
Orçamento bilionário consolida partidos com status de empresa no Brasil
Por Redação da São Paulo TV
Fonte: O Estado de S. Paulo – 17 de novembro de 2025 foto arquivo jornal o Globo
O sistema partidário brasileiro entra em 2026 com cifras que ultrapassam qualquer precedente desde a criação dos fundos públicos destinados às legendas. Segundo levantamento do Estadão, os partidos terão à disposição pelo menos R$ 6,4 bilhões, somando Fundo Partidário e Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), o chamado fundo eleitoral. O valor supera o orçamento de oito ministérios da União e equivale ao valor de mercado de 27 empresas listadas na Bolsa de Valores brasileira.

Em meio ao maior ciclo eleitoral do país, o volume de recursos transforma os partidos em estruturas políticas com musculatura financeira comparável à de grandes corporações, mas com um nível de transparência ainda insuficiente. Especialistas alertam que o atual modelo concentra poder nas cúpulas e limita a renovação política.
Estruturas bilionárias
O Fundo Partidário — que financia atividades permanentes das siglas, como pessoal, assessorias, sedes e diretórios — deve repassar cerca de R$ 1,3 bilhão no próximo ano. Já o fundo eleitoral, criado em 2017 após o Supremo Tribunal Federal proibir doações empresariais, deve alcançar R$ 5,1 bilhões em 2026.
Somados, os valores superam o investimento anual de ministérios como Cultura, Povos Indígenas, Mulheres, Esporte e Minas e Energia. A cifra também ultrapassa o lucro líquido da B3 nos últimos 12 meses, aproximadamente R$ 4,8 bilhões.
Além disso, os partidos seguem ampliando seu patrimônio por meio de aplicações financeiras. Em 2024, as seis siglas que mais receberam verbas públicas registraram R$ 39,7 milhões em rendimentos de investimentos feitos com recursos dos próprios fundos — uma prática legal, mas que expande ainda mais o poder econômico das cúpulas.
Autonomia que cria uma “zona cinzenta”
Para o professor de Direito Eleitoral da FGV-SP Fernando Neisser, a administração desses valores ocorre sem critérios técnicos definidos. Ele aponta que o modelo confere às direções nacionais liberdade quase total para decidir a distribuição interna do dinheiro, o que aprofunda assimetrias e reduz o controle sobre os gastos.
Segundo Neisser, o cenário gera um conflito permanente entre os partidos e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O tribunal defende maior transparência por se tratar de dinheiro público. As legendas, porém, alegam autonomia interna e rejeitam mecanismos que se assemelhem a licitações ou exigências formais de controle.
O especialista resume: “O padrão de fiscalização ainda é uma zona cinzenta”.
Um sistema que reforça desigualdades
A desigualdade estrutural também se manifesta na disputa eleitoral. Os valores dos fundos são distribuídos de acordo com o tamanho das bancadas eleitas — o que, na prática, favorece partidos já consolidados. Para o professor da USP Wagner Mancuso, isso cria uma escala em que grandes siglas como PT, PSD, PL, União Brasil, Republicanos e MDB partem com folga desproporcional sobre adversários menores.
A desigualdade se repete dentro dos próprios partidos. Candidatos mais competitivos recebem fatias maiores do fundo, ainda que existam regras formais de distribuição. “A direção prioriza quem já é forte, dificultando a renovação e a competição real”, afirma Mancuso.
Renovação interna prejudicada
A pesquisadora Helena Funari, doutoranda da FGV e da Yale Law School, explica que a combinação entre autonomia das cúpulas, pouca clareza técnica e ausência de mecanismos transparentes de distribuição impede medir os efeitos dos fundos sobre a democracia interna das legendas.
Ela cita o exemplo do MDB, que registrou no TSE um critério destinado a priorizar a reeleição de mandatários. “Isso gera um viés de perpetuação dos já eleitos em detrimento do surgimento de novas lideranças”, afirma.
Bilhões e pouca abertura
O cenário descrito pelos especialistas projeta um 2026 marcado por estruturas partidárias mais ricas, porém com governance interna frágil e baixa capacidade de renovação. Se, por um lado, os fundos públicos buscam garantir campanhas menos dependentes de interesses privados, por outro, ampliam o poder de dirigentes e reforçam assimetrias que atravessam o sistema político brasileiro.
Às vésperas de um novo ciclo eleitoral, partidos com orçamentos bilionários — e autonomia ampliada — carregam a responsabilidade de assegurar que esses recursos sirvam, de fato, à democracia.
