
Captura de Maduro reabre a caixa-preta da segurança sul-americana — e coloca a região na rota de um confronto maior
Da Redação da São Paulo Tv Especial de Domingo
Operação dos Estados Unidos na Venezuela, justificativa de “ameaça” e o circuito do narcotráfico reacendem o debate: combate ao crime transnacional ou mudança de regime sob o guarda-chuva da segurança global?
A América do Sul volta a ocupar o centro de um tabuleiro geopolítico sensível, onde crime organizado, fragilidade institucional e disputas de poder internacional deixam de ser fenômenos paralelos e passam a operar como um mesmo sistema de tensão. O estopim mais recente foi a operação conduzida pelos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na prisão de Nicolás Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores, em Caracas, segundo declarações públicas do presidente norte-americano Donald Trump.

A ação, descrita por autoridades norte-americanas como uma resposta direta a uma ameaça à segurança dos Estados Unidos, provocou reação imediata no sistema internacional. A Organização das Nações Unidas passou a ser citada como o principal foro para avaliação da legalidade do ato, especialmente diante do impacto sobre a soberania de um Estado-membro e do risco de escalada regional.
Autoridades e diplomatas ligados ao sistema ONU ressaltaram que, ainda que existam acusações graves contra lideranças estatais, o uso da força fora dos marcos multilaterais tende a fragilizar o direito internacional e ampliar zonas de instabilidade — sobretudo em regiões já marcadas por economias ilícitas e baixa capacidade institucional.

O “circuito do narcotráfico”: quando crime organizado e poder político se confundem
A narrativa central apresentada por Washington sustenta que o núcleo do regime venezuelano estaria profundamente integrado a redes internacionais de narcotráfico, funcionando como elo estratégico entre produção, rotas, proteção armada e lavagem de dinheiro. Essa tese se apoia em acusações formais apresentadas pela Justiça norte-americana desde 2020, enquadrando Maduro sob a categoria de “narcoterrorismo”.
Esse enquadramento não é apenas jurídico — é político e estratégico. Ao classificar um governo como parte de uma estrutura criminal transnacional, cria-se uma zona cinzenta onde operações de segurança passam a se sobrepor a princípios clássicos de soberania. O debate, portanto, não se limita à existência ou não do narcotráfico, mas à legitimidade do método escolhido para enfrentá-lo.
O risco sistêmico para a América do Sul
A captura de Maduro ocorre em um momento em que vários países sul-americanos enfrentam pressões simultâneas ligadas ao crime organizado. Na Colômbia, o recrudescimento da violência em regiões estratégicas para o tráfico reacende alertas sobre controle territorial. No Peru, estados de emergência e emprego das Forças Armadas em áreas urbanas evidenciam o avanço de organizações criminosas. O Equador, por sua vez, tornou-se exemplo recente de como rotas internacionais podem rapidamente corroer estruturas estatais.

Nesse contexto, a operação na Venezuela gera um efeito colateral relevante: o precedente. A ideia de que um governo pode ser removido por força externa sob a justificativa de ameaça transnacional cria insegurança jurídica e política para toda a região, especialmente em países onde o crime organizado já infiltra instituições públicas.
O motivo de Trump: ameaça real ou construção estratégica?
A questão central não é binária. Há, de fato, elementos objetivos que sustentam a preocupação com redes criminosas operando a partir da Venezuela. O narcotráfico é um fenômeno regional e global, com impactos diretos sobre segurança, migração e economia ilícita.
No entanto, a decisão de transformar esse problema em uma operação militar de captura de um chefe de Estado desloca o tema do campo policial e judicial para o terreno da geopolítica dura. Quando a noção de “ameaça” passa a justificar ações unilaterais, ela deixa de ser apenas um diagnóstico de risco e se torna um instrumento de poder.
É por isso que, no âmbito da ONU, cresce a defesa de que qualquer resposta a crimes transnacionais envolvendo Estados deve passar por mecanismos multilaterais, sob pena de institucionalizar a lógica da força como método regular de governança internacional.
A analogia perigosa: remover o líder para restaurar a ordem
A história recente mostra que a retirada abrupta de lideranças, especialmente em países onde o Estado já é atravessado por economias ilegais, raramente produz estabilidade automática. O mais comum é a abertura de vácuos de poder disputados por facções armadas, milícias ou redes criminosas, que se reorganizam com rapidez maior do que estruturas políticas formais.
Por isso, a ONU insiste na centralidade de soluções políticas e negociadas, mesmo diante de acusações graves. A alternativa — a normalização da intervenção — pode transformar crises internas em conflitos regionais prolongados.
Conclusão
A prisão de Nicolás Maduro não é apenas um episódio venezuelano. Ela funciona como um teste crítico para a ordem internacional na América do Sul. O continente se vê entre dois riscos estruturais: de um lado, a expansão do narcotráfico e da criminalidade transnacional; de outro, a consolidação de precedentes que enfraquecem o princípio da soberania e deslocam o eixo da governança global para ações unilaterais.
Quando o combate ao crime assume a forma de guerra e a guerra se apresenta como política de segurança, a região entra em uma zona cinzenta onde o conflito se reproduz em cadeia. O desafio colocado à ONU — e à comunidade internacional — é impedir que essa lógica se torne regra, antes que a exceção vire método.
