
Morre Robert Duvall, lenda de ‘O Poderoso Chefão’ e ‘Apocalypse Now’, aos 95 anos

Por Redação São Paulo TV por Beatriz Ciglioni
O cinema perdeu neste domingo, 15, um de seus intérpretes mais sólidos, intensos e discretamente brilhantes. Morreu aos 95 anos o ator norte-americano Robert Duvall, em sua residência em Middleburg, no estado da Virgínia, nos Estados Unidos. A informação foi confirmada por sua esposa, Luciana Duvall. A causa da morte não foi divulgada.
“Nos despedimos do meu amado marido, querido amigo e um dos maiores atores da nossa época. Bob faleceu pacificamente em casa, cercado de amor e conforto”, declarou Luciana em comunicado.
Duvall integrou uma geração que redefiniu o cinema norte-americano nas décadas de 1960 e 1970, ao lado de nomes como Robert De Niro, Al Pacino e Gene Hackman. Embora nunca tenha cultivado o estrelato midiático de alguns de seus contemporâneos, construiu uma carreira marcada por personagens densos, silenciosos e moralmente complexos — homens atravessados por dilemas éticos, falhas humanas e conflitos interiores.
O advogado da máfia que virou símbolo do cinema

Foi como Tom Hagen, o conselheiro da família Corleone em O Poderoso Chefão, que Duvall gravou definitivamente seu nome na história do cinema. Sob a direção de Francis Ford Coppola, ele compôs um personagem contido, racional, estrategista — a mente jurídica por trás do império mafioso comandado por Vito Corleone.
A atuação lhe rendeu indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante e consolidou sua reputação como um ator que preferia a precisão à grandiloquência. Duvall retornaria ao papel na sequência, aprofundando ainda mais as tensões internas da família Corleone.
Em Apocalypse Now, novamente sob direção de Coppola, interpretou o icônico Tenente-Coronel Bill Kilgore. Sua performance deu origem a uma das falas mais memoráveis da história do cinema contemporâneo — símbolo da loucura e da brutalidade da Guerra do Vietnã retratada no filme.
Do teatro ao Oscar
Nascido em San Diego, Califórnia, em 1931, Duvall serviu ao Exército dos Estados Unidos durante a Guerra da Coreia antes de decidir estudar teatro em Nova York. Lá, foi aluno de Sanford Meisner, criador da chamada Técnica Meisner, método que enfatiza a verdade emocional e a escuta genuína entre atores.
Seu primeiro grande papel no cinema veio com O Sol é para Todos, adaptação do romance de Harper Lee, no qual interpretou o enigmático Boo Radley. O filme recebeu oito indicações ao Oscar e marcou o início de uma trajetória sólida em Hollywood.
Ao longo das décadas seguintes, participou de produções como THX 1138, de George Lucas, e acumulou sete indicações ao Oscar. Venceu a estatueta em 1984 por sua atuação em A Força do Carinho (Tender Mercies), no qual viveu Mac Sledge, um cantor country alcoólatra em busca de redenção. Foi um papel silencioso, de reconstrução moral — quase um estudo sobre fragilidade masculina e possibilidade de transformação.
O ator que preferia ser o “segundo protagonista”
Em entrevista ao New York Times, Duvall afirmou certa vez que a melhor posição no cinema era a do “segundo protagonista”. Segundo ele, o coadjuvante muitas vezes ganha os papéis mais interessantes, sem carregar sozinho o peso comercial do filme.
Essa filosofia moldou sua carreira. Em vez de perseguir o centro do palco, Duvall orbitava histórias como uma força gravitacional discreta, mas essencial. Seus personagens eram arquitetos morais das narrativas — advogados, militares, patriarcas, homens em crise.
Na televisão, também construiu trajetória respeitável, com participações em séries clássicas como Além da Imaginação, acumulando cinco indicações ao Emmy e duas vitórias.
Seu último trabalho no cinema foi em O Pálido Olho Azul, lançado em 2022.
Diretor, documentarista e voz política
Além de ator, Duvall dirigiu filmes como O Apóstolo e Cavalos Selvagens, explorando temas ligados à fé, identidade e tradições do interior dos Estados Unidos.
Ao longo da vida, declarou-se conservador e apoiador do Partido Republicano. Em 2005, recebeu a Medalha Nacional das Artes das mãos do então presidente George W. Bush. Nos últimos anos, porém, adotou postura mais crítica em relação aos rumos do partido, defendendo maior independência política.
Um legado de contenção e verdade
Robert Duvall nunca foi um ator de explosões gratuitas. Seu poder estava na pausa, no olhar lateral, na respiração controlada antes de uma decisão dramática. Ele representou uma geração que trouxe o realismo psicológico para o centro do cinema americano — um tempo em que personagens deixaram de ser arquétipos simples e passaram a carregar ambiguidades morais profundas.
Sua morte encerra um capítulo importante da história do cinema do século XX. Permanece, contudo, o legado de um artista que acreditava que atuar era, antes de tudo, buscar a verdade humana — mesmo quando essa verdade é desconfortável.
O cinema perde um intérprete. A história da arte mantém um de seus pilares silenciosos.
