
Quando a negligência custa vidas: a responsabilidade real do síndico
Artigo Domichelica Armentano
A recente tragédia ocorrida em um condomínio, onde a queda de um pergolado de madeira em um playground resultou na morte de uma menina de 10 anos e deixou outras crianças feridas, expõe uma realidade dura e frequentemente ignorada: a função do síndico vai muito além da administração burocrática e do cumprimento formal da lei. Síndicos cuidam de patrimônio, sim — mas, acima de tudo, cuidam de vidas.

É exatamente por esse motivo que o síndico não pode permitir que moradores o obriguem a executar obras, contratar serviços ou adotar soluções que contrariem seu entendimento técnico, sua experiência ou sua convicção profissional. Ceder à pressão de assembleias mal orientadas, decisões emocionais ou economia irresponsável pode ter consequências irreversíveis.
O cargo de síndico não é decorativo, tampouco simbólico. A responsabilidade civil e criminal recai diretamente sobre quem assina, autoriza, permite ou se omite. Quando estruturas são instaladas ou mantidas sem critérios técnicos, laudos adequados, manutenção periódica e acompanhamento profissional, o risco deixa de ser abstrato ele se torna concreto, imediato e, como vimos, fatal.
Ainda persiste no imaginário coletivo a falsa ideia de que “qualquer um pode ser síndico”. Não pode. Ser síndico exige preparo técnico, conhecimento legal, capacidade de dizer “não” e, sobretudo, coragem para sustentar decisões impopulares quando estas são necessárias para garantir segurança. O síndico não está ali para agradar, mas para proteger.
Casos como esse não acontecem por acaso. São, em grande parte, o resultado de negligência, omissão ou da permissão indevida para que moradores imponham soluções contrárias às recomendações técnicas do gestor. Quando o síndico abre mão de sua autoridade técnica, abre-se também a porta para tragédias anunciadas.
É urgente que condomínios passem a compreender que segurança não é gasto, é investimento. Que obras não são meros desejos estéticos, mas intervenções que exigem responsabilidade. E que o síndico precisa ser respeitado em sua função não pressionado a agir contra sua consciência profissional.
Enquanto a sociedade não compreender a seriedade desse papel, continuaremos assistindo a manchetes que poderiam e deveriam ter sido evitadas.
Porque no fim, não estamos falando apenas de madeira, estruturas ou contratos.
Estamos falando de vidas.
Domichelica Armentano – Presidente do instituto SOS condomínios
Instagram www.institutososcondominios.com.br

