
A herança maldita do PT
Marcos Cintra
O Brasil de hoje apresenta um paradoxo inquietante. Enquanto indicadores econômicos como o desemprego de 5 % ao final de 2025, e a inflação, mantida abaixo de 5%, sugerem uma estabilidade superficial, uma análise mais profunda revela uma erosão silenciosa, porém devastadora, do ethos nacional. Essa prosperidade aparente mascara um conflito invisível: a degradação dos valores, das normas e da identidade coletiva que deveriam sustentar a coesão social e a perspectiva de futuro.
Essa dicotomia é a marca de um modelo que, ao longo de duas décadas, priorizou o alívio imediato e o conforto material em detrimento da construção de bases sólidas para o desenvolvimento. A proliferação de programas sociais distributivos, por exemplo, ao beneficiar cerca de 100 milhões de pessoas, tornou-se o emblema de um social-democratismo pragmático, focado na redistribuição e no estímulo à demanda doméstica. Contudo, esses ganhos convivem com uma realidade de violência crescente, com recordes em crimes como estupro e feminicídio, e uma corrupção que se dissemina por instituições estatais. A sociedade, por sua vez, fragmenta-se em clivagens raciais, sexuais e de classe, perdendo os valores agregadores de solidariedade, confiança e otimismo.
A raiz desse problema reside em um populismo que, ao privilegiar a aprovação de curto prazo, cria uma dependência crônica do Estado. Políticas de transferência de renda, quando desprovidas de contrapartidas que estimulem a autonomia e a produtividade, podem inadvertidamente reduzir a iniciativa individual e desincentivar o trabalho e o risco. O que se observa é uma espécie de “extrativismo reverso”, onde o Estado, ao invés de emancipar, aprisiona parcelas da sociedade em uma “armadilha de bem-estar”, substituindo a mobilidade social pela tutela estatal.
Para compreender a profundidade dessa dinâmica, é útil recorrer a conceitos como os de Daron Acemoglu e James Robinson, que distinguem entre “instituições inclusivas” e “instituições extrativistas”. As primeiras promovem a distribuição ampla
de poder, garantem direitos de propriedade, estimulam a concorrência e a inovação, e criam incentivos para que muitos invistam e prosperem. As segundas, ao contrário, concentram o poder em uma elite que extrai renda do restante da sociedade, inibindo a “destruição criativa” de Philippe Aghion – o processo essencial de inovação e renovação econômica. O modelo que se consolidou no Brasil, ao invés de fomentar instituições inclusivas que recompensam o mérito e o empreendedorismo, parece ter pavimentado o caminho para arranjos extrativistas, onde o acesso privilegiado ao poder e a dependência estatal se tornam mais vantajosos do que a produtividade e a inovação.
Essa herança política, consolidada ao longo de duas décadas, é marcada por um clientelismo que se naturalizou, uma acomodação moral que banaliza a violência e a corrupção, e um incentivo à fragmentação identitária que aprofunda as divisões sociais. O Latinobarômetro 2024, ao indicar um crescente pessimismo entre os mais pobres, sugere que a falta de perspectivas de ascensão pode levar a saídas “racionais” pela ilegalidade e pelo crime, corroendo ainda mais o tecido social.
O legado do Partido dos Trabalhadores, portanto, não se restringe a indicadores econômicos ou a programas sociais. Ele se manifesta em um ethos que naturaliza a dependência, tolera a improbidade e aprofunda as divisões, criando um custo futuro imenso para qualquer governo. A “herança maldita” é a inoculação de um conjunto de valores que dificulta a reconstrução institucional e cultural do país. Superar esse desafio exigirá mais do que ajustes econômicos; demandará uma restauração profunda dos princípios que sustentam uma sociedade justa, inovadora e coesa, capaz de oferecer um futuro de oportunidades reais para todos os seus cidadãos.

Doutor em Economia por Harvard, Marcos Cintra é atualmente professor titular da Fundação Getúlio Vargas e conselheiro do Instituto Atlântico.
Foi Vereador, Deputado Federal, Secretário Especial da Receita Federal do Brasil do Ministério da Economia, Presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), Secretário do Planejamento do Município de São Paulo, Secretário de Finanças do Município de São Bernardo do Campo, Secretário do Desenvolvimento Econômico e Trabalho do Município de São Paulo e Subsecretário de
