais do que jornalismo: é uma homenagem a um patrimônio vivo. O menino franzino das Arcadas, criado em uma casa simples onde música, disciplina e espiritualidade se encontravam com naturalidade, tornou-se uma das referências mais sólidas do pensamento jurídico brasileiro e um modelo moral para gerações.

Entre pianos afinados por seus irmãos — os gênios João Carlos, José Eduardo e José Paulo — e os livros que seu pai e sua mãe lhe colocavam nas mãos, Ives aprendeu cedo que cultura é caráter, que estudo é vocação e que servir é o único caminho possível para quem deseja um país melhor. Assim moldou a inteligência, a sensibilidade e a coragem que marcaram sua trajetória.

Foi advogado brilhante, tributarista monumental, filósofo rigoroso, professor devotado, pensador do Estado, construtor de pontes institucionais, autor de mais de 100 livros, presença respeitada em dezenas de Academias e universidades do Brasil e do exterior. Mas, diante de toda essa grandeza, ele insiste na humildade desarmante que o caracteriza: “Fui apenas advogado e professor.”
Não foi. Não é.
Ives Gandra é um dos faróis éticos e intelectuais de que o Brasil mais se orgulha.

E se seu nome pertence à história das ideias, seu coração pertence a Ruth, sua grande companheira de vida, amor de seis décadas, sustentáculo silencioso nos dias de luz e escudo firme nos dias sombrios — como no episódio do AI-5, quando sua coragem quase lhe custou a própria liberdade. Ruth foi seu norte. Seu porto. E permanece sua eternidade afetiva.

Em 2025, quando a Sala São Paulo irrompeu em aplausos para homenageá-lo, o país assistiu a um reencontro simbólico: o Direito e a Música — que moldaram seu destino — reverenciavam o menino cujas memórias estavam impregnadas de partituras. No palco onde seu irmão brilhou como pianista, a trajetória de Ives ecoou como uma sinfonia intelectual de seis décadas.

É com esse sentimento de reverência, admiração e responsabilidade histórica que a São Paulo TV oferece aos brasileiros esta entrevista comemorativa.

Ela não é apenas um registro.
É um documento para a posteridade.
Uma travessia por dentro da vida de um homem que transformou o Direito em missão, a fé em alicerce, o amor em vocação e o Brasil em compromisso.
Ives Gandra da Silva Martins
E agora, o Brasil o escuta.

ENTREVISTA COMEMORATIVA – 90 ANOS
BLOCO 1 – ORIGEM, FAMÍLIA E O DESTINO DE UM INTELECTUAL
Quando o senhor volta às suas primeiras memórias — a casa simples e cheia de música, os irmãos ao piano, a força moral de sua mãe Ester — que imagem explica quem o senhor se tornou?
Ives Gandra da Silva Martins – Não me considero diferente de todos os cidadãos que lutam por um país melhor. Fui apenas, na vida, advogado e professor universitário. Reconheço o papel de meus pais na formação cultural dos filhos, pois desde cedo nos faziam ler livros de moral da literatura e apreciar a arte em geral, principalmente, música. Por outro lado, realizavam, aos sábados, sarais culturais em casa, razão pela qual convivíamos com artistas de expressão de São Paulo e muitos daqueles que visitavam a cidade.
Papai entrou para o Guiness Book por ser o autor que começou sua carreira literário mais tarde (aos 84 anos), com o livro “Sabedoria e Felicidade” prefaciado por Minotti del Picchia. Era autodidata e morreu aos 102 anos com 7 livros publicados e pertencendo às Academias Lusíada de Ciências, Letras e Artes e de uma Literária de Londres.
Como foi crescer ao lado de dois irmãos que se tornariam lendas da música? O que esse ambiente artístico despertou no jurista que o senhor viria a ser?
Ives Gandra da Silva Martins – Todos nós aprendemos a gostar de arte e estudamos música. Guiomar Novais chegou a elogiar minha interpretação, para minha evidente surpresa, dos dois primeiros momentos musicais de Schubert e da Sonata nº 07 para piano, de Haydn. Certa vez, ao assistir um concerto seu no Municipal, escreveu no meu programa o seguinte: “Ao belo talento de Ives Martins, esperando ouvi-lo muito em breve. Guiomar Novaes, 02/09/1955”.
José Eduardo e João Carlos seguiram a carreira. Eu estudei regência e quando meu pai fez 100 anos regi, depois de ficar 40 anos sem pegar uma partitura orquestral, na Igreja São Luís, a “Aleluia” de Handel com o Coral Bacarelli, para comemorar seu centenário.
Como o programa foi transmitido pela Rede Vida, fiquei decepcionado quando vi que, apesar das entradas e emoção serem evidentes e corretas, não tirei os olhos da partitura. Júlio Medaglia me tranquilizou, dizendo que conhecera muitos bons regentes que faziam o mesmo.

Presidi, aos 17 anos, a Associação dos Jovens Artistas com 200 jovens, tendo escrito uma peça teatral com unidade de tempo, lugar e ação em redondilhas maiores e 5 atos para o grupo (“O caçador caçado”). Compunha músicas clássicas à época, participando também da Associação Brasileira de Jovens Compositores com algumas composições exibidas nos concertos ABJC, no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, na Avenida São João. Pintava à óleo e brincava com os outros dizendo, como sugeriu Dalmo Florence, que eram quadros pintados “a óleo e olho”. E escrevia poesia.
Até ir para a França, aos 18 anos, vivíamos estudando perfumaria, ramo de meu pai. Era este o ambiente de casa, tendo meu irmão José Paulo, que se especializou em gaita, ganho um concurso deste instrumento musical na Rádio Record e eu, representando o Colégio Bandeirantes, o 2º prêmio por uma história de São Paulo, escrita para seu 4ºCentenário.
O senhor sempre exalta sua esposa, Dona Ruth. Como descrever esse amor que atravessou décadas? Qual foi o papel dela nos momentos mais difíceis?
Ives Gandra da Silva Martins – Amo, ainda, profundamente minha mulher. Devo minha vida profissional a ela. Começamos a namorar no cursinho – passo-lhe meu livro “Reminiscências de um cidadão comum”, estando também no YouTube duas homenagens que fiz a ela com os títulos “Ruth II” (85 anos) e Ruth” (80 anos).
Começamos a namorar no Cursinho de Castelhões, entramos em 54 na FDUSP, casamo-nos no 5º ano, namoramos 67 anos e fomos casados 62. Ela me trouxe de volta à Igreja Católica, deu-me total apoio em tudo, bem como 6 esplêndidos filhos e, nos momentos mais difíceis – como na época do AI nº 5, em que houve um pedido de abertura de IPM e confisco de meus bens (12/02/1969) pelo Ministro Delfim Netto, algo que foi arquivado pelo Ministro Gama e Silva -, esteve incondicionalmente comigo.
Como meu baú de ressentimentos não tem fundos, 20 anos depois, Delfim e eu, assim como Roberto Campos, Celso Bastos, Moreira Alves, uma plêiade de grandes expressões na Economia e Direito, fundamos a Academia Internacional de Direito e Economia, e fomos amigos até sua morte.



A homenagem na Sala São Paulo emocionou o país. O que significou ver sua história ecoar naquele palco tão simbólico?
Ives Gandra da Silva Martins – A homenagem comoveu-me muito, principalmente por nunca ter sido mais do que um advogado e um professor universitário. Reconheço, por ter escrito livros e estudos em 21 países, ter 45 títulos acadêmicos no Brasil, América e Europa, com titulação máxima em inúmeras universidades, além de participar de 41 Academias e 18 Instituições culturais aqui e no Exterior, com mais de uma centena de livros publicados, 300 prefácios e 400 obras coletivas, que fui um profissional esforçado procurando, dentro de minhas evidentes limitações, agir com ética e dedicação.
À evidência, a homenagem me comoveu, mas foi muito maior do que eu mereceria.

BLOCO 2 – DEUS, FÉ E O SENTIDO DA VIDA
O que é Deus para o senhor? Uma presença moral? Um amor permanente? Um mistério luminoso?
Ives Gandra da Silva Martins – Deus é tudo. É Quem eu pretendo encontrar e contar com sua infinita misericórdia para com tudo o que fiz de errado. Amo-O sobretudo e ganhei Dele uma fé inquebrantável.
Em uma vida tão longa, quando a fé mais o sustentou?
Sem ela, não seria nada. Aliás, sem ela ninguém é nada. Condenados à morte, para a eternidade da alma não levaremos nada da terra, senão o que fizermos de bem.
Como transmitir aos jovens que a religião pode ser luz e inspiração — e não peso?
Ives Gandra da Silva Martins – Só se ama o que se conhece. Os jovens – como professor eu amo os jovens que sempre estão cheios de ideal -, precisam apenas conhecer a verdade e cabe a nós, mais velhos, mostrar-lhes o caminho. Minha experiência com eles, tem sido gratificante, vendo nas missas e iniciativas religiosas e sociais, hoje, um reflorescer da juventude, o que se percebe também nos encontros mundiais da juventude com a presença de Sua Santidade.
BLOCO 3 – A TRAJETÓRIA ACADÊMICA
O senhor ingressou nas Arcadas em um momento decisivo para o país. Que vibração moldou seu pensamento jurídico?
Ives Gandra da Silva Martins – Sempre gostei do Direito, desde que entrei na Faculdade. Passo-lhe meu “Decálogo do Advogado” que mostra como foi moldado o meu perfil a partir da lição dos grandes e universais mestres do Direito, através dos milênios.

São mais de cem livros. Quando escreve, o que busca primeiro: precisão, elevação moral ou o desejo de ensinar?
Ives Gandra da Silva Martins – Os dois. Direito sem ética, não é Direito. É apenas exercício do poder, normalmente contra o ser humano. Nos meus livros de Direito, Filosofia, História, Literatura, Finanças, Sociologia e Religião é o que procuro fazer.
Qual obra sua considera mais influente para o Direito Tributário moderno?
Ives Gandra da Silva Martins – Creio que meus livros “Teoria da Imposição Tributária”, “Uma Teoria do Tributo”, “Uma Breve Introdução ao Direito”, “Uma Breve Teoria do Poder”, “A Era das Contradições” e “Uma Breve Teoria sobre o Constitucionalismo” mostram um pouco como vejo a aventura humana.
BLOCO 4 – INSTITUIÇÕES, RESPONSABILIDADE FISCAL E ÉTICA
Qual pilar o senhor considera mais urgente para o Brasil de hoje: responsabilidade fiscal, estabilidade constitucional ou governança ética?
Ives Gandra da Silva Martins – Os três. O arcabouço fiscal é uma quimera, a harmonia e independência dos Poderes uma utopia constitucional e a governança ética a grande ausente na realidade política brasileira.

Que lição aprendeu sobre equilíbrio entre Estado, sociedade e liberdade individual?
Ives Gandra da Silva Martins – Nos meus livros “A era dos desafios”, “O Estado à luz da Filosofia, da História e do Direito” apresento uma enorme relação de requisitos para enfrentarmos as dificuldades do momento.
O que considero mais relevante, todavia, é gerarmos nos políticos e no povo a consciência de que o exercício de uma cidadania voltada ao bem comum deve ser o único desiderato de qualquer governo.
Há algum momento em que sentiu que sua voz contribuiu decisivamente para uma solução institucional?
Ives Gandra da Silva Martins – É difícil dizer. Fiz, todavia, o papel que qualquer cidadão deveria fazer: lutar por ética e serviço ao próximo.

BLOCO 5 – O PROFESSOR
Formou milhares de juristas. Ensinar foi sua maior missão?
Ives Gandra da Silva Martins – Considero ser professor meu maior título. É um prazer ensinar para gerações e ver, muitas vezes, frutos exuberantes desta missão. O ideal de um professor é que seus alunos o ultrapassem. Tive a alegria de ver uma legião de alunos espalhados pelo Brasil melhores do que eu. É a honra maior de um professor.
Qual episódio de sala de aula mais o marcou?
Ives Gandra da Silva Martins – Foi quando os alunos da pós-graduação da Universidade Mackenzie se revoltaram, na segunda semana do plano cruzado, dizendo que, com minhas críticas, eu não era patriota (1986).
Disse-lhes que se, em novembro, a realidade mostrasse que eu não tinha razão, pagaria um jantar em restaurante de luxo para toda a classe. Se, por outro lado, os fatos mostrassem que eu tinha razão, eles pagariam para mim e Ruth.
Pagaram-me o jantar e no discurso disseram que nunca tinham aprendido tanto sobre economia, como naquelas aulas de 1986. Ensinava na Universidade Mackenzie, à época, Direito Econômico, sendo no 1º semestre Economia Pura e no 2º a disciplina jurídica de macroeconomia.

Que sombra jurídica ou moral o Brasil ainda precisa dissipar?
Ives Gandra da Silva Martins – Em primeiro lugar, a ideia de que o serviço público serve para segurança pessoal, nos concursos, ou para ter poder nas eleições, jamais sendo o objetivo primário SERVIR.
BLOCO 6 – A VIDA INTERIOR E O AMOR POR RUTH
Que parte do seu sucesso pertence a Dona Ruth? Qual ensinamento desse amor o senhor considera mais belo para transmitir às novas gerações?
Ives Gandra da Silva Martins – Devo todo o meu sucesso a Ruth, que sempre me deu amor, tranquilidade e apoio. E a lição que me parece maior de um amor que continua – uso minha aliança do 4º dedo esquerdo e a dela no meu escapulário – é que o casamento sempre dá certo se cada um quiser fazer mais a felicidade do outro do que ser feliz.
Aos 90 anos, o que pesa mais: as conquistas intelectuais ou os vínculos afetivos construídos no caminho?
As conquistas intelectuais pesam pouco na hora da morte. Desaparecem.
O servir vale muito, os vínculos familiares e afetivos valem uma enormidade, bem como a sensação de que mesmo que não se tenha sido muito útil, decididamente a vida não foi inútil.

BLOCO 7 – A NOITE NA SALA SÃO PAULO
O que sentiu ao ser homenageado sob aplausos que pareciam não terminar?
Ives Gandra da Silva Martins – Comovidíssimo, agradecendo a Deus, os familiares e amigos presentes, oferecendo a Deus o que estava recebendo, na certeza de que é Ele, e não eu, quem merecia os aplausos, por ter feito um vaso de barro como eu ser assim querido. Se houve flores numa lata de lixo, o jardineiro foi Deus.
Como foi perceber que sua trajetória e a de João Carlos se reencontravam — ele pela música, o senhor pelo Direito?
Ives Gandra da Silva Martins – Quem tocou foi meu outro irmão, José Eduardo – João Carlos não foi, pois tinha que dar um Concerto no dia – que na sua magnífica carreira de pianista – foi professor titular de piano na ECA (USP) e teve 23 CDs gravados na Bélgica, França, Portugal e Estados Unidos – sempre se equivaleu a João. Alfredo Cutait considerava ambos com igual talento, em 1953. À nitidez, alegrou-me ter José Eduardo, no dia, homenageando-me.

BLOCO 8 – MENSAGEM AOS 90 ANOS
O que deseja que o Brasil entenda sobre ética, coragem e liberdade?
Ives Gandra da Silva Martins – Gostaria que todos os brasileiros exercessem a cidadania. Tivessem coragem de enfrentar o arbítrio das autoridades, usassem a palavra como a grande arma da democracia, pois esta não existe sem liberdade de expressão e considerassem que a liberdade é um valor tão significativo que não pode ser desfigurada pela banalização de prisões provisórias ou preventivas ou, ainda, por discordâncias subjetivas de quem tem o poder de decidir.
Se pudesse enviar uma carta ao jovem Ives das Arcadas, o que diria?
Ives Gandra da Silva Martins – Diria ao Ives estudante: “você, apesar de todas as suas limitações intelectuais e físicas, foi fiel a sua vocação. Foi um advogado dedicado e um professor preocupado com seus alunos.”

Qual mensagem final deseja deixar aos brasileiros — sobre Deus, Ruth, família, música, Direito e esperança?
Ives Gandra da Silva Martins – Muito simples. “A cultura é civilização”, dizia Miguel Reale. Estudem sempre. Somos passageiros de uma nave especial a qual deixaremos em breve. Pensemos no seu condutor celeste.
Família e trabalho são caminhos de santidade. O beato Dom Álvaro (2014) disse-me uma vez: “Ives, Ruth é seu caminho de santidade” e a Ruth, segurando nossas mãos “Ruth, Ives é seu caminho de santidade”.
Direito é a luta pela justiça, música e literatura são caminhos para cultura. Ser um humanista deveria ser o sonho de todo brasileiro, para oferecer a esperança de um país melhor.
