
Com certeza, vai faltar
*José Renato Nalini
Já não se pergunta “se” vai acontecer. Resta indagar: “quando vai acontecer?”. A inevitabilidade da falta d’água no mundo e aqui, na maior cidade do Brasil.
As chuvas de setembro não significam qualquer alteração naquilo que a ciência já apurou. Chuvas são cada vez menores. As pessoas podem ficar confusas porque hoje há tempestades repentinas e grande precipitação em pouquíssimo espaço temporal. Mas a verdade é que a água é escassa. Em relação à região dos mananciais, o problema gravíssimo é a Guarapiranga, alvo de invasões e de devastação. Esgoto in natura lançado na represa, com o acréscimo da cocaína, expelida na urina e os resíduos fármacos, que continuam após o tratamento.
O problema não é só nosso. Há desperdício, há irrigação desenfreada, a superexploração de rios como o Amarelo, na China. Ele chegou seco à foz em quase todos os anos a partir de 2000. Nos Estados Unidos, o Colorado mal consegue alcançar o golfo da Califórnia. Na Ásia Central, o mar de Aral diminuiu pela metade. A quantidade de água doce não aumenta. Hoje, metade da Índia enfrenta graves problemas provenientes do excesso de bombeamento, com escassez de água subterrânea e o influxo de água salgada nos poços próximos ao litoral.
São Paulo não tem exata noção de quantos são os poços artesianos perfurados e o uso desregulado de quantidade tão vasta de água subterrâneo já está cobrando um preço.
Mas olhemos o nosso quintal: se não controlarmos a ocupação da região dos mananciais, beber água contaminada provoca surtos de cólera, como tem acontecido no resto do planeta. Na África do Sul, há mais de vinte mil mortes anuais por doenças relacionadas à diarreia, transmitidas pela água.
E nós, que poderíamos ser uma Veneza não tivéssemos enterrado todos os cursos d’água para servir ao automóvel e deixado de retificar os rios sinuosos, vamos enfrentar colapso hídrico se não nos movermos todos rumo à salvação dos nossos já escassos recursos.
Vamos nos movimentar, minha gente: a responsabilidade é de todos.
*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

