
Morre Manoel Carlos, o autor que transformou o cotidiano em épico emocional e redefiniu a alma da telenovela brasileira
Especial da Redação da São Paulo Tv Foto: Andre Lobo/Estadão
A televisão brasileira se despede de um de seus maiores construtores de sensibilidade. Morreu neste sábado, 10 de janeiro de 2026, aos 92 anos, Manoel Carlos, escritor, dramaturgo, roteirista e um dos mais influentes autores da história da teledramaturgia nacional. A morte foi confirmada pela produtora da família, Boa Palavra. O velório será restrito a familiares e amigos próximos, conforme comunicado oficial, que também agradece as manifestações de carinho e pede respeito à privacidade.

Manoel Carlos não foi apenas um autor de novelas. Foi um intérprete do Brasil urbano, afetivo e contraditório. Um cronista do amor, da família, do envelhecimento, da culpa, das escolhas morais e das dores silenciosas. Seu texto não apostava no excesso: preferia a pausa, o subtexto, o olhar. E justamente por isso atravessou gerações.
Da São Paulo dos anos 1930 ao nascimento da televisão brasileira
Nascido em São Paulo, no bairro do Pari, Manoel Carlos começou sua trajetória artística ainda muito jovem. Nos anos 1950, integrou o Grande Teatro Tupi, na extinta TV Tupi, onde atuou como ator e adaptador de textos teatrais para a televisão, os célebres teleteatros. Dividiu cena e bastidores com nomes que se tornariam pilares da cultura brasileira, como Fernanda Montenegro, Nathália Timberg, Sérgio Britto, Fernando Torres e Flávio Rangel.
Nesse período, construiu a base de sua escrita: diálogos naturais, personagens complexos e uma atenção quase obsessiva à verdade emocional. Em entrevistas, costumava dizer que não se considerava um grande ator, mas que aprendera tudo sobre dramaturgia observando o ritmo da fala humana.
Excelsior, Record e a revolução da TV ao vivo
Nos anos 1960, Manoel Carlos passou pela TV Excelsior, onde criou o programa Bibi 60, apresentado por Bibi Ferreira. Pouco depois, integrou a TV Record, vivendo um dos períodos mais férteis da televisão brasileira. Ao lado de Nilton Travesso, Tuta de Carvalho e Raul Duarte, formou a histórica Equipe A, responsável por programas que moldaram a linguagem da TV nacional.
Entre eles, A Família Trapo, um dos maiores sucessos do humor brasileiro; O Fino da Bossa, com Elis Regina e Jair Rodrigues; e Esta Noite se Improvisa. Trabalhou ainda com Jô Soares, Hebe Camargo e Ronnie Von, em um momento em que a TV era feita ao vivo, sem redes de proteção — e cada erro virava aprendizado.
A chegada à Globo e o nascimento de um autor de novelas
Com o declínio dos festivais e a reconfiguração do mercado televisivo, Manoel Carlos migrou para a TV Globo, onde participou da criação do Fantástico, ao lado de nomes como Armando Nogueira, Daniel Filho e Alice-Maria.
Em 1978, iniciou a fase que o consagraria definitivamente: tornou-se autor de telenovelas diárias. A estreia foi com Maria, Maria, adaptação do romance Maria Dusá, seguida por A Sucessora. Ambas exibidas no horário das seis, já revelavam seu estilo refinado, psicológico e profundamente humano.
Baila Comigo e o nascimento das Helenas
Em 1981, Manoel Carlos escreveu Baila Comigo, sua primeira novela solo no horário nobre. Foi ali que surgiu a primeira Helena, vivida por Lílian Lemmertz. O nome, que se tornaria uma assinatura autoral, não vinha de uma pessoa real, mas da admiração do autor pela figura mitológica de Helena de Troia — símbolo de força, desejo, contradição e conflito.
A partir dali, Helena deixou de ser apenas personagem e se tornou conceito. Mulheres fortes, imperfeitas, afetivas, capazes de errar e recomeçar. Mulheres reais.
Novelas que marcaram gerações
Entre as décadas de 1990 e 2000, Manoel Carlos viveu seu período mais emblemático, assinando obras que entraram para a história da televisão brasileira:
História de Amor
Por Amor
Laços de Família
Mulheres Apaixonadas
Páginas da Vida
Viver a Vida
Em Família
Em Laços de Família, protagonizada por Vera Fischer, abordou o relacionamento entre uma mulher madura e um homem mais jovem, vivido por Reynaldo Gianecchini em sua estreia. A novela ficou marcada pela cena em que Camila, personagem de Carolina Dieckmann, diagnosticada com leucemia, raspa a cabeça — momento que levou a um aumento expressivo nas doações de medula óssea no Brasil.
Em Mulheres Apaixonadas, tratou de violência doméstica, alcoolismo, adoção, homofobia e etarismo. Uma cena emblemática mostrou uma personagem sendo atingida por uma bala perdida no Leblon, provocando debate nacional sobre a violência urbana.
A primeira Helena negra e o debate racial
Em Viver a Vida, Manoel Carlos escalou Taís Araújo como Helena, tornando-a a primeira protagonista negra de uma novela das oito da Globo. Embora a trama tenha enfrentado dificuldades de audiência, o gesto entrou para a história da televisão brasileira e abriu espaço para discussões profundas sobre representatividade.
Um autor que escrevia o tempo em que vivia
Antes mesmo das novelas, Manoel Carlos integrou a equipe do seriado Malu Mulher, marco da TV ao abordar feminismo, divórcio, aborto e violência doméstica ainda nos anos 1970. Ao longo da carreira, foi acusado por críticos de elitismo e de concentrar suas histórias na zona sul do Rio de Janeiro, mas nunca abriu mão de escrever sobre o universo que conhecia — com honestidade e rigor emocional.
Também escreveu novelas e séries para outros países, como Estados Unidos, México, Chile, Argentina, Venezuela, Peru, Colômbia e Equador, consolidando seu reconhecimento internacional.
Vida pessoal, perdas e legado
Manoel Carlos viveu no Rio de Janeiro por mais de 50 anos. Foi casado com a atriz e apresentadora Cidinha Campos e, desde 1981, com Elisabety Gonçalves de Almeida. Era pai da escritora Maria Carolina e da atriz Júlia Almeida. Enfrentou perdas profundas ao longo da vida, com a morte de três filhos — experiências que marcaram sua trajetória pessoal e, segundo muitos analistas, aprofundaram ainda mais sua escrita.
Sua última novela, Em Família, exibida em 2014, encerrou uma carreira de mais de seis décadas dedicadas à televisão.
Manoel Carlos deixa um legado raro: personagens que envelheceram com o público, histórias que atravessaram o tempo e um estilo que provou que, na televisão, o silêncio também fala. Em capítulos diários, ele ensinou o Brasil a sentir.
