
Engenharia Ambiental, Economia Circular e Logística Reversa: Uma Conversa Ampla Sobre o Futuro Sustentável e o Papel de São Paulo na Liderança Ambiental do Brasil
Por Redação – São Paulo TV
Entrevistado: Marcos Mendes Martins
Engenheiro • Diretor-Presidente da MaxLog Engenharia Ambiental
A transição ecológica é, hoje, um dos maiores desafios urbanos e econômicos do planeta. Termos antes restritos à academia — como economia circular, rastreabilidade de resíduos, descontaminação de materiais perigosos e reforma de equipamentos elétricos — tornaram-se fundamentos de políticas públicas, competitividade industrial e planejamento urbano. Para entender essa transformação e avaliar como o Brasil, e especialmente São Paulo, já avançam nesse caminho, a São Paulo TV entrevistou o engenheiro Marcos Mendes Martins, especialista reconhecido na área de engenharia ambiental.
A seguir, a íntegra da entrevista.

São Paulo TV — Quando falamos em economia circular e engenharia ambiental, parece um conceito distante da vida real. O que mudou nos últimos anos?
Marcos Mendes Martins — Mudou absolutamente tudo. A engenharia ambiental deixou de ser atividade de suporte e passou a ser peça central nas decisões econômicas e urbanas. O mundo percebeu que metas de redução de emissões não funcionam se não estiverem ancoradas em métodos técnicos precisos. Hoje falamos de rastreabilidade total de resíduos, prolongamento da vida útil de equipamentos, reciclagem avançada, reengenharia de sistemas elétricos, descontaminação de materiais perigosos e logística reversa industrial. Isso move cadeias inteiras de valor, gera economia e reduz riscos ambientais.
São Paulo TV — O senhor fala muito da reforma de transformadores e equipamentos elétricos. Por quê?
Marcos — Porque é uma das ações mais eficientes e rápidas para reduzir emissões. Reformar um único transformador evita o descarte de mais de uma tonelada de aço e cobre, materiais cuja produção industrial é extremamente emissora. Países como Holanda, Finlândia e Canadá adotam essa prática como política pública. No Brasil, esse tema ainda precisa de maior escala, mas São Paulo já tem empresas e operadores capazes de trabalhar com esse padrão internacional. Com apoio das prefeituras e do Estado, poderíamos ampliar isso para toda a infraestrutura energética paulista.
São Paulo TV — E como conceitos tão técnicos se conectam com a vida urbana de uma cidade ?
Marcos — Totalmente. São Paulo é uma metrópole que produz milhões de toneladas de resíduos por ano e tem uma das infraestruturas elétricas mais complexas do país. Economia circular e engenharia ambiental são ferramentas para reduzir custos, evitar desperdícios e proteger a população. Quando a cidade investe em reciclagem, reforma de equipamentos e rastreamento digital, ela economiza dinheiro público e reduz impactos ambientais. Isso se traduz em ruas mais limpas, serviços mais eficientes e infraestrutura mais segura.
São Paulo TV — Falando especificamente do poder público: o que a Prefeitura de São Paulo já fez que se encaixa nesses conceitos modernos de sustentabilidade?
Marcos — A gestão do prefeito Ricardo Nunes, nos últimos anos, avançou de maneira muito concreta. A cidade alcançou uma marca histórica: coleta seletiva em 100% dos bairros, atendendo todas as ruas da capital. Isso é raro até mesmo em países desenvolvidos. Além disso, São Paulo modernizou parte da frota de coleta usando caminhões movidos a biometano, reduzindo emissões e tornando a gestão de resíduos mais limpa.
Outro ponto importante é a criação do Orçamento Climático, com R$ 28,8 bilhões destinados a drenagem, reciclagem, arborização, adaptação urbana e outras ações ambientais. Esse instrumento coloca São Paulo entre as cidades mais avançadas da América Latina em governança climática. Não por acaso, a ONU reconheceu oficialmente a capital como Cidade Modelo em Sustentabilidade Urbana, destacando práticas ambientais que outras metrópoles começam agora a discutir.
Essas ações concretas dialogam diretamente com o que defendemos em engenharia ambiental: rastreabilidade, reaproveitamento, energia limpa e planejamento climático de longo prazo.
São Paulo TV — São medidas realmente estruturais. E o Governo do Estado, tem acompanhado essa agenda?
Marcos — Sim, o que percebo que o Governo do Governador Tarcísio também tem avançado. Programas de redução de enchentes, revitalização de córregos, ampliação de aterros sanitários controlados, investimento em estações de tratamento, renovação de frota do metrô e da CPTM com menor consumo energético são exemplos claros. Há ainda esforços crescentes para integrar dados ambientais, monitoramento de qualidade do ar e prevenção a eventos climáticos extremos. O Estado possui escala e recursos para acelerar a transição ecológica, e São Paulo capital serve como seu laboratório mais avançado.
São Paulo TV — Em relação aos resíduos perigosos, como os PCBs, onde o Brasil ainda tem desafios.
Marcos — Poderia dar um passo ousado: criar centros especializados de descontaminação e rastreabilidade de PCBs, em alinhamento com a Convenção de Estocolmo, que exige a eliminação global desses resíduos até 2028. Com uma estrutura dessas, São Paulo seria o primeiro estado do país a cumprir essa meta. Isso não só protege o meio ambiente, mas também eleva o padrão de segurança sanitária.
São Paulo TV — E os ecopontos digitais e o uso de tecnologia no descarte?
Marcos — São Paulo está muito próxima de avançar nisso. Hoje, o descarte irregular ainda é um problema, especialmente de eletrônicos e resíduos de construção civil. A cidade já ampliou sua rede de ecopontos e implementou monitoramento em áreas críticas. O próximo passo seria integrar tecnologia de rastreabilidade via QR Code e geolocalização, permitindo acompanhar cada material desde a entrega até o processamento final. Isso cria uma cadeia segura, transparente e moderna.
São Paulo TV — Em poucas palavras, qual é o futuro ambiental ?
Marcos — Um futuro de liderança. São Paulo tem tecnologia, indústria, logística, universidades e capacidade administrativa para ser a principal cidade ambiental da América Latina. Com planejamento técnico e decisões políticas consistentes, a capital pode ser vitrine global da transição ecológica. E os passos que a Prefeitura já deu mostram que esse caminho está sendo construído de forma concreta e madura. Sustentabilidade não é discurso: é engenharia aplicada. E São Paulo está provando isso na prática.
Encerramento
A entrevista com Marcos Mendes Martins deixa claro que a engenharia ambiental e a economia circular são os novos pilares estruturantes do desenvolvimento urbano. E mostra, com dados concretos, que São Paulo já incorpora boa parte dessa agenda: coleta seletiva universal, biometano na frota de resíduos, orçamento climático bilionário, reconhecimento internacional da ONU, ampliação de áreas verdes, modernização de sistemas urbanos e políticas de sustentabilidade avançadas. A capital paulista e o Governo do Estado caminham para consolidar um novo modelo de desenvolvimento, técnico, moderno e ambientalmente responsável.
