
IVES GANDRA: A VIDA DE UM HOMEM QUE TRANSFORMOU O DIREITO EM MISSÃO
Especial da Redação — São Paulo TV Broadcasting por Beatriz Ciglioni
Há biografias que ocupam bibliotecas. Há outras que atravessam gerações. A história de Ives Gandra da Silva Martins pertence ao segundo tipo: não é apenas a trajetória de um jurista brilhante, mas a jornada de um homem que decidiu fazer do Direito um serviço público, mesmo sem jamais ter ocupado um cargo político.
Nascido em São Paulo em 1935, Ives cresceu em um lar simples, mas privilegiado de algo que nenhuma riqueza compra: livros. Na mesa do café da manhã se debatia política. No almoço, filosofia. À noite, religião e ética. Esse ambiente moldou o menino curioso que rabiscava ideias nos cadernos enquanto escutava os adultos discutirem o país. A leitura virou hábito diário antes mesmo que qualquer professor lhe explicasse o que era uma tese.
Quando ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, não foi apenas para aprender leis, mas para entender o mundo. Não era o tipo de aluno que decorava artigos. Queria saber por que eles existiam. Em seus cadernos, dividia as páginas em duas colunas: “o que diz a lei” e “o que é justo”. A partir daí, passou a tratar o Direito não como um conjunto de normas, mas como um caminho para servir pessoas.
Ainda jovem, descobriu que tinha um talento natural para ensinar. Foi na sala de aula que encontrou o sentido de sua vocação. Passou por diversas instituições até se tornar professor da Faculdade de Direito do Mackenzie. O que começou como trabalho virou destino: Ives foi reconhecido como Professor Emérito, título concedido apenas aos que moldam a história de uma instituição. Décadas depois, ex-alunos seus se espalham pelo Judiciário, pela política, pelos escritórios mais importantes do país. Muitos deles, hoje ministros de tribunais superiores, afirmam com orgulho: “Eu sou aluno do professor Ives.”
Sua influência não ficou restrita a São Paulo. Em Brasília, liderou a criação da Faculdade de Direito da Universidade Católica de Brasília. O projeto nasceu da ideia de que o ensino jurídico precisava formar não apenas técnicos, mas cidadãos. Para ele, não existe Direito sem ética. Não existe lei sem propósito.
Enquanto ensinava, escrevia. Enquanto escrevia, estudava. Enquanto estudava, trabalhava. A rotina parecia impossível: acordava cedo, escrevia artigos, lecionava à noite e atendia alunos após a aula. Em pouco mais de meio século, construiu uma das maiores produções intelectuais da história do Direito brasileiro: mais de 100 livros, milhares de artigos e pareceres que influenciaram decisões do Supremo Tribunal Federal e debates legislativos estruturantes.
Seus textos transformaram a forma como o Direito Tributário é compreendido no Brasil. Antes dele, era um território técnico, restrito a poucos. Depois dele, tornou-se uma ciência organizada, estudada e democratizada. Tudo isso sem perder o compromisso absoluto com a liberdade e a responsabilidade fiscal. “O Direito deve servir à sociedade, não ao Estado”, repete há anos.

O que pouca gente sabe é que Ives Gandra não é feito apenas de lógica e códigos. É também música. Pianista desde jovem, vê na arte o que vê no Direito: harmonia. Costuma dizer que não se interpreta uma lei sem entender o contexto, assim como não se toca Chopin sem compreender o silêncio entre as notas. Para ele, Direito e música são duas formas de buscar a verdade.
Apesar do reconhecimento nacional, Ives jamais se deixou seduzir pela política partidária. Recusou cargos e convites para ministérios. Diz que seu compromisso é com o pensamento, não com o poder. Seu gabinete sempre esteve aberto para estudantes e pesquisadores, não apenas para autoridades.
Hoje, aos 90 anos, mantém a mesma disciplina de quando começou. Acorda, lê, escreve, responde alunos e toca piano. Não se aposentou porque acredita que o pensamento não tem idade. Continua produzindo textos todos os dias, como quem respira.
O Brasil mudou muito desde que Ives começou sua jornada. O Direito mudou também. Há juristas que escrevem livros. Há juristas que influenciam decisões. E há raríssimos que mudam a forma como um país pensa o Direito. Ives Gandra pertence a essa última categoria.

Ele não apenas registrou a história jurídica do Brasil. Ele ajudou a escrevê-la.
Obrigado por me receber em seu escritório Beatriz Ciglioni
