
São Paulo segue sem luz, água e semáforos dois dias após vendaval histórico
Da Redação da São Paulo Tv jornalista Bene Correa
Dois dias após um dos vendavais mais intensos já registrados na história da capital, a cidade de São Paulo e parte da Região Metropolitana ainda convivem com um cenário de colapso em serviços essenciais. Milhões de pessoas seguem sem energia elétrica, o abastecimento de água permanece comprometido em diversos bairros, semáforos continuam apagados e o impacto econômico já é bilionário.

Segundo a Enel, concessionária responsável pela distribuição de energia, cerca de 1,3 milhão de imóveis permaneciam sem luz até a noite de quinta-feira, o equivalente a 15,6% de toda a base atendida, sem prazo definido para a normalização completa do serviço. Inicialmente, aproximadamente 2,2 milhões de unidades consumidoras foram afetadas pelo apagão provocado pelos ventos extremos.
O fenômeno climático foi classificado como histórico. Na região da Lapa, na zona oeste, as rajadas chegaram a 98 km/h, a maior velocidade já registrada pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) desde o início das medições, em 1963. Especialistas afirmam que não há precedentes de ventos dessa intensidade em condições de tempo firme na capital paulista.
O impacto na cidade foi imediato. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) informou que mais de 200 semáforos apresentavam falhas na manhã seguinte ao temporal, agravando o trânsito em diversas regiões. Doze parques municipais chegaram a ser fechados, incluindo o Ibirapuera, que só reabriu parcialmente no período da tarde. O Corpo de Bombeiros atendeu 1.412 ocorrências de queda de árvores apenas na quarta-feira, muitas delas obstruindo vias importantes.
As imagens de árvores de grande porte tombadas sobre carros e calçadas se espalharam pelas redes sociais. Apesar da gravidade das ocorrências, não houve registro de vítimas fatais. Em nota, a Enel afirmou que os danos à infraestrutura elétrica foram severos e que, em muitos pontos, a rede precisará ser reconstruída.
Enquanto parte dos clientes teve o fornecimento restabelecido — cerca de 1,2 milhão, segundo a concessionária — novos chamados continuaram a ser registrados em razão da persistência dos ventos, elevando novamente o número de imóveis sem energia. Em meio às reclamações, a Polícia Militar registrou denúncia de cobrança indevida para religação do serviço em Diadema. A Enel declarou que qualquer exigência de pagamento é irregular e fora das normas da empresa.
O impacto econômico já é expressivo. De acordo com a FecomercioSP, o apagão provocou uma perda estimada de R$ 1,54 bilhão para os setores de comércio e serviços, sendo R$ 1 bilhão no setor de serviços e R$ 511 milhões no comércio. O prejuízo se aproxima do registrado em outubro do ano passado, quando um apagão semelhante causou perdas próximas de R$ 2 bilhões. A entidade alerta que o valor real pode ser ainda maior, já que não inclui perdas de estoques nem custos fixos mantidos durante a paralisação das atividades.
A crise energética também afetou diretamente o abastecimento de água. A Sabesp informou que, sem energia elétrica, não é possível operar as estações de bombeamento. Regiões de municípios como Guarulhos, Mauá e Itapecerica da Serra tiveram o fornecimento interrompido ou reduzido. Mesmo nos locais onde a energia já retornou, a normalização do sistema é gradual. A orientação segue sendo o uso consciente da água armazenada em caixas e reservatórios.
Nos aeroportos, o cenário foi de caos. No Aeroporto de Congonhas, passageiros enfrentaram longas filas, cancelamentos e atrasos em cadeia. A concessionária Aena informou que 110 voos foram cancelados até a tarde de quinta-feira. Em Guarulhos, a GRU Airport registrou 72 voos cancelados e 28 alternados para outros aeroportos. Companhias aéreas orientaram os passageiros a buscar remarcação ou cancelamento diretamente pelos canais oficiais.
Relatos de passageiros evidenciam o desgaste emocional causado pela situação. Pessoas passaram horas nos saguões sem informações claras, temendo prejuízos com hospedagens e compromissos perdidos. Também houve relatos de voos que permaneceram por horas no ar aguardando autorização para pouso, enfrentando forte turbulência.
Casos humanos dramáticos vieram à tona. Em Cotia, na Grande São Paulo, uma idosa de 74 anos relatou estar há dias sem conseguir dormir por depender de um equipamento elétrico para tratamento de apneia do sono. Sem energia em casa, precisou buscar atendimento em serviços públicos apenas para recarregar o celular e manter contato com familiares.
Além dos prejuízos diretos à população, o episódio reacende o debate sobre a qualidade do serviço prestado pela concessionária. Desde que assumiu a antiga Eletropaulo, em 2018, a Enel já acumula mais de R$ 312 milhões em multas aplicadas por órgãos reguladores, com crescimento superior a 4.000% no valor das autuações ao longo dos últimos anos.
Enquanto equipes seguem trabalhando na recomposição da rede elétrica, São Paulo ainda vive as consequências de um evento climático extremo que expôs fragilidades na infraestrutura urbana e no atendimento a serviços essenciais, deixando milhões de pessoas no escuro — literalmente e figurativamente.
