
Brasil perde Laura Cardoso e Glória Menezes no mesmo dia e se despede de duas gigantes da dramaturgia
Em poucas horas, o país perdeu duas mulheres que ajudaram a escrever a história do teatro, do cinema e, sobretudo, da televisão brasileira. Laura Cardoso morreu aos 98 anos e Glória Menezes, aos 91. Juntas, elas representam uma época em que a televisão brasileira nasceu, cresceu e se transformou em uma das maiores produtoras de dramaturgia do mundo.
Da Redação da São Paulo TV
O Brasil vive um momento de profunda tristeza para sua cultura. Em um intervalo de poucas horas, morreram Laura Cardoso e Glória Menezes, duas atrizes que atravessaram gerações e se tornaram referências incontornáveis da dramaturgia nacional.

Laura Cardoso morreu na noite de segunda-feira, 17 de agosto, aos 98 anos, em São Paulo. Glória Menezes morreu na terça-feira, dia 18, aos 91 anos, em sua residência no Rio de Janeiro. As mortes encerram duas trajetórias extraordinárias, mas deixam um patrimônio artístico que permanecerá vivo na memória do país.
Não se trata apenas da despedida de duas grandes atrizes. Laura e Glória pertencem à própria história da televisão brasileira. Elas viveram diferentes fases do veículo, acompanharam mudanças tecnológicas, estéticas e culturais e ajudaram a transformar a teledramaturgia em parte da identidade nacional.
Laura Cardoso: uma vida inteira dedicada à arte
Paulistana, Laura Cardoso nasceu Laurinda de Jesus Cardoso e iniciou sua trajetória ainda adolescente, no rádio. Sua história profissional praticamente acompanhou o nascimento e a consolidação da televisão no Brasil.

Foi rádio, teleteatro, novela, palco e cinema. Ao longo de mais de sete décadas de carreira, construiu uma galeria impressionante de personagens e tornou-se uma das intérpretes mais respeitadas do país. Sua morte, aos 98 anos, ocorreu em sua residência em São Paulo.
Laura esteve nos tempos pioneiros da TV Tupi, quando fazer televisão significava enfrentar transmissões ao vivo e uma estrutura técnica muito distante da existente atualmente. No histórico TV de Vanguarda, participou de adaptações de grandes autores da dramaturgia mundial e conquistou reconhecimento ainda nos primeiros anos da televisão.
Era uma atriz formada pelo trabalho, pela observação e por uma disciplina que carregou durante toda a vida.
Depois vieram décadas de personagens inesquecíveis.
Na televisão, participou de produções como Fera Radical, Rainha da Sucata, Mulheres de Areia, A Viagem, Explode Coração, Esperança, Chocolate com Pimenta, Belíssima, Caminho das Índias e O Outro Lado do Paraíso, entre tantas outras.
Sua última novela foi A Dona do Pedaço, em 2019, quando interpretou Matilde. Mesmo depois de se afastar das novelas, Laura continuou trabalhando: aos 97 anos protagonizou o curta-metragem Dona Rosinha, lançado em 2025.
Essa talvez seja uma das melhores definições de Laura Cardoso: uma atriz que nunca desejou deixar de ser atriz.
No teatro, trabalhou com nomes fundamentais, entre eles Antunes Filho, e participou de montagens como As Criadas, A Nonna, Cerimônia do Adeus e Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu.
No cinema, esteve em produções como Terra Estrangeira, de Walter Salles, e Através da Janela, de Tata Amaral.
Laura Cardoso deixa uma obra que ajuda a contar a própria evolução da interpretação brasileira.
Glória Menezes: elegância, talento e uma carreira histórica
Se Laura Cardoso representava uma das grandes raízes da televisão brasileira, Glória Menezes tornou-se um de seus rostos mais emblemáticos.

Nascida no Rio Grande do Sul, Glória construiu uma carreira de mais de seis décadas e participou de mais de 40 novelas, além de trabalhos no teatro e no cinema. Sua morte, aos 91 anos, foi informada pela família, que afirmou que a atriz partiu tranquilamente em sua residência.
Sua importância para o cinema brasileiro também é histórica.
Glória integrou o elenco de O Pagador de Promessas, dirigido por Anselmo Duarte, interpretando Rosa, mulher de Zé do Burro, vivido por Leonardo Villar.
O filme conquistou, em 1962, a Palma de Ouro do Festival de Cannes, o prêmio máximo do festival. Até hoje, permanece como o único longa-metragem brasileiro vencedor da Palma de Ouro.
A partir daí, Glória construiria uma trajetória que se confundiria definitivamente com a história da televisão.
Foram dezenas de novelas, séries, especiais e personagens que mostraram uma atriz capaz de transitar entre o drama e a comédia, entre mulheres sofisticadas e personagens populares.
Sua última novela foi Totalmente Demais, exibida entre 2015 e 2016, na qual interpretou Stelinha. Depois disso, ainda participou de outras produções televisivas e, em 2025, teve sua trajetória celebrada pela série documental Tributo.
Glória e Tarcísio: um casal que entrou para a história da televisão
É impossível contar a trajetória de Glória Menezes sem lembrar de Tarcísio Meira, morto em 2021.
Casados durante 59 anos, os dois construíram uma das histórias mais conhecidas da televisão brasileira. Mas a parceria não ficou restrita à vida pessoal.
Tarcísio e Glória dividiram a cena em inúmeras produções e se tornaram, para diferentes gerações de brasileiros, um dos casais mais representativos da dramaturgia nacional.
Estiveram juntos em trabalhos como 2-5499 Ocupado, Sangue e Areia, Irmãos Coragem, Páginas da Vida e A Favorita. Em 1988, protagonizaram também a série Tarcísio & Glória.
Depois da morte de Tarcísio, Glória passou a viver uma fase mais reservada. Agora, sua partida encerra simbolicamente um dos capítulos mais marcantes da história da televisão brasileira.
Duas histórias que também passam por São Paulo
Para a São Paulo TV, a despedida possui um significado especial.
Laura Cardoso nasceu em São Paulo e foi personagem fundamental da televisão produzida na capital paulista. Sua história passa pelo rádio, pela TV Tupi e pelo período pioneiro em que São Paulo era o grande laboratório da nascente televisão brasileira.
Glória Menezes, embora gaúcha de nascimento, também integrou essa geração de artistas que participou da consolidação da televisão produzida em São Paulo antes de construir uma trajetória nacional.
Elas pertenceram a um tempo de grandes pioneiros — artistas que trabalhavam quando praticamente tudo ainda precisava ser inventado.
Não havia a tecnologia atual, os recursos digitais ou as facilidades de edição. Havia texto, ensaio, disciplina, câmera e talento.
E havia o risco do ao vivo.
Foi nesse ambiente que se formaram artistas capazes de criar uma escola de interpretação que influenciaria todas as gerações seguintes.
O Brasil perde duas gigantes, mas a história permanece
Em apenas um dia, a cultura brasileira ficou mais silenciosa.
Laura Cardoso, aos 98 anos. Glória Menezes, aos 91.
Duas mulheres com estilos diferentes, histórias diferentes e uma característica em comum: a absoluta dedicação à arte.
Laura acumulou cerca de 150 trabalhos ao longo de sua extensa trajetória e permaneceu artisticamente ativa até uma idade raramente alcançada por intérpretes.
Glória participou de um momento único do cinema nacional, integrando o elenco de O Pagador de Promessas, vencedor da Palma de Ouro, e depois tornou-se uma das grandes estrelas da televisão.
As homenagens que se multiplicam entre artistas e admiradores mostram a dimensão dessa perda. Fernanda Montenegro definiu Laura Cardoso como uma artista “insubstituível”, enquanto diferentes gerações de atores e atrizes prestaram homenagens às duas veteranas.
O Brasil se despede das atrizes, mas não de suas personagens.
Elas continuarão nos arquivos da televisão, nos filmes, nas peças, nas reprises e, principalmente, na lembrança de milhões de brasileiros que cresceram acompanhando seus trabalhos.
Laura Cardoso e Glória Menezes não foram apenas estrelas da televisão brasileira.
Elas ajudaram a construí-la.
E é por isso que suas histórias permanecerão muito depois da despedida.
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