
Arquitetura do Poder: Kassab e a Engenharia Silenciosa que Reorganiza o Centro Político Brasileiro
Especial Politica da Redação da São Paulo Tv
O cenário presidencial de 2026 começa a ganhar contornos mais definidos. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. De outro, o senador Flávio Bolsonaro, herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A polarização reaparece como força estruturante da disputa nacional. No entanto, entre esses dois polos consolidados, há um espaço político robusto: o eleitor que rejeita tanto o lulopetismo quanto o bolsonarismo.
É nesse território que emerge a engenharia política de Gilberto Kassab, presidente nacional do Partido Social Democrático.

Kassab não construiu sua trajetória como líder carismático ou tribuno de massas. Sua força reside na arquitetura institucional. Ele opera como organizador de estruturas, articulador de quadros regionais e construtor de capilaridade política.
O centro como estratégia
O chamado “centro político” brasileiro é heterogêneo. Não representa uma ideologia única, mas uma zona pragmática de mediação. O PSD tornou-se peça central dessa engrenagem.
Os números ajudam a dimensionar essa centralidade:
– 14 senadores
– 47 deputados federais
– Aproximadamente 887 prefeituras conquistadas nas eleições municipais de 2024, um crescimento expressivo em relação às 657 de 2020
Prefeituras significam presença territorial, capacidade de mobilização e influência real no cotidiano das cidades. Em política, capilaridade é poder.
Ampliação do tabuleiro nacional
A filiação de Ronaldo Caiado ao PSD soma-se a lideranças como Ratinho Júnior e Eduardo Leite. Três nomes com densidade eleitoral, trajetórias distintas e potencial presidencial.
A multiplicidade de opções não revela indefinição, mas estratégia. Ao afirmar que é “zero” a chance de o PSD não lançar candidato à Presidência, Kassab amplia seu poder de barganha e maximiza possibilidades num cenário fragmentado.
A indefinição do nome, nesse contexto, funciona como instrumento político: permite ao partido dialogar com diferentes segmentos do eleitorado e manter-se como peça central na formação de coalizões.
O “terceiro terço” do eleitorado
Kassab tem defendido a tese de que o eleitorado brasileiro estaria dividido em três grandes blocos: um alinhado a Lula, outro a Bolsonaro e um terceiro que rejeita ambos.
Se essa leitura estiver correta, o PSD aposta justamente nesse segmento intermediário. Não como movimento ideológico, mas como plataforma de estabilidade e governabilidade.
Em um país marcado pela exaustão do confronto binário, a promessa implícita do centro não é ruptura — é previsibilidade.
O apoio do PSD pode definir eleições estaduais?
Aqui entra uma variável estratégica decisiva.
O apoio do PSD, em muitos estados, não é meramente simbólico. Ele representa estrutura municipal, rede de prefeitos, vereadores, tempo de TV, articulação regional e base legislativa futura.
Em disputas estaduais equilibradas — onde a diferença entre candidatos pode ser de poucos pontos percentuais — essa engrenagem territorial pode inclinar o resultado. Um partido com quase 900 prefeituras possui capacidade real de mobilização e influência no interior, onde muitas eleições são efetivamente decididas.
Além disso, há o fator governabilidade. Candidatos sabem que vencer é apenas o primeiro ato. Governar exige base nas assembleias legislativas e interlocução em Brasília. O PSD oferece previsibilidade institucional.
Isso não significa garantia automática de vitória. Partido forte não substitui candidato competitivo. A marca partidária não supera, por si só, altos índices de rejeição. O eleitor contemporâneo é menos fiel às siglas do que no passado.
Mas em um sistema fragmentado, onde raramente alguém vence isoladamente, o PSD tornou-se eixo estruturante de coalizões. E, em cenários competitivos, esse eixo pode ser decisivo.
Engenharia silenciosa em tempos ruidosos
Vivemos a era da política performática, das redes sociais e da retórica de confronto. A estratégia de Kassab segue direção oposta: mediação, cálculo e ocupação estratégica do espaço institucional.
Em um ambiente polarizado, a figura do articulador ganha relevância. Se o PSD lançar candidatura própria, pode retirar votos dos polos mais radicalizados no primeiro turno. Se optar por alianças, pode tornar-se fiel da balança no segundo turno.
A política brasileira oscila historicamente entre carisma e ruptura. A engenharia silenciosa representa uma terceira via: a construção incremental de poder.
Em 2026, mais do que nomes individuais, serão as alianças e a arquitetura partidária que definirão o tabuleiro. E ignorar o peso estrutural do PSD — nos estados e no plano nacional — seria um erro de cálculo político relevante.
A eleição está em formação. Mas a engrenagem já está em movimento.
