
Guerra no Irã e disparada do petróleo pressionam juros no Brasil e mudam cenário do Copom
Da Redação da São Paulo Tv Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
A escalada da guerra no Oriente Médio e a disparada do preço do petróleo estão redesenhando o cenário econômico global — e já impactam diretamente as decisões do Banco Central do Brasil.
O Comitê de Política Monetária (Copom) inicia nesta terça-feira, 17 de março de 2026, sua reunião para definir a nova taxa básica de juros, a Selic, em um ambiente marcado por incerteza externa e pressão inflacionária. A expectativa do mercado mudou de forma significativa nos últimos dias.

Se antes predominava a projeção de um corte mais agressivo, de 0,50 ponto percentual, agora o consenso migrou para uma redução mais cautelosa, de 0,25 ponto. Levantamento recente mostra que 76% das instituições financeiras já adotam esse cenário como base.
O petróleo virou o novo fator de risco
O principal vetor dessa mudança está fora do Brasil.
O barril do petróleo tipo Brent, referência internacional, chegou a se aproximar de US$ 120, impulsionado pelas tensões no Golfo Pérsico e pelo risco à circulação de energia global. A volatilidade permanece elevada, e o temor é de que esse choque não seja passageiro.
Na prática, o petróleo funciona como um “multiplicador econômico”. Quando sobe, não afeta apenas combustíveis — ele se espalha por toda a cadeia produtiva: transporte, alimentos, indústria e serviços.
É o tipo de choque que economistas chamam de “choque de oferta” — quando o custo de produzir tudo aumenta ao mesmo tempo.
Inflação volta ao radar com mais força
Os reflexos já começam a aparecer nas projeções.
O último relatório Focus elevou a estimativa de inflação para 2026, com o IPCA subindo de 3,91% para 4,10%, aproximando-se do teto da meta estabelecida pelo Banco Central, de 4,5%.
Esse movimento acende um alerta clássico da política monetária: cortar juros estimula a economia, mas pode alimentar a inflação. E, neste momento, o equilíbrio ficou mais delicado.
A economista Solange Srour, do UBS Global Wealth Management, avalia que o cenário exige cautela. Segundo ela, a incerteza sobre a duração da alta do petróleo torna mais provável um corte menor, mesmo com sinais positivos em outras variáveis, como o câmbio.
Banco Central ganha tempo — e cautela
Dentro do Banco Central, o discurso recente já indica uma postura mais prudente.
A lógica é quase tática: começar devagar permite observar melhor os efeitos do choque externo antes de avançar em cortes mais intensos. Em outras palavras, o Copom prefere “comprar tempo” para entender se a turbulência global será temporária ou persistente.
O economista Roberto Secemski, do Barclays, reforça essa visão. Para ele, iniciar o ciclo de cortes de forma mais moderada ajuda a calibrar melhor os próximos passos diante de um cenário ainda nebuloso.
Impactos diretos para o Brasil — e para São Paulo
Embora a guerra ocorra a milhares de quilômetros, seus efeitos são imediatos no Brasil.
A alta do petróleo pressiona:
- o preço dos combustíveis
- os custos logísticos
- a inflação de alimentos e serviços
Em uma economia como a de São Paulo — altamente dependente de transporte, indústria e consumo — esses efeitos se amplificam.
Ao mesmo tempo, o país enfrenta um paradoxo interessante: juros ainda elevados convivem com uma economia aquecida e mercado de trabalho forte. Isso reduz o impacto esperado da política monetária e torna as decisões do Banco Central ainda mais complexas.
Um novo jogo para os juros
O cenário atual revela uma mudança de paradigma.
Antes, a discussão era “quando e quanto cortar juros”.
Agora, a pergunta passou a ser “até onde é seguro cortar”.
A guerra no Oriente Médio, ao pressionar o preço da energia, reintroduz um elemento clássico da economia global: crises externas capazes de alterar completamente o rumo da política interna.
No fim, a decisão do Copom desta semana não será apenas técnica — será também uma leitura do mundo.
Porque, no sistema econômico moderno, uma tensão em um estreito distante pode redefinir o custo do crédito, o preço do combustível e até o ritmo de crescimento de uma cidade como São Paulo.
E isso revela algo fundamental: a economia não é local. Ela é um organismo global — sensível, interligado e, às vezes, surpreendentemente frágil.
