
Água viva
*José Renato Nalini
O respeito à água, cuja escassez é mundial, reside na lucidez e sensibilidade das mentes privilegiadas. Todas as religiões têm um código reverencial a respeito. Para a Cristandade, as “águas lustrais do batismo” significam a remoção do estigma do pecado original. As confissões afro também cultuam divindades ligadas à água, como Iemanjá.
O religioso Masaharu Taniguchi (1893-1985), fundador do movimento religioso Seicho-no-Ie, no poema “Viva Vívida”, formula ideias muito adequadas à reflexão que todos os humanos devem fazer em relação à água.
Alguns excertos são bem eloquentes: “Não sou matéria inerte, moldada pela situação ou pelo destino. Eu sou como o ar: quanto mais comprimido for, mais força manifesto, tal como a bomba explode a rocha. Eu sou a Vida que, no momento certo, rompe impetuosamente a situação ou o destino. Sou também como a água: nenhuma barreira poderá represar-me e impedir que me torne um grande oceano”.
A história das águas, em quase todos os países, inclusive aqui em São Paulo, representa o desconhecimento humano sobre a imprescindibilidade da água, bem finito e não renovável. Daí os contínuos erros cometidos pelo bicho-homem, a desconsiderar que a água é a natureza que a espécie racional também integra, e que os equívocos são inevitavelmente cobrados: “Se barrarem a minha passagem, colocando grandes pedras no meu leito, converter-me-ei em torrente, cachoeira, e saltarei impetuosamente. Se me fecharem todas as raízes, eu me infiltrarei no subsolo. Permanecerei oculta por algum tempo, mas não tardarei a reaparecer. Em breve estarei jorrando através de fontes cristalinas, para saciar deliciosamente a sede dos transeuntes”.
E o cântico prossegue: “Se me impedirem também de penetrar no solo, eu me transformarei em vapor, formarei nuvens e cobrirei o céu. E, chegando a hora, atrairei furacão, provocarei relâmpagos e trovões, desabarei torrencialmente, inundarei e romperei quaisquer diques e serei, finalmente, um grande oceano”. Leitura adequada para tempos de severo El Niño.
*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

