
Sabesp reforça abastecimento da Grande São Paulo com obra estratégica de captação a 60 km da capital
Por Redação São Paulo TV Reportagem especial
A segurança hídrica da Região Metropolitana de São Paulo voltou ao centro do debate público com a consolidação de uma das mais importantes obras estruturais da Sabesp para o abastecimento paulista. Trata-se da transferência de água do sistema do Rio Itapanhaú para o Alto Tietê, empreendimento inaugurado no fim de 2025 e que já opera como peça-chave para reduzir os riscos de desabastecimento em meio à pressão sobre os reservatórios metropolitanos.

A obra, instalada em Biritiba Mirim, a cerca de 60 quilômetros da capital, permite atualmente a injeção de 1.680 litros por segundo no Sistema Alto Tietê. Em sua capacidade máxima, poderá transferir até 2.500 litros por segundo, o equivalente a um reforço expressivo para um dos principais sistemas que abastecem milhões de moradores da Grande São Paulo. Segundo os dados apresentados no material-base, em potência máxima a operação pode representar um acréscimo equivalente a 17% da capacidade total do Alto Tietê.
A importância da intervenção se torna ainda mais evidente diante do cenário hídrico delicado enfrentado pelo Estado. O sistema integrado metropolitano está na faixa dos 50% de reservação, enquanto o Cantareira, embora tenha apresentado recuperação entre fevereiro e março, ainda inspira cautela. O temor técnico e institucional é de que temperaturas elevadas, eventual influência de um El Niño mais forte no segundo semestre e os efeitos das mudanças climáticas sobre a regularidade das chuvas possam pressionar ainda mais a capacidade de armazenamento dos mananciais.
A transferência do Itapanhaú é resultado de um projeto que levou cerca de uma década para sair do papel. O sistema capta água do Ribeirão Sertãozinho, um dos principais afluentes do Rio Itapanhaú, e a conduz até a Represa Biritiba, que integra o Alto Tietê. Para isso, foram implantados cerca de 9 quilômetros de adutoras de aço e um túnel escavado na montanha, numa obra estimada em R$ 300 milhões, integralmente custeada pela companhia, segundo as informações apresentadas.

Do ponto de vista da gestão pública, a entrega dessa estrutura representa mais do que uma obra de engenharia. Ela traduz uma estratégia de ampliação da oferta hídrica para a metrópole paulista, buscando evitar que a capital e os municípios vizinhos revivam o trauma da crise hídrica de 2014 e 2015. Desde a metade de 2025 até o fim de março deste ano, a contribuição da transposição do Itapanhaú teria somado mais de 12,5 milhões de metros cúbicos de água ao sistema, elevando o volume do Alto Tietê de 50,5% para 52,7%, de acordo com os dados citados no texto-base.
Especialistas ouvidos na reportagem original reconhecem que a nova captação ajuda a aliviar a escassez e reduz a velocidade de queda dos reservatórios. O professor de Hidrologia da Unicamp Antonio Carlos Zuffo avalia que esse reforço pode atender, em termos de consumo diário, até 1,4 milhão de pessoas na Região Metropolitana. Ainda assim, ele pondera que é cedo para afirmar que a obra, por si só, será suficiente para blindar São Paulo de um novo cenário crítico nos próximos meses.

Esse ponto é central para uma leitura séria e responsável da questão. A obra é estratégica, necessária e relevante, mas não pode ser vista como solução isolada. O próprio debate técnico mostra que a segurança hídrica de São Paulo depende de um conjunto de ações articuladas, que envolvem ampliação da oferta, interligação entre sistemas, planejamento climático e, principalmente, combate às perdas na rede de distribuição. Hoje, quase 29,4% da água tratada ainda se perde por vazamentos ou ligações clandestinas, um índice que segue sendo um dos grandes gargalos estruturais do setor.
A Sabesp sustenta que vem ampliando investimentos nessa frente, inclusive com um contrato de R$ 4 bilhões para monitoramento do consumo residencial na cidade de São Paulo e com um plano de substituição de redes antigas até 2034. Também afirma ter elevado em 60% os investimentos em gestão de perdas. Ao mesmo tempo, moradores da Região Metropolitana convivem desde agosto com redução de pressão nas tubulações durante a noite, medida vista como instrumento de contenção do desperdício, mas que também impacta diretamente a rotina da população.
Além do aspecto operacional, a obra do Itapanhaú também carrega forte controvérsia ambiental. O empreendimento está inserido em uma região de elevada sensibilidade ecológica, cercada por áreas de Mata Atlântica e ecossistemas relevantes para a recarga hídrica. Ambientalistas, pesquisadores e representantes da Baixada Santista manifestaram preocupação com os efeitos da transposição sobre o rio, os manguezais e o equilíbrio do estuário, já que a retirada de água doce pode alterar a salinidade do sistema natural.
Entre os questionamentos levantados estão a supressão de vegetação nativa, o uso temporário de geradores a diesel para impulsionar o bombeamento e os possíveis impactos futuros sobre o chamado estresse hídrico do litoral paulista. O texto-base informa que 12,7 hectares de desmatamento foram autorizados, com compensação ambiental prevista de 49,1 hectares em plantio e manutenção. A Sabesp afirma que o uso de diesel é provisório, até a conclusão da linha de transmissão de energia, e que realiza monitoramento contínuo da salinidade em conformidade com as exigências da licença de operação.
O histórico do projeto mostra que sua aprovação foi marcada por resistência social e jurídica. Houve mobilização de ambientalistas da Baixada Santista, protestos e até questionamentos judiciais em relação aos estudos de impacto ambiental e à participação pública no processo de licenciamento. Isso revela que, em temas ligados à água, o desafio da administração pública é sempre duplo: garantir abastecimento para milhões de pessoas sem ignorar os limites ecológicos dos territórios de onde essa água é retirada.
Em termos institucionais, a obra reforça a percepção de que São Paulo precisará, cada vez mais, combinar grandes investimentos em infraestrutura com governança ambiental e eficiência operacional. A crise hídrica do passado deixou como legado a compreensão de que depender apenas da chuva já não é uma estratégia aceitável para uma metrópole com mais de 20 milhões de habitantes. O desafio agora é transformar obras emergenciais e estruturantes em uma política permanente de segurança hídrica, com transparência, prevenção e responsabilidade socioambiental.
A transferência do Itapanhaú, portanto, deve ser compreendida como uma resposta concreta a uma urgência real, mas também como um alerta. O reforço no abastecimento é importante e pode ajudar a impedir um agravamento mais rápido da situação dos reservatórios. No entanto, a estabilidade hídrica da Grande São Paulo seguirá dependendo de planejamento de longo prazo, redução de perdas, preservação dos mananciais e capacidade de articulação entre desenvolvimento urbano e proteção ambiental.
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