
Edir Sales: a voz que transforma dor em lei e protege a vida das mulheres
Entrevista Especial da São Paulo Tv por Beatriz Ciglioni
Em um país marcado por contradições profundas, onde a Constituição assegura direitos, mas a realidade ainda impõe medo, silêncio e violência a milhões de mulheres, falar sobre a condição feminina deixou de ser apenas uma pauta social. Tornou-se uma urgência civilizatória, um teste diário da capacidade do Estado e da sociedade de proteger a vida, a dignidade e o futuro.

O Brasil convive com números alarmantes de violência doméstica, feminicídio, desigualdade econômica e exclusão social, que atingem sobretudo mulheres pobres, mães solo e moradoras das periferias. São histórias que raramente ganham manchetes, mas que se repetem todos os dias dentro de casas onde o lar deveria ser abrigo — e muitas vezes se torna ameaça. Diante desse cenário, a política não pode ser neutra nem distante. Precisa ser presença, escuta e ação concreta.
É justamente nesse ponto que surgem lideranças capazes de transformar dor em política pública, indignação em lei e mandato em instrumento real de proteção à vida. Lideranças que compreendem que legislar não é apenas ocupar cargos, mas assumir responsabilidade moral sobre as escolhas do presente e suas consequências para as próximas gerações.
Uma dessas lideranças é Edir Sales.

Professora, advogada, radialista, mãe e vereadora da cidade de São Paulo em seu quinto mandato consecutivo, Edir Sales construiu uma trajetória política profundamente enraizada na realidade das mulheres brasileiras, especialmente daquelas em situação de maior vulnerabilidade social. Sua atuação é marcada por uma característica rara na vida pública: a capacidade de ouvir a dor concreta das pessoas e transformá-la em leis, programas e ações com impacto direto na vida real.
Ao longo de sua carreira, consolidou-se como uma das principais vozes da Câmara Municipal na defesa dos direitos das mulheres, da maternidade protegida, da dignidade menstrual, da autonomia financeira e do enfrentamento direto à violência doméstica. Projetos como a Lei do Botão do Pânico, políticas de acolhimento a vítimas, iniciativas de combate à pobreza menstrual e ações de incentivo ao aleitamento materno nasceram da convivência direta com a realidade das ruas, das famílias e das periferias de São Paulo.

É nesse contexto que a São Paulo TV apresenta esta Entrevista Especial, conduzida por Beatriz Ciglioni, Diretora da emissora. Uma conversa humana, profunda e necessária, que vai além do debate técnico e alcança temas essenciais como a condição feminina no Brasil, as políticas públicas de proteção, a maternidade, a família, a memória e a esperança.
ENTREVISTA ESPECIAL – SÃO PAULO TV
Por Beatriz Ciglioni
Tema Ser mulher no Brasil
São Paulo Tv – Ser mulher no Brasil ainda é um ato diário de resistência. Como a senhora enxerga a realidade atual das mulheres diante do crescimento dos casos de feminicídio e violência doméstica?
Edir Sales: Ser mulher no Brasil ainda é, infelizmente, um exercício constante de resistência. Vivemos em uma sociedade que por muito tempo naturalizou a sensação de posse do homem sobre a mulher, e isso é um dos principais fatores que alimentam a violência. Soma-se a isso a impunidade que, durante anos, esteve ao lado dos agressores. Hoje, também vemos mais registros porque muitas mulheres estão criando coragem para denunciar. Isso é fruto de campanhas, de políticas públicas, de redes de apoio, de abrigos temporários e de um trabalho contínuo para que a vítima não precise continuar dividindo o mesmo espaço com quem a agride. Mas ainda é pouco. Precisamos trabalhar desde a base, com educação, respeito e autonomia financeira, para que nenhuma mulher se sinta propriedade de ninguém. A mulher precisa ser vista como sujeito de direitos, não como objeto de controle.

Tema A dor que vira política pública
São Paulo Tv – Quando a senhora olha para os dados de violência contra a mulher no país, o que mais lhe preocupa como legisladora e como mulher?
Edir Sales – Como legisladora e como mulher, o que mais me preocupa é que, mesmo com o tema ganhando mais visibilidade, a proteção eficaz ainda não chega a tempo de salvar vidas. Por um lado, há relatos de redução em alguns indicadores de violência letal; por outro, o Brasil segue registrando cerca de quatro feminicídios por dia, com mais de 1.400 mulheres mortas em 2024 pelo simples fato de serem mulheres — e muitos números de 2025 indicam que este recorde pode ter aumentado. Isso mostra que não basta ter leis no papel. É preciso garantir a execução delas. A proteção precisa começar no primeiro pedido de socorro. Medidas protetivas precisam ser fiscalizadas, o agressor precisa ser monitorado e a mulher precisa se sentir segura depois da denúncia.

Tema A mulher antes da vereadora
São Paulo Tv – Antes do mandato, existe a mulher, a mãe, a profissional. Como a sua história de vida moldou a parlamentar que a senhora se tornou?
Edir Sales – Antes de tudo, eu sou mulher, mãe e cidadã. A política não começa no cargo, começa na vida. A minha trajetória sempre foi marcada pelo contato direto com as pessoas e com as dificuldades reais das famílias, das mães e das mulheres que precisam conciliar trabalho, casa e filhos. Antes do meu primeiro mandato como deputada estadual — e hoje somando dois mandatos como deputada e cinco como vereadora —, eu fui professora, radialista, advogada e também trabalhei em escritório de contabilidade. Construí minha família, criei meus dois filhos e venho de uma origem simples: pai sapateiro, um homem humilde e muito sábio, mãe costureira, e seis irmãos. Essa vivência me ensinou desde cedo o valor do trabalho, da dignidade e da solidariedade. Muito antes de ocupar um cargo público, eu já fazia trabalho social. No rádio, apresentava programas voltados à utilidade pública e ao serviço social, ajudando a população com informação e orientação. Foi ali que comecei a entender, na prática, o que é política: ouvir, acolher e buscar soluções para quem mais precisa. Tudo isso moldou a parlamentar que sou hoje: alguém que legisla olhando para o dia a dia, para quem pega ônibus, para quem luta para manter a casa em pé e para quem precisa de políticas públicas que realmente funcionem. Eu não faço política de gabinete. Faço política de presença, de escuta e de diálogo com a população.
Tema – Missão pessoal

São Paulo Tv – Houve algum momento pessoal ou experiência concreta que fez a senhora entender que a defesa das mulheres seria uma prioridade absoluta da sua atuação política?
Edir Sales – Eu entendo que toda mulher que alcança um cargo público, seja no Legislativo ou no Executivo, tem o dever de ter entre suas bandeiras a defesa dos direitos das mulheres. Isso não é opcional, é uma responsabilidade. Na Câmara, defendemos diversas áreas, mas estamos sempre atentas às causas femininas: o combate à violência, o incentivo ao aleitamento materno, a dignidade menstrual, o empreendedorismo feminino e a autonomia econômica. Quando você vê a realidade das mulheres de perto, entende que não é apenas uma pauta política, é uma missão permanente de proteção, respeito e oportunidades.

Tema O silêncio das vítimas
São Paulo Tv – Muitas mulheres não denunciam seus agressores por medo, dependência emocional ou econômica. O que o poder público precisa fazer para romper esse ciclo de silêncio e violência?
Edir Sales – A informação é a primeira forma de ajuda. Uma mulher informada sobre seus direitos já dá o primeiro passo para romper o ciclo da violência. Mas não basta informar. É preciso garantir acolhimento real: moradia temporária, apoio psicológico, assistência social, independência financeira e proteção policial efetiva. O monitoramento dos agressores também é essencial para que a mulher se sinta segura após denunciar. Romper o silêncio exige que o poder público esteja preparado para receber essa mulher e não devolvê-la ao perigo.
Tema O papel do Estado
São Paulo Tv – Na sua avaliação, onde o Estado ainda falha no acolhimento dessas mulheres que pedem socorro?
Edir Sales – O Estado ainda falha quando não age com rapidez e firmeza. Muitos casos de feminicídio acontecem depois que a vítima denunciou várias vezes e as providências não foram tomadas. Também há falha quando as penas são brandas e o agressor retorna ao convívio social sem acompanhamento, muitas vezes buscando vingança. Precisamos integrar melhor polícia, justiça, saúde e assistência social para que a mulher não fique peregrinando por órgãos enquanto corre risco de vida.
Tema Lei do Botão do Pânico

São Paulo Tv – A senhora é autora da Lei do Botão do Pânico em São Paulo. Como nasceu essa proposta e que realidade concreta ela buscava enfrentar?
Edir Sales – Já falamos de várias formas de violência: física, psicológica, moral, patrimonial. O Botão do Pânico nasceu da necessidade de dar à mulher um meio silencioso e rápido de pedir socorro, principalmente para quem vive sob ameaça dentro de casa. O aplicativo funciona de forma oculta e aciona imediatamente a GCM. Ele permite o flagrante em muitos casos e evita que a agressão evolua para algo mais grave. A lei está em vigor há mais de dez anos e, só na cidade de São Paulo, mais de quatro mil mulheres estão cadastradas e monitoradas pelo sistema Smart Sampa. É tecnologia a serviço da vida.
Tema – Proteção que salva vidas
São Paulo – Na prática, o que muda na vida de uma mulher quando ela tem, literalmente, um botão de socorro na mão?
Edir Sales – Muda tudo. Ela deixa de estar sozinha. A mulher passa a ter um canal direto com o poder público. O sistema utiliza GPS e aciona a viatura mais próxima, reduzindo o tempo de resposta e aumentando a chance de impedir a agressão. Mais do que um botão, é a certeza de que alguém está olhando por ela e que a denúncia não vai cair no vazio.

Tema Dignidade menstrual
São Paulo Tv – A pobreza menstrual ainda é um tema invisibilizado. Por que garantir absorventes em escolas e unidades de saúde é uma questão de dignidade, cidadania e igualdade?
Edir Sales – Fiquei chocada ao descobrir que muitas adolescentes faltavam à escola por não terem absorventes. Em situações extremas, algumas utilizavam até miolo de pão. Não é aceitável que isso aconteça na maior cidade do país. Por isso apresentamos o projeto que virou lei para garantir absorventes nas escolas e também nas UBSs para mulheres em situação de vulnerabilidade. Isso evita constrangimento, protege a saúde e garante dignidade. Menstruar não pode ser motivo de exclusão social ou educacional.
Tema Educação e futuro
São Paulo Tv – Políticas públicas aparentemente simples podem mudar o futuro de meninas e mulheres? Como a senhora vê esse impacto a longo prazo?
Edir Sales – Podem mudar destinos. Quando o poder público abre caminhos, as mulheres respondem. Vejo isso todos os dias no esporte, na dança e no empreendedorismo feminino que apoiamos. Só nas feiras de artesanato, centenas de mulheres conseguem renda própria e autonomia. Independência financeira também é proteção contra a violência. É futuro sendo construído no presente. Tema Maternidade desamparada
São Paulo Tv – A maternidade ainda é vivida de forma muito solitária no Brasil. Por que foi tão importante criar leis que protegem o direito ao aleitamento materno?
Edir Sales – O leite materno é o alimento mais completo nos primeiros anos de vida. Ele fortalece a saúde, cria vínculo e protege a criança com nutrientes e anticorpos. Mesmo assim, ainda existem comportamentos retrógrados que constrangem mães, como impedir a amamentação em locais públicos. Criamos leis que garantem o direito de amamentar em público, o acesso aos bancos de leite e até a entrega gratuita em casa para mães que não podem buscar. Também instituímos o Dia do Aleitamento Materno para conscientizar a sociedade.
Tema Respeito à mãe
São Paulo Tv – O que representa para uma mulher saber que a lei a protege até mesmo em um ato tão natural quanto amamentar seu filho em espaços públicos?
Edir Sales – Quando a mulher conhece seus direitos, ela se fortalece. Foi assim que conquistamos espaços históricos. O bebê sente fome quando ele quer, não quando o ambiente permite. A amamentação deve acontecer onde for melhor para mãe e filho, não para agradar terceiros. Lei existe para garantir dignidade, não para constranger.
Tema Empoderamento feminino
São Paulo Tv – Na sua visão, o empoderamento feminino começa pela renda, pela autoestima ou pela combinação dos dois?
Edir Sales – Começa pela combinação dos dois. A renda dá autonomia e a autoestima dá coragem. Uma mulher que acredita em si mesma e tem independência financeira consegue fazer escolhas, romper ciclos de violência e construir novos caminhos. Um fortalece o outro.
Tema Comunicação e memória
São Paulo Tv – Vereadora Edir, a senhora trabalhou com o jornalista Waldemar Ciglioni, meu avô paterno, que foi uma referência do jornalismo paulista. Que lembranças a senhora guarda desse período e qual a importância do jornalismo sério e responsável na formação da cidadania e da política?
Edir Sales – Tive a honra de trabalhar com Waldemar Ciglioni, um profissional que sempre prezou pela ética, pela verdade e pelo respeito à informação, quando eu fui radialista, né? Porque ele sempre trabalhou nas rádios Rádio Iguatemi, Rádio Atual, Rádio Mundial, Rádio Tupi, essas rádios que eu passei, todos eles estavam lá no comando, organizando, administrando, aprendi muito com ele, ele foi uma pessoa muito especial, uma pessoa que passava um grande aprendizado pra todos, com muito carinho e com muita sabedoria. O jornalismo responsável forma cidadania, fortalece a democracia e aproxima o poder público da população. Sem informação correta, não existe participação real. É emocionante ver essa história seguir com você, Beatriz, que certamente é uma grande jornalista também.
Tema Trajetória política
São Paulo Tv – A senhora soma dois mandatos como deputada estadual e cinco como vereadora. O que mais lhe orgulha nessa caminhada política?
Edir Sales – O que mais me orgulha é poder caminhar pelos bairros e saber que participei das transformações. Quando assumi meu primeiro mandato em 1999, a realidade da Mooca, Vila Prudente e Sapopemba era completamente diferente. Hoje vemos desenvolvimento, infraestrutura, leis mais humanas e políticas públicas mais próximas das pessoas. Orgulho é saber que fiz parte desse crescimento, assim como da nossa cidade de São Paulo, com leis que se aplicam para a cidade inteira.
Tema Família e filhos
São Paulo Tv – A política é intensa e exige renúncias. Como a família e seus filhos foram — e ainda são — fundamentais para lhe dar equilíbrio, força emocional e sentido nessa trajetória?
Edir Sales – Minha família sempre foi a base para eu conseguir alcançar tudo na vida pública. Eles sempre foram compreensivos com minha ausência quando o trabalho exigia. Hoje tenho a alegria de ver minha filha, Geórgia Sales, que sempre atuou comigo nos bastidores, se preparando para dar continuidade a esse trabalho. Meu coração se enche de orgulho e esperança.
Tema O futuro das mulheres
São Paulo Tv – Quando a senhora olha para o futuro, quais são hoje as lutas mais urgentes das mulheres brasileiras, incluindo a ampliação da participação feminina na política e nos espaços de decisão?
Edir Sales – As lutas mais urgentes passam por quatro pilares: proteção contra a violência, autonomia econômica, respeito e representatividade. Precisamos ampliar políticas de segurança, incentivar o empreendedorismo feminino, fortalecer a saúde da mulher, garantir dignidade menstrual, educação de qualidade e, principalmente, abrir mais espaço para que as mulheres ocupem a política e os locais onde as decisões são tomadas. O futuro das mulheres é o futuro do país. Não existe desenvolvimento sem igualdade de direitos, oportunidades e voz.
Tema Mensagem final
São Paulo Tv – Para encerrar, que mensagem a senhora deixa, pela São Paulo TV, para mulheres que hoje sofrem violência, discriminação ou acham que não têm força para recomeçar?
Edir Sales – Quero dizer a cada mulher que sofre em silêncio: você não está sozinha. A dor que hoje parece insuportável não define quem você é nem o que você pode ser. Denunciar é um ato de coragem. Recomeçar é um ato de amor-próprio. Confie em você, procure ajuda e nunca permita que ninguém apague a sua luz. Você é forte, é valiosa e merece viver sem medo
Tema Quando a dor é ouvida, ela vira lei
São Paulo Tv A trajetória de Edir Sales mostra que leis podem ter alma, que política pública pode ser acolhimento e que empoderar mulheres é fortalecer famílias inteiras. Ao unir experiência, escuta e sensibilidade, a vereadora construiu um mandato que inspira outras mulheres a ocuparem espaços de poder e acreditarem na própria voz. Nesta Entrevista Especial da São Paulo TV, fica uma certeza: quando a dor é ouvida, ela pode virar lei — e quando a lei é justa, ela protege vidas e constrói futuro.
