
Eleições de 2026 colocam tribunais à prova diante do uso massivo de inteligência artificial
Redação São Paulo TV Broadcasting por Bene Correa fonte jornal o Estado de São Paulo
As eleições gerais de 2026 devem inaugurar um novo capítulo na história do processo eleitoral brasileiro. Pela primeira vez, o uso intensivo de ferramentas de inteligência artificial (IA) nas campanhas políticas surge como um desafio central para a Justiça Eleitoral, testando a capacidade de fiscalização, regulação e resposta rápida do sistema diante da desinformação em escala inédita.

Especialistas avaliam que, diferentemente do cenário observado em 2024, quando a tecnologia ainda teve impacto limitado, o próximo pleito será marcado pela popularização acelerada de recursos de IA, hoje mais acessíveis, baratos e fáceis de operar. O resultado é um ambiente eleitoral mais complexo, no qual conteúdos sintéticos — textos, imagens, vídeos e áudios — podem ser produzidos e disseminados em velocidade superior à capacidade tradicional de controle institucional.
A responsabilidade pela organização e fiscalização das eleições no Brasil recai sobre a Justiça Eleitoral, tendo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como instância máxima e formulador das normas do processo eleitoral. Em 2024, o tribunal avançou ao aprovar resoluções que obrigaram a rotulagem de conteúdos produzidos por IA, impuseram deveres às plataformas digitais e proibiram o uso de deepfakes — vídeos ou áudios manipulados para simular pessoas reais. Ainda assim, o avanço tecnológico impõe novos dilemas.
Ao longo do mês de fevereiro, o TSE promoverá audiências públicas com especialistas, representantes de plataformas digitais e entidades da sociedade civil, seguindo o rito bienal de atualização das regras eleitorais. O objetivo é aprimorar os mecanismos de prevenção e resposta diante do uso abusivo da inteligência artificial nas campanhas.
Para o advogado e especialista em direito eleitoral Alberto Rollo, o tribunal tem buscado se atualizar, mas enfrenta um cenário cercado de incertezas. Segundo ele, a velocidade das inovações torna impossível antecipar todas as formas de uso da tecnologia até o período eleitoral. “Em 2026, a inteligência artificial deve se consolidar como o maior desafio para o TSE. Será, sem dúvida, a eleição da IA. Ao contrário de 2024, as ferramentas agora estão muito mais acessíveis e fáceis de usar”, avalia.
Na mesma linha, o professor de Direito Eleitoral da FGV-SP, Fernando Neisser, defende que o tribunal avance além das regras já existentes. Para ele, é necessário estabelecer um canal permanente de cooperação e fiscalização com as plataformas responsáveis pela geração de conteúdos por inteligência artificial, a exemplo do que ocorreu nos últimos anos com as grandes redes sociais. “O TSE teve êxito ao firmar memorandos com empresas de tecnologia para acelerar o cumprimento de decisões judiciais. Agora, é fundamental trazer para a mesa as plataformas que produzem conteúdos de IA”, afirma.
O fator tempo é apontado como um dos maiores obstáculos. O advogado eleitoral e pesquisador da PUC-SP, Erick Beyruth, destaca que conteúdos falsos gerados com apoio de IA podem atingir milhões de eleitores antes de qualquer reação institucional. “Quando a Justiça Eleitoral consegue agir, muitas vezes o impacto já ocorreu”, observa. Ele acrescenta que a distinção entre conteúdos reais e sintéticos tende a se tornar cada vez mais difícil, especialmente no caso de vídeos, que possuem alto potencial de viralização.
Esse movimento já se reflete nas redes sociais, com a circulação frequente de imagens e vídeos produzidos por inteligência artificial envolvendo diferentes atores do espectro político. Em episódios recentes, conteúdos sintéticos exploraram fatos políticos em tom satírico ou distorcido, ampliando o debate sobre os limites entre liberdade de expressão, propaganda e desinformação.
Para o marqueteiro Duda Lima, que já coordenou campanhas de Jair Bolsonaro e do prefeito Ricardo Nunes, a eleição de 2026 tende a ser definida pela incorporação definitiva da inteligência artificial às estratégias eleitorais. “Será o ano da IA”, resume. Segundo ele, as campanhas já estruturam núcleos especializados no uso dessas ferramentas, capazes de criar mensagens personalizadas para diferentes perfis de eleitores, algo impensável em ciclos anteriores.
Assim como as eleições de 2018 ficaram marcadas pela consolidação das redes sociais como eixo central das campanhas, o pleito de 2026 deve entrar para a história como o momento em que a inteligência artificial passou a ocupar um papel estratégico no jogo político. Para a Justiça Eleitoral, o desafio será equilibrar inovação, liberdade política e proteção da democracia em um ambiente digital cada vez mais sofisticado e veloz.
Redação São Paulo TV Broadcasting
