
O que pode estar por trás da ação dos EUA na Venezuela
Da redação São Paulo com informações do g1
Especialistas afirmam que os interesses dos Estados Unidos na Venezuela vão muito além do combate ao tráfico e incluem fatores econômicos e geopolíticos, como o interesse pelo petróleo e a relação da Venezuela com a China , principal rival de Trump.

A Venezuela concentra a maior reserva comprovada de petróleo do planeta, com capacidade de aproximadamente 303 bilhões de barris.
Este número representa 17% do volume conhecido, segundo a Energy Information Administration (EIA), órgão oficial de estatísticas energéticas dos EUA, o que coloca o país à frente de gigantes como Arábia Saudita, com 267 bilhões, e Irã, com 209 bilhões.
Porém, grande parte do petróleo venezuelano é extra-pesado, o que exige tecnologia sofisticada e investimentos elevados para extração. Nesse contexto, há um claro interesse dos Estados Unidos.
Segundo a EIA, o petróleo pesado da Venezuela “é bem adequado às refinarias norte-americanas, especialmente às localizadas ao longo da Costa do Golfo”.
Interesse no petróleo venezuelano
O jornal americano “The New York Times” afirma que a commodity sempre foi a prioridade na ofensiva contra o governo de Nicolás Maduro.
Segundo a publicação, Washington vinha fazendo negociações secretas com Caracas, justamente com foco no petróleo.
Marcos Sorrilha, professor de história dos EUA na Unesp Franca, acredita que o interesse na produção venezuelana tem um motivo principal: reduzir preços internos e, assim, aliviar o custo de vida nos Estados Unidos.
Antes das amplas sanções econômicas impostas pelos EUA à Venezuela, em 2019, os norte-americanos eram os maiores importadores do petróleo bruto do país.
O restante das exportações tinha como principais destinos a Índia, a China e a Europa.
Após as sanções, grande parte das vendas externas passou a ocorrer por meio de acordos de petróleo em troca de empréstimos, usados para quitar dívidas.
Nesse arranjo, a China disparou sua participação e desempenha papel central.
“A Venezuela mantém uma relação cooperativa com a China em áreas muito críticas, como petróleo e mineração”, destaca Carolina Moehlecke, coordenadora do mestrado profissional em Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas.
A especialista reforça que o gigante asiático, principal adversário comercial dos EUA, tem emprestado dinheiro para a Venezuela utilizando embarques de petróleo como garantia.
Com isso, grande parte das exportações venezuelanas foi destinada à China. Por meio dos acordos, o país asiático já concedeu quase US$ 50 bilhões em empréstimos ao longo da última década, em troca de petróleo bruto.
Segundo o relatório mais recente da Energy Information Administration, a China recebeu 68% das exportações de petróleo bruto da Venezuela apenas em 2023.
Apertar os laços com a América Latina
O economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, destaca que Donald Trump demonstra uma intenção clara de “manter os laços muito bem atados” na América Latina, diante do avanço da presença da potência asiática na região.
“A China tem exercido uma influência muito grande nos países latino-americanos, e os EUA não têm interesse nessa aproximação geopolítica chinesa. Então, existem questões estratégicas de toda ordem: geopolíticas, econômicas, geográficas”, diz Galhardo, sobre a postura de Trump.
Para o economista, esse movimento também explica a redução das tensões de Donald Trump com o Brasil e a aproximação do republicano com a Argentina, em um gesto de expansão da influência norte-americana na América do Sul.
“De repente, Trump passou a achar Lula um homem bom, né? Isso também acontece porque o Brasil se tornou um dos maiores produtores de petróleo do mundo, está prospectando volumes na margem equatorial, além do Sul do país, e planeja investir na extração de petróleo na África”, acrescenta.
Abrir mercado para empresas dos EUA
Por trás da tentativa de Trump de derrubar o governo de Nicolás Maduro também está a intenção do governo dos Estados Unidos de expandir o mercado da América do Sul para companhias norte-americanas, explica Marcos Sorrilha, da Unesp.
O professor lembra de conversas públicas de María Corina Machado, principal líder da oposição a Maduro, com Donald Trump Jr., nas quais ela defendia a abertura do mercado venezuelano a empresas dos EUA.
“Então, há também interesse em expandir parcerias de empresas norte-americanas no mercado venezuelano, não apenas para a extração de commodities e produtos primários, mas também para a exploração de processos e produtos industriais dentro do país”, afirma.
Segundo a EIA, o petróleo pesado da Venezuela “é bem adequado às refinarias norte-americanas, especialmente às localizadas ao longo da Costa do Golfo”.
Doutrina Monroe
O governo de Donald Trump pretende ampliar o foco na América Latina e reduzir o peso de outros compromissos globais, transferindo parte das responsabilidades a aliados, segundo a nova estratégia de política externa publicada pela Casa Branca no início deste mês.
O plano prevê um ajuste da presença militar global dos EUA “para enfrentar ameaças urgentes” no Hemisfério, além de recalibrar a atuação em áreas cuja relevância diminuiu para o país nas últimas décadas.
Nesse sentido, o documento menciona explicitamente a Doutrina Monroe, formulada há mais de dois séculos, e afirma que Washington deve “retomar” seus princípios na relação com a América Latina.
Criada em 1823, a Doutrina Monroe estabelecia que qualquer intervenção de potências europeias no hemisfério ocidental seria considerada uma ameaça à segurança dos EUA. Ao mesmo tempo, definia a região como uma área de interesse estratégico prioritário para Washington.
Carolina Moehlecke, da FGV, ressalta que a nova estratégia de política externa dos EUA resgata a doutrina de forma mais ofensiva, “ao estabelecer a América Latina como a região prioritária para sua segurança e prosperidade”.
“Além disso, amarra essa prioridade a evitar que a China, principalmente, tenha acesso a recursos estratégicos na região, alguns dos quais a Venezuela consegue fornecer”, diz.
Marcos Sorrilha, da Unesp, avalia que a estratégia retoma uma visão voltada à consolidação da hegemonia continental, com o objetivo de afastar concorrentes da região, especialmente a China, e assegurar a expansão dos interesses econômicos dos EUA na América Latina.
Segundo ele, há um paralelo com a política adotada na virada do século XIX para o XX, que buscava a expansão das empresas americanas na região por meio da Open Door Policy (Política da Porta Aberta).
No contexto mais amplo da política externa dos EUA, “esse objetivo era sustentado, quando necessário, pelo uso da força”, conclui.
