
Guerra no Oriente Médio: o que está em jogo? Luciano Caparroz analisa os riscos jurídicos, estratégicos e econômicos da escalada
Da São Paulo Tv Chefia de reportagem jornalista Bene Correa e Beatriz Ciglioni
A escalada no Oriente Médio reacendeu o alerta internacional. Em entrevista à São Paulo TV, o advogado e presidente do Centro Santo Dias de Direitos Humanos, Luciano Caparroz Pereira dos Santos, analisa os objetivos estratégicos dos envolvidos, o impacto humanitário e os reflexos econômicos globais do conflito.

São Paulo TV – O que está no centro desse conflito atual?
Luciano Caparroz – O centro da tensão é estratégico e nuclear. Israel busca conter o avanço militar do Irã, especialmente no que se refere ao desenvolvimento de capacidades nucleares potencialmente militarizáveis. Não se trata, segundo a leitura predominante, de mudança de regime em Teerã, mas de impedir uma alteração estrutural no equilíbrio de poder regional.
São Paulo TV – O Líbano faz parte direta do conflito?
Luciano Caparroz – É fundamental distinguir o Líbano do Hezbollah. O Hezbollah é um ator político e paramilitar relevante, mas não representa a totalidade do Estado libanês. O Líbano possui estrutura institucional fragmentada. Essa distinção é essencial do ponto de vista jurídico, porque responsabilidade internacional depende de comprovação de controle estatal efetivo.
São Paulo TV – Qual é o papel dos Estados Unidos nesse cenário?
Luciano Caparroz – Os Estados Unidos mantêm presença estratégica no Golfo há décadas. Durante o governo Donald Trump, houve retirada do acordo nuclear com o Irã e intensificação de sanções. A lógica americana combina contenção nuclear, proteção de aliados e preservação das rotas energéticas globais, especialmente no Estreito de Ormuz.

São Paulo TV – Por que o preço do petróleo sobe quando há escalada?
Luciano Caparroz – Porque cerca de 20% do petróleo mundial passa pelo Estreito de Ormuz. O mercado reage à expectativa de risco. Mesmo sem bloqueio efetivo, a simples possibilidade de interrupção eleva o prêmio geopolítico. Isso afeta inflação, transporte, cadeias produtivas e crescimento global.
São Paulo TV – As mortes de crianças em escolas mudam o debate jurídico?
Luciano Caparroz – Mudam profundamente. O Direito Internacional Humanitário estabelece três princípios centrais: distinção entre civis e combatentes, proporcionalidade e precaução. Quando escolas entram no contexto de operações militares, estamos diante de falhas graves na contenção da escalada. Em guerras urbanas assimétricas, a aplicação desses princípios é complexa, mas a obrigação de proteger civis permanece absoluta.
São Paulo TV – O conflito pode se transformar em guerra regional maior?
Luciano Caparroz – O risco maior é a escalada incremental. Um confronto ampliado entre Israel e Hezbollah pode envolver diretamente o Irã e pressionar maior participação americana. Ainda que não se trate de guerra mundial formal, os efeitos seriam globais, especialmente no campo energético e financeiro.
São Paulo TV – O que essa guerra representa politicamente para cada lado?
Luciano Caparroz – Para Israel, representa contenção de ameaça estratégica. Para o Irã, reforça narrativa de resistência e consolidação interna. Para os Estados Unidos, reafirma presença estratégica. Para o Líbano, representa vulnerabilidade estrutural. A guerra também fortalece discursos internos em momentos de tensão política doméstica.
São Paulo TV – O direito internacional está funcionando?
Luciano Caparroz – A norma existe. A Carta das Nações Unidas limita o uso da força à legítima defesa ou autorização do Conselho de Segurança. O problema está na aplicação. Em contextos de disputa geopolítica intensa, a efetividade da justiça internacional depende da correlação de forças políticas.
São Paulo TV – Qual é o maior risco sistêmico?
Luciano Caparroz – O maior risco é que a contenção falhe e a dissuasão se transforme em escalada contínua. O Oriente Médio é ponto sensível da economia mundial. Quando o petróleo sobe, o mundo inteiro sente. Quando civis morrem, o sistema internacional perde legitimidade.
