
Quando a tela se torna gaiola: o adoecimento silencioso das mulheres na era digital – Por Aline Teixeira
Vivemos grudadas na tela. Acordamos com notificações, trabalhamos no computador, descansamos rolando o feed. A tecnologia prometeu liberdade e praticidade, mas a verdade é que muitas mulheres estão se sentindo cada vez mais presas — presas à necessidade de responder rápido, parecer bem, produzir o tempo todo, cuidar de tudo e ainda sorrir para a câmera. O excesso de tela deixou de ser apenas um hábito: virou um fator de adoecimento emocional e social.
A Organização Mundial da Saúde já alertou: as mulheres têm o dobro de chance de desenvolver depressão em relação aos homens. E essa diferença aumenta quando analisamos o impacto das redes sociais. Estudos da Unifesp mostram que mulheres que passam mais de quatro horas por dia nas redes têm 55% mais risco de sintomas depressivos. Não é coincidência. As redes se tornaram vitrines de vidas perfeitas, corpos perfeitos, famílias perfeitas. E, diante disso, a mulher real — cansada, sobrecarregada, múltipla — se sente insuficiente.
A comparação constante corrói a autoestima. A cobrança por produtividade eterna desgasta a mente. O medo de parecer “fraca” impede o pedido de ajuda. E o mais cruel: muitas mulheres estão rodeadas de gente o tempo todo, mas se sentem profundamente sozinhas. É a solidão digital — conectadas ao mundo, desconectadas de si mesmas.
Além disso, a tela invadiu os espaços de convivência. As conversas viraram áudios apressados. Os laços sociais foram substituídos por curtidas. O abraço deu lugar ao emoji. A saúde social — a capacidade de criar vínculos reais — está se perdendo, e com ela, a sensação de pertencimento. E sem pertencimento, a saúde mental desaba.
As mães estão entre as mais afetadas. Segundo a Fiocruz, 1 em cada 4 sofre sintomas de depressão pós-parto prolongada, agravados pela comparação com maternidades “instagramáveis”. Já as adolescentes enfrentam pressão estética, ansiedade social e cyberbullying: a Unicef aponta que 70% das meninas já se sentiram inadequadas por causa das redes.
Não se trata de demonizar a tecnologia. Ela pode empoderar, informar, aproximar. O problema é quando a tela substitui a vida. Quando o digital dita o nosso valor. Quando o algoritmo define nosso humor. Quando o like vale mais do que o olhar.
Precisamos falar sobre limites. Sobre descanso sem culpa. Sobre presença real. Precisamos reconstruir redes de apoio, incentivar conversas sinceras, acolher fragilidades. Precisamos ensinar nossas meninas que performance não é identidade. E lembrar às mulheres adultas que força verdadeira não é aguentar tudo — é reconhecer quando algo está demais.
Cuidar da saúde emocional das mulheres não é uma pauta individual. É uma urgência social. Quando uma mulher adoece, toda a rede ao redor se fragiliza. Quando uma mulher se fortalece, gerações são tocadas.
Talvez o primeiro passo para a cura seja simples e corajoso: desligar a tela por alguns instantes e voltar a sentir a vida com as próprias mãos.
Mais do que conectadas, precisamos voltar a estar presentes.
Aline Teixeira é gestora de políticas públicas e estudante de psicologia.
