
Protestos no Irã: a anatomia de uma revolta histórica sob censura, repressão e colapso econômico
Reportagem especial Chefia de Jornalismo da São Paulo TV Broadcasting com correspondente na Europa Samys Montanaro e Brasil Bene Correa e Beatriz Ciglioni Foto: MAHSA
O Irã atravessa, desde o fim de dezembro de 2025, o mais grave ciclo de instabilidade interna em décadas. O que começou como protestos pontuais contra o agravamento da crise econômica rapidamente se transformou em um movimento nacional de contestação ao regime teocrático, marcado por repressão violenta, bloqueio quase total das comunicações e um número crescente de mortos. Trata-se de uma convulsão social que combina fatores econômicos, políticos e simbólicos, revelando fissuras profundas na estrutura de poder da República Islâmica.
O estopim econômico: moeda em colapso e vida inviável
Em 28 de dezembro, o rial iraniano atingiu sua pior cotação histórica frente ao dólar. Para uma população já sufocada por inflação crônica, desemprego elevado e sanções internacionais, o colapso da moeda funcionou como gatilho imediato. Comerciantes dos tradicionais bazares de Teerã — historicamente um termômetro social e político do país — fecharam as portas e ocuparam as ruas. Estudantes universitários, trabalhadores informais e moradores das periferias urbanas rapidamente aderiram.
Vídeos verificados por organizações internacionais mostram cenas que se repetem em diferentes regiões: lojas fechadas à força, marchas espontâneas, palavras de ordem contra o custo de vida e, em seguida, a resposta do Estado com gás lacrimogêneo, prisões arbitrárias e violência física.
Da tolerância inicial à repressão total
Nos primeiros dias, o presidente Masoud Pezeshkian adotou um discurso conciliador, reconhecendo publicamente o sofrimento econômico da população. Esse tom, porém, durou pouco. À medida que os protestos se espalhavam e ganhavam densidade política, a estratégia mudou.
O líder supremo Ali Khamenei passou a atribuir a revolta a “inimigos externos” e autorizou uma repressão ampla, com ordens explícitas para conter os “desordeiros”. O resultado foi uma escalada imediata da violência: disparos contra manifestantes, invasões de hospitais, espancamentos filmados em plena luz do dia e operações de segurança em cidades médias e regiões de fronteira.
O apagão informacional como arma de Estado
Diante da incapacidade de controlar as ruas apenas pela força, o regime recorreu a uma tática conhecida: o isolamento digital. Um desligamento quase total da internet e das comunicações móveis foi imposto, dificultando o fluxo de informações, a organização dos protestos e o trabalho de jornalistas e observadores independentes.
Mesmo assim, fragmentos de vídeos continuam a sair do país, muitas vezes por rotas clandestinas, revelando cenas de incêndios, confrontos diretos e manifestações multitudinárias. A verificação desse material tornou-se crucial para compreender a dimensão real da crise.
Violência cruzada e radicalização
Com o endurecimento da repressão, a dinâmica das ruas também mudou. Em cidades como Shiraz, Mashhad e Bojnord, há registros de confrontos diretos, com manifestantes atacando forças de segurança e policiais reagindo com munição real. Um dos vídeos mais chocantes mostra um agente sendo incendiado após avançar sobre a multidão em uma motocicleta — sinal claro de que o conflito entrou em uma fase de radicalização perigosa.
Ao mesmo tempo, áreas rurais e províncias periféricas passaram a registrar protestos intensos, desmentindo a narrativa oficial de que se trata apenas de distúrbios localizados em grandes centros urbanos.
O fator político internacional
O contexto externo também pesa. Declarações do então presidente dos Estados Unidos Donald Trump, ameaçando respostas duras caso o regime iraniano ampliasse a repressão, foram usadas internamente para reforçar o discurso de cerco internacional. Para Teerã, a narrativa de conspiração externa serve como instrumento de coesão entre as elites do poder, mas pouco efeito tem sobre uma população exaurida economicamente.
No exílio, o príncipe herdeiro Reza Pahlavi voltou a se pronunciar, convocando novas manifestações. Embora sua influência direta dentro do país seja limitada, suas declarações funcionam como catalisador simbólico para setores que defendem a ruptura completa com o atual sistema político.
Luto, medo e números incertos
Nos últimos dias, imagens de necrotérios lotados, funerais coletivos e familiares tentando identificar corpos tornaram-se frequentes. Grupos independentes de direitos humanos estimam que quase 200 pessoas tenham sido mortas, número que pode ser significativamente maior devido à censura e à dificuldade de acesso às informações.
Em resposta, a mídia estatal divulga grandes atos pró-governo e funerais de membros das forças de segurança, buscando construir a narrativa de que o Estado estaria apenas reagindo a uma ameaça violenta.

Uma ameaça estrutural ao regime
O que torna essa onda de protestos particularmente perigosa para o regime iraniano não é apenas seu tamanho, mas sua natureza. Diferentemente de movimentos anteriores, não há uma liderança única, nem reivindicações isoladas. Economia, liberdade, corrupção, repressão religiosa e futuro político se misturam em um mesmo grito coletivo.
Ao bloquear a internet, endurecer a repressão e transformar o conflito em um embate existencial, o regime pode até ganhar tempo. Mas o custo é alto: erosão de legitimidade, isolamento internacional crescente e uma população cada vez menos disposta a aceitar a lógica do medo.
O Irã vive, hoje, um momento de encruzilhada histórica. Se essa revolta resultará em mudanças estruturais ou será esmagada como outras no passado ainda é incerto. O que já se sabe é que as imagens que escapam da censura contam uma história impossível de ser completamente silenciada: a de um país que chegou ao limite.
