
A consagração de Lando Norris em Abu Dhabi: o ano em que a Fórmula 1 mudou de mãos
Coluna de Walter Westphal – Automobilismo – São Paulo TV
A Fórmula 1 escolhe seus heróis como quem molda mitos. Em 2025, o cenário não poderia ser mais cinematográfico: uma noite azulada em Abu Dhabi, o brilho geométrico de Yas Marina, o ronco das máquinas ecoando pelas curvas desenhadas para desafiar pilotos e engenheiros. Nesse palco luxuoso, Lando Norris rompeu o fio da eternidade e conquistou um título que parecia destinado a escapar pelas frestas do destino. O britânico de 26 anos precisava apenas de um terceiro lugar para se coroar campeão mundial. Não qualquer terceiro lugar — mas o terceiro lugar de sua vida. Max Verstappen fez o que dele se esperava: largou na pole, venceu com autoridade e pressionou o campeonato até a última volta. Norris manteve o controle, segurou o ímpeto dos rivais e cruzou em terceiro. E, naquele instante, a McLaren quebrou um jejum de 17 anos sem título de pilotos, desde Lewis Hamilton em 2008. O esporte abraça esse tipo de desfecho: não apenas emocionante, mas profundamente simbólico. Foi o ano em que a Fórmula 1 descobriu que hegemonias não são eternas.
Há números que contam histórias e números que contam epopeias. Os de 2025 pertencem à segunda categoria: Lando Norris com 423 pontos, Max Verstappen com 421 e Oscar Piastri com 410. Três pilotos separados por uma carícia de matemática. O campeonato entregou ao público algo raro na era contemporânea: incerteza real. O favoritismo inicial da McLaren evaporou quando Verstappen decidiu fazer sua travessia épica, reduzindo quase 200 pontos de diferença em uma escalada improvável. Por semanas, a Fórmula 1 viveu um roteiro digno de romance clássico: o desafiante imbatível, os jovens prodígios tentando conter o gigante, e uma temporada que parecia escrita em pedra, até que a pedra se partiu.
A McLaren, que dominara a primeira metade do ano, se viu obrigada a abandonar a zona de conforto. A briga interna entre Norris e Piastri prometia ser o eixo do campeonato, mas Verstappen fez questão de deslocar o centro de gravidade da disputa. O holandês, tetracampeão sob o regulamento do efeito solo, parecia próximo de um quinto domínio consecutivo — até que a equipe papaya decidiu jogar xadrez em vez de apostar todas as fichas na velocidade pura.

O que a McLaren entregou em 2025 foi uma aula tática. Dividiu as estratégias de seus pilotos, alongou stints quando necessário, evitou riscos desnecessários e aplicou precisão milimétrica nos momentos decisivos. A equipe inglesa, tantas vezes marcada por tempestades internas, exibiu uma maturidade quase cirúrgica. Piastri, mantido por mais tempo na pista em pontos cruciais, desempenhou um papel essencial na trama estratégica. Norris, por sua vez, operou como um protagonista de disciplina absoluta. Seu título não foi conquistado pela velocidade pura — embora a tivesse —, mas pela compreensão total de que campeões também se fazem na inteligência e no autocontrole. Max Verstappen fez sua parte com maestria. Venceu a última corrida. Mostrou por que dominou o esporte por quatro anos. Mas, em 2025, o destino decidiu olhar para outro lado.

A narrativa de Lando Norris funciona quase como um manual do crescimento profissional no automobilismo. Ele não chegou ao título por acaso. Chegou porque construiu, temporada após temporada, uma base sólida: campeão da Fórmula MSA (2015), da Toyota Racing Series (2016), da Fórmula Renault 2.0 e Norte Europeia (2016), da Fórmula 3 da FIA (2017), vice-campeão da Fórmula 2 (2018), vice-campeão da Fórmula 1 (2024) e, agora, campeão mundial de 2025. Há um arco completo nessa trajetória: o prodígio, o aprendiz, o vice, o quase — e, finalmente, o campeão. Norris não venceu apenas uma disputa; venceu uma narrativa inteira.
Enquanto o mundo vibrava com a disputa pelo título, o Brasil acompanhava mais um capítulo da evolução de Gabriel Bortoleto. O jovem piloto fechou o GP de Abu Dhabi em 11º, resultado discreto, mas dentro de um processo de amadurecimento que o mantém na rota de um futuro promissor. O Brasil sabe reconhecer quando um talento está se forjando. Bortoleto carrega essa expectativa.

Com a bandeira quadriculada em Abu Dhabi, a Fórmula 1 mergulha agora em seu tradicional hiato de três meses. É o período em que as equipes parecem descansar, mas apenas na superfície. Nos bastidores, simulações se multiplicam, túneis de vento operam madrugada adentro e engenheiros tratam cada detalhe como se dele dependesse o futuro. A nova temporada começa em 8 de março, no GP da Austrália. E se 2025 foi o ano em que a hegemonia de Verstappen encontrou resistência, 2026 promete ser o ano em que novas forças tentarão se consolidar. O esporte vive de ciclos. E o ciclo que se inicia já carrega uma certeza: a Fórmula 1 voltou a ser imprevisível — e isso, para o torcedor, é ouro puro.
Walter Westphal – Colunista de Automobilismo
São Paulo TV Broadcasting
