
Presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Ricardo Teixeira, inaugura Sala Azul e transforma o Legislativo em referência nacional no acolhimento ao público autista
Da Redação da São Paulo Tv Fonte Jornalista Ana Paula Quarantani Fotos Secom Câmara Municipal SP
A Câmara Municipal de São Paulo protagonizou nesta quinta-feira, 23 de outubro de 2025, um gesto institucional raro no país: inaugurou oficialmente a Sala Azul, espaço de descompressão sensorial dedicado a crianças, adolescentes e adultos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e demais neurodivergências. Idealizada e conduzida pelo presidente da Casa, o vereador Ricardo Teixeira, a iniciativa consolida o Legislativo paulistano como a primeira Casa Legislativa do Brasil a disponibilizar infraestrutura permanente de acolhimento sensorial para sua população. No Palácio Anchieta, o clima foi de emoção — mas, sobretudo, de consciência de impacto social.
Durante a cerimônia, Teixeira foi direto ao ponto: “A Câmara tem que estar aberta para qualquer pessoa, para qualquer papai, para qualquer mamãe, para qualquer criança. Incluir não é discurso: é prática, é gesto, é espaço físico adaptado”. Pais e mães presentes aplaudiram. Muitos deles relatam que, por falta de estrutura adequada, abandonar visitas institucionais tornou-se rotina. Crises sensoriais — provocadas por ruído, luz forte ou fluxo intenso de pessoas — costumam encurtar experiências que deveriam ser direito básico de cidadania.

A Sala Azul foi construída com parâmetros alinhados às melhores referências internacionais. Localizada no 1º subsolo, o ambiente possui iluminação regulável, com temperatura de cor mais suave para reduzir sobrecarga visual; isolamento acústico parcial para amenizar ruídos súbitos; materiais táteis e brinquedos autorreguladores; assoalho emborrachado para conforto proprioceptivo; e mobiliário projetado para acolhimento emocional. Um corredor de acesso com sinalização inclusiva orienta famílias de forma simples e acessível. Esses elementos dialogam com estudos da Autism Speaks, do National Autistic Society (Reino Unido) e do Autism Friendly Spaces (EUA), organizações internacionais que guiam boas práticas de desenho sensorial.
O gesto institucional, no entanto, não caiu do céu. Em junho de 2025, durante o projeto Câmara na Rua no CEU Uirapuru (Zona Oeste), famílias apresentaram a demanda diretamente ao presidente. A resposta foi rápida: compromisso público, prazo definido — e cumprimento. A Câmara na Rua, vale lembrar, é um programa de descentralização legislativa que leva sessões, seminários e atendimentos para territórios periféricos, aproximando o poder público de quem raramente ocupa o plenário de mármore.

Para a pedagoga Shirley, mãe de uma criança atípica, o impacto é concreto. “Eu espero que seja um sucesso. A Câmara mostra como é importante ter contato com o ser humano e saber o que a população deseja de nós”, disse, emocionada. Pais e mães de crianças neurodivergentes enfrentam um cotidiano invisível: rotinas terapêuticas, filas de diagnóstico e ambientes urbanos mal preparados. Pequenas adaptações fazem diferença, como defendem pesquisadores em neuropsicologia urbana.
Segundo dados atualizados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o autismo afeta aproximadamente 1 em cada 100 crianças no mundo. No Brasil, estimativas do Ministério da Saúde e de estudos epidemiológicos correlacionados indicam prevalência crescente — reflexo de diagnósticos mais precisos, avanço terapêutico e maior conscientização. A rede municipal de saúde de São Paulo já ampliou o número de equipes multiprofissionais, aumentou a oferta de terapias integradas e inaugurou o primeiro Centro TEA da cidade, no bairro do Ipiranga, especializado em diagnóstico, orientação familiar e formação técnica.

Na comparação internacional, espaços sensoriais em ambientes públicos são tendência consolidada. O Parlamento da Escócia inaugurou uma Sensory Room em 2019; o Parlamento de Ontário, no Canadá, implementou em 2020; e aeroportos como Heathrow (Londres) e Atlanta (EUA) utilizam “quiet rooms” desde 2018. A Câmara paulistana, portanto, não apenas acompanha o movimento — mas o inaugura no contexto legislativo brasileiro. Em escala continental, São Paulo se soma a Córdoba (Argentina) e Barcelona (Espanha), pioneiras em salas sensoriais municipais.
A jornalista da São Paulo TV Broadcasting ouviu a neuropediatra Dra. Marina D’Alessio, pesquisadora do desenvolvimento infantil, que sintetizou a importância. “Ambientes sensoriais acolhedores reduzem estresse, evitam crises, favorecem permanência e ampliam a participação social. Muitas famílias deixam de frequentar espaços públicos por medo da reação do ambiente, e isso isola a criança. Medidas como essa mudam trajetórias.” Para ela, legislar sobre inclusão não basta; legislar com inclusão exige estruturas.
O psicólogo comportamental Rodrigo Santos, consultor de políticas de neurodiversidade, reforça: “Neurodivergência não é exceção demográfica. É parte da população. A pergunta certa não é ‘como adaptamos a criança ao ambiente’, mas ‘como adaptamos o ambiente à diversidade neuronal’. A Câmara acerta ao inverter a lógica.”

O desafio futuro está na continuidade. A Sala Azul demanda equipe capacitada, manutenção sensorial, revisão periódica de materiais e monitoramento de uso. Indicadores já estão sendo estruturados para medir eficácia: quantas famílias utilizam o espaço, por quanto tempo permanecem, qual o impacto no índice de abandono de visitas e audiências. Não se trata apenas de inaugurar — trata-se de operar, medir e aprimorar.
A iniciativa também dialoga com legislação federal, como a Lei 12.764/2012 (Lei Berenice Piana), que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA, e com normas municipais de acessibilidade. Na Câmara, ganha força a ideia de incluir acessibilidade sensorial em licitações de obras públicas, garantindo que futuras reformas contemplem salas de descompressão. Essa é uma agenda sofisticada: inclusão arquitetônica.
Outras capitais já demonstraram interesse em replicar o modelo. Parlamentares de Belo Horizonte, Curitiba e Aracaju solicitarão visita técnica para estudar o projeto. Há também conversas iniciais com casas legislativas estaduais, e organizações da sociedade civil planejam publicar um estudo técnico sobre custo-benefício do projeto — modesto, quando comparado ao impacto social.
A rede municipal de educação também será impactada. Professores que visitam o plenário com turmas poderão contar com a Sala Azul em dias de sobrecarga sensorial. Visitas escolares são parte da formação cidadã — mas até agora não contemplavam diversidade neurológica. São Paulo agora corrige essa lacuna histórica.
Serviço: A Sala Azul está localizada no 1º subsolo do Palácio Anchieta, ao lado do espaço de visitantes. O acesso ocorre durante horário de expediente legislativo e em sessões especiais, com supervisão de servidor capacitado. Para eventos com lotação superior, famílias podem solicitar orientação prévia pelo e-mail do Cerimonial da Câmara. Não há necessidade de cadastro antecipado para visitas espontâneas.
A inauguração se soma a um conjunto de medidas recentes que vêm consolidando São Paulo como capital da inclusão, como ampliação das residências terapêuticas, atendimento prioritário em equipamentos de saúde para TEA, campanhas permanentes de conscientização e formação continuada de servidores públicos.
Ao final da cerimônia, pais fotografaram seus filhos no novo espaço. Crianças sorriram, experimentaram brinquedos sensoriais, deitaram no tapete de baixa compressão, regularam emoções com objetos táteis. Foi uma cena simples — e justamente por isso política. A ideia de cidadania muda quando o corpo neurodivergente cabe no desenho do espaço público.
No discurso de encerramento, Ricardo Teixeira resumiu o espírito da iniciativa: “A cidade cresce, se transforma, e a Câmara precisa crescer junto, acolhendo cada família, cada história, cada criança divergente.” No plenário, silêncio breve — seguido de aplausos. O Recife oficial marcava o fim da cerimônia, enquanto começava uma nova etapa no Legislativo paulistano.
A Sala Azul não é apenas um cômodo com brinquedos. É arquitetura aplicada à dignidade. É política pública que sente. É cidadania sensorial. Outros parlamentos agora observam São Paulo — e é provável que, em poucos anos, aquilo que hoje parece vanguarda torne-se política padrão. Incluir não é moda: é obrigação histórica.
A Câmara Municipal de São Paulo, sob liderança de seu presidente, assume protagonismo nacional e envia ao país uma mensagem clara: o futuro do poder público é sensorialmente acessível, tecnicamente preparado e emocionalmente humano. O gesto pode parecer pequeno no mapa da cidade — mas é enorme no mapa da civilização.
Continua agora a pergunta que cabe ao Brasil inteiro: quando o modelo paulistano será replicado — e quantas famílias deixarão de estar sozinhas por causa disso?
