
Resíduos, clima e cidades inteligentes: o verdadeiro teste do Brasil na COP30
Às vésperas da COP30, o Brasil tem a chance de se consolidar como potência ambiental — ou revelar contradições profundas entre discurso e prática. Apesar de avanços em energia limpa e preservação florestal, o país ainda convive com lixões, baixa reciclagem, exclusão de catadores e falta de planejamento urbano. Para entender por que a gestão de resíduos pode definir o sucesso (ou fracasso) do Brasil na agenda climática, a São Paulo TV conversou com, MARCOS MENDES MARTINS, Engenheiro e Diretor-Presidente da MaxLog Engenharia Ambiental. Especialista em gestão de resíduos sólidos, logística reversa, créditos de carbono e planejamento urbano sustentável. Consultor em políticas públicas ambientais e inovação climática. Nesta entrevista direta e contundente, ele alerta: “Lixo não é limpeza urbana. É política climática, econômica e social”.

SPTV | O Brasil quer liderar a agenda climática na COP30. Mas ainda enterra quase metade do seu lixo. Isso compromete nossa credibilidade?
MARCOS MENDES MARTINS | Compromete muito. Não existe liderança climática sem enfrentar os resíduos. Os aterros e lixões são uma das maiores fontes de metano, um gás muito mais potente que o CO₂. O mundo está atento. Se o Brasil falar de sustentabilidade enquanto ignora o básico, será visto como incoerente. A COP30 acontece aqui — não teremos como esconder. Ou mostramos resultados concretos em gestão de resíduos, ou perderemos respeito internacional.
SPTV | O país tem a Política Nacional de Resíduos Sólidos, considerada avançada. Por que ela não transformou a realidade?
MARCOS | Porque foi subaplicada. A PNRS é uma das leis mais modernas do mundo, com responsabilidade compartilhada, logística reversa, inclusão de catadores, planos de gerenciamento… mas ficou no papel. Faltou vontade política, estrutura técnica, apoio financeiro e governança. Muitos municípios foram deixados sozinhos. Empresas tentaram fugir das obrigações. E a sociedade não foi educada para separar corretamente. A lei é boa. A execução foi fraca.
SPTV | Em sua visão, quem mais falhou: governo, empresas ou sociedade?
MARCOS | Todos têm responsabilidade. O governo falha ao não fiscalizar nem estruturar soluções regionais. Empresas falham quando resistem à logística reversa ou empurram o problema para o setor público. A sociedade falha ao consumir sem consciência e descartar de qualquer jeito. E ainda ignoramos os catadores, que fazem o serviço que ninguém faz e continuam invisíveis. O problema é cultural: o Brasil ainda enxerga lixo como sujeira, não como recurso estratégico.

SPTV | Você afirma que “lixo é política climática, não limpeza urbana”. Explique.
MARCOS | Porque resíduos impactam diretamente o clima. Metano, poluição do solo, contaminação da água, queima irregular — tudo isso está ligado aos resíduos. Ao mesmo tempo, a boa gestão de lixo gera reciclagem, energia limpa, crédito de carbono, emprego e inclusão social. Isso é política de clima, de saúde, de economia. Tratar lixo apenas como varrição de rua é um erro do passado. Gestão de resíduos é infraestrutura estratégica do século XXI.
SPTV | O Brasil fala muito de cidades inteligentes. Na prática, isso existe ou é marketing?
MARCOS | Em grande parte, é marketing. Colocar Wi-Fi na praça não transforma uma cidade em inteligente. Cidade inteligente de verdade planeja o território, protege áreas verdes, monitora a qualidade do ar, trata água e esgoto, separa resíduos, aproveita biogás, integra mobilidade, reduz riscos climáticos. É gestão com dados, prevenção e visão de longo prazo. Tecnologia sem planejamento é gadget. Inteligência urbana começa na governança, não no aplicativo.
SPTV | Você diz que o lixo brasileiro “rouba riqueza”. Por quê?
MARCOS | Porque enterramos valor todos os dias. Um aterro bem gerido pode gerar energia. Um sistema de logística reversa pode alimentar a indústria. Um programa de reciclagem pode criar emprego. O metano pode virar crédito de carbono. O resíduo orgânico pode virar adubo e biogás. Mas o Brasil paga para enterrar tudo. Jogamos dinheiro fora em vez de transformar lixo em ativo. Países que entenderam isso estão lucrando. Nós estamos desperdiçando.
SPTV | O mercado de carbono pode mudar esse cenário?
MARCOS | Pode e deve. A nova regulamentação do mercado de carbono no Brasil abre uma chance histórica. Capturar metano de aterros pode gerar bilhões em créditos comercializáveis. Isso permite financiar infraestrutura ambiental com recursos do próprio carbono evitado. É a primeira vez que sustentabilidade pode pagar sua própria conta. Mas é preciso seriedade, tecnologia e medição confiável. Se for bem feito, resíduos serão um dos setores mais rentáveis da transição ecológica.
SPTV | Vamos falar dos catadores. Eles são parte da solução ou apenas uma questão social?
MARCOS | São parte da solução climática. Catadores são responsáveis por grande parte da reciclagem no Brasil. Eles evitam emissões, reduzem o volume em aterros, prolongam a vida útil das estruturas e alimentam a economia circular. Só que ainda operam sem estrutura, sem equipamentos e com pouca remuneração. Valorizá-los não é caridade — é inteligência ambiental e justiça social. Nenhum país avança em reciclagem ignorando quem já recicla.
SPTV | O que o Brasil precisa fazer antes da COP30 para não ser cobrado pelo mundo?
MARCOS | Três ações imediatas: eliminar lixões com prazos reais e mecanismos de apoio financeiro; implantar consórcios públicos regionais para gestão integrada de resíduos; e incorporar resíduos e biogás ao mercado nacional de carbono. Se fizermos isso, mostramos maturidade. Se chegarmos com lixões e promessas vagas, perderemos credibilidade. O mundo quer resultados, não discursos.
SPTV | Qual é o papel da engenharia ambiental nesse processo?
MARCOS | A engenharia ambiental precisa assumir posição de liderança. Não apenas executando projetos, mas desenhando políticas públicas, articulando governos, setor privado e sociedade. Precisamos de engenheiros capazes de unir técnica, legislação, planejamento e inovação. Gestão de resíduos exige inteligência de sistema. Sem engenharia com visão estratégica, tudo vira improviso. Com engenharia, vira transformação.
SPTV | Para encerrar: qual é a mensagem mais importante para o Brasil agora?
MARCOS | O Brasil não será sustentável apenas com floresta preservada. Será sustentável quando transformar a forma como produz, consome e descarta. O futuro climático do país está nas cidades, nos resíduos, nas pessoas e no planejamento. Resíduos, clima e cidades inteligentes não são temas separados — são o coração do novo modelo de desenvolvimento. A transição ecológica do Brasil não começa no discurso. Começa no chão da cidade. E precisamos começar agora.

