
São Silvestre chega aos 100 anos sob domínio africano e com participação feminina histórica
Prova centenária reúne 55 mil atletas nas ruas de São Paulo e reafirma seu papel como a mais importante corrida de rua da América Latina
Por Bene Corrêa e Beatriz Ciglioni
Redação São Paulo TV Broadcasting
A Corrida Internacional de São Silvestre completa 100 anos nesta terça-feira, 31 de dezembro, consolidada como um dos maiores símbolos do esporte brasileiro e um dos eventos esportivos mais tradicionais do mundo. Para celebrar o centenário, 55 mil atletas — entre profissionais e amadores — ocuparão as ruas da capital paulista em um percurso de 15 quilômetros que atravessa a história, a geografia e a alma da cidade de São Paulo.

A edição histórica de 2025 reflete a dimensão que a prova alcançou ao longo de um século. As inscrições se esgotaram em apenas seis horas, no dia de abertura das 50 mil vagas iniciais, em setembro. Diante da procura recorde, a organização abriu um lote extra de 5 mil vagas, distribuídas por sorteio. O valor da inscrição mais básica, que dava direito ao kit do atleta, foi de R$ 319,90 — mais um indicativo do prestígio e da relevância do evento.
O interesse massivo, no entanto, também trouxe críticas. “O processo todo foi muito desorganizado. Fiquei horas na fila e não consegui me inscrever. Corri todas as últimas cinco edições e esperava participar da centésima. Não entendi o que fizeram neste ano”, afirmou a manicure e corredora amadora Priscila Leite, que ficou fora da prova histórica.
Apesar disso, os números mostram uma São Silvestre em transformação. Um dos dados mais emblemáticos da edição centenária é o crescimento expressivo da participação feminina. Serão 25.861 mulheres na largada, o equivalente a 47,02% do total de inscritos — um salto significativo em relação aos 38,44% registrados em 2024. Ainda que os homens sejam maioria, a diferença diminui ano a ano, refletindo uma mudança estrutural no perfil da corrida.
Entre as principais esperanças brasileiras está a baiana Núbia Oliveira, de apenas 23 anos. Terceira colocada na edição passada, a atleta vem de uma temporada consistente, com convocações para a seleção brasileira e resultados expressivos ao longo de 2024. Integrante do programa de alto rendimento do Exército, Núbia acredita que a experiência internacional será decisiva. “Tive uma excelente temporada. Evoluí muito e aprimorei algumas coisas neste ano”, afirmou. Parte dessa evolução veio com um período de treinos em altitude, na Colômbia, estratégia que, segundo ela, será fundamental para a prova deste ano.
Núbia tenta quebrar um jejum incômodo para o atletismo nacional. Desde 2006, quando Lucélia Peres venceu a competição, nenhuma brasileira voltou ao lugar mais alto do pódio feminino. Entre os homens, o cenário é semelhante: o Brasil não vence a São Silvestre há 15 anos. O último triunfo foi em 2010, com Marílson dos Santos, tricampeão da prova, também vencedor em 2003 e 2005.
“Era muito diferente de tudo o que eu já tinha corrido no mundo. O povo gritando, a gente ia até a exaustão, até onde tinha força”, relembrou Marílson, ao falar sobre a atmosfera única da São Silvestre, marcada pelo apoio popular ao longo do percurso — especialmente na temida subida da Avenida Brigadeiro Luís Antônio.
No cenário atual, o mineiro Johnatas Cruz, ex-gari e um dos principais nomes do atletismo nacional, surge novamente como a maior aposta brasileira. Sexto colocado em 2023 e quarto em 2024, ele tenta, mais uma vez, desafiar o domínio africano.
E esse domínio é absoluto. São esperados cerca de 4.600 atletas estrangeiros, vindos de 44 países, incluindo Áustria, Alemanha, África do Sul, Colômbia, Espanha e Estados Unidos. Mas é a África Oriental que reina soberana. O Quênia é o país com mais títulos na história da prova: 17 vitórias entre os homens e 18 entre as mulheres. Os quenianos venceram as últimas oito edições da prova feminina e três das últimas cinco no masculino, dividindo o protagonismo com atletas da Etiópia.
Desde 1945, quando o Brasil passou a permitir a participação de estrangeiros, o país conquistou 11 títulos masculinos e cinco femininos. Ainda assim, a hegemonia africana se consolidou como uma das marcas contemporâneas da São Silvestre.
A prova, no entanto, é muito mais do que números e estatísticas. Idealizada pelo jornalista Cásper Líbero e inspirada na maratona de Paris, a primeira edição da São Silvestre foi realizada na noite de 31 de dezembro de 1925. Cerca de 60 atletas se inscreveram, mas apenas 48 alinharam na largada, em frente ao Parque Trianon. O vencedor foi Alfredo Gomes, conhecido como o “Rei do Fôlego”.
Naquele início, a corrida era restrita a homens brasileiros. Os primeiros estrangeiros só participaram em 1945, e a prova feminina foi criada apenas em 1975. Desde então, a presença das mulheres cresceu de forma contínua, a ponto de a maior vencedora da história da competição ser uma mulher: a portuguesa Rosa Mota, campeã seis vezes consecutivas entre 1981 e 1986. Entre os homens, o recordista de títulos é o queniano Paul Tergat, com cinco vitórias.
“Lembro dos espectadores, das pessoas que amam o esporte. Quando estava cansado, subindo a ladeira, eles ficavam torcendo por você de todos os lados. Era incrível”, recordou Tergat em entrevista recente. Em setembro, ele esteve em São Paulo para a inauguração do Hall da Fama da São Silvestre, onde deixou moldes de seus pés e recebeu uma placa em homenagem à sua trajetória.
De 48 corredores em 1925 a 55 mil em 2025, a São Silvestre atravessou um século acompanhando as transformações da cidade, do esporte e da sociedade. Mais do que uma corrida, ela permanece como um ritual coletivo de despedida do ano, um encontro entre gerações, nacionalidades e histórias, que faz de São Paulo, ao menos por um dia, a capital mundial da corrida de rua.
