
Mounjaro pode estar levando mais do que gordura?
Emagrecimento acelerado exige atenção para evitar a perda de massa muscular
Por Professor Andrei Spinelli — Coluna Movimento que Transforma
Emagrecer rapidamente parece ótimo. A balança mostra números menores, as roupas começam a ficar mais largas e os resultados surgem em pouco tempo. Mas existe uma pergunta que precisa acompanhar todo processo de perda de peso: o que, exatamente, o corpo está perdendo?
O uso da tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, ganhou destaque por seus resultados no controle do diabetes tipo 2 e no tratamento da obesidade e do sobrepeso em situações indicadas. O medicamento atua reduzindo a ingestão de alimentos e aumentando a sensação de saciedade, mas deve ser utilizado com prescrição e acompanhamento médico. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária reconheceu sua indicação para o controle crônico do peso, associada a dieta de baixa caloria e aumento da atividade física.
O problema começa quando o emagrecimento é tratado apenas como uma corrida contra a balança.
Nem todo peso perdido é gordura
Quando uma pessoa perde peso, principalmente de maneira rápida e sem planejamento adequado, o organismo não elimina apenas gordura. Parte dessa redução pode envolver líquidos e massa magra.
Em um subestudo do programa clínico SURMOUNT-1, realizado com exames de composição corporal, aproximadamente 75% do peso eliminado pelos participantes que utilizaram tirzepatida correspondeu à gordura e cerca de 25% à massa magra. Isso não significa que toda a massa magra perdida seja músculo, pois esse conceito também inclui água, órgãos, ossos e outros tecidos. Ainda assim, o resultado reforça a necessidade de proteger a musculatura durante o tratamento.
Portanto, é importante esclarecer: o Mounjaro não “derrete músculos” diretamente. A perda de massa muscular pode acontecer como parte do próprio emagrecimento, especialmente quando há grande redução do consumo de alimentos, ingestão insuficiente de proteínas, sedentarismo e ausência de estímulo muscular.
Quanto mais rápido for o emagrecimento, maior deve ser o cuidado com a qualidade do peso perdido.
A balança comemora. Seu músculo pode não
Ver o peso diminuir é motivador, mas a balança não consegue mostrar sozinha quanto foi perdido de gordura e quanto corresponde à massa magra.
Uma pessoa pode pesar menos e, ao mesmo tempo, apresentar redução de força, disposição e capacidade funcional. Em determinados casos, ela emagrece, mas encontra mais dificuldade para subir escadas, carregar objetos, levantar-se de uma cadeira ou realizar atividades simples do cotidiano.
O músculo não serve apenas para melhorar a aparência. Ele participa do equilíbrio, da postura, da proteção das articulações, da movimentação, da autonomia e do funcionamento metabólico. Preservá-lo é especialmente importante para pessoas acima dos 50 anos, idosos e indivíduos que já passaram por longos períodos de sedentarismo.
É possível diminuir medidas e ainda assim não alcançar um emagrecimento saudável. O objetivo não deveria ser simplesmente “pesar menos”, mas perder gordura preservando força, saúde e funcionalidade.
Musculação não é apenas estética
Durante o uso de medicamentos que favorecem a perda de peso, o treinamento de força torna-se um aliado fundamental.
Musculação, exercícios com elásticos, aparelhos, pesos livres ou até movimentos adaptados com o peso do próprio corpo enviam ao organismo uma mensagem importante: essa musculatura continua sendo necessária.
O treino de força não impede completamente qualquer perda de massa magra, mas ajuda a preservar músculos, força e capacidade funcional. Por isso, a atividade física não deve ser vista apenas como um recurso para “queimar calorias”. Ela faz parte da estratégia de proteção do corpo durante o emagrecimento.
O programa precisa respeitar a idade, a condição física, as limitações articulares, o histórico clínico e a experiência de cada pessoa. Não é necessário começar levantando grandes cargas. É necessário começar com segurança, orientação e regularidade.
Comer menos não pode significar comer mal
A redução do apetite pode fazer com que algumas pessoas comam muito pouco. Quando isso acontece sem acompanhamento, pode haver ingestão insuficiente de proteínas, vitaminas, minerais e energia.
A proteína fornece os aminoácidos utilizados pelo organismo na manutenção e recuperação muscular. O planejamento alimentar deve distribuir boas fontes proteicas ao longo do dia, de acordo com as necessidades individuais.
Carnes magras, peixes, ovos, leite e derivados, feijão, lentilha, grão-de-bico, soja e outras fontes podem fazer parte dessa alimentação. Suplementos proteicos podem ser úteis em alguns casos, mas não devem ser utilizados automaticamente nem substituir todas as refeições.
A quantidade adequada de proteína varia conforme peso, idade, rotina de exercícios, condições clínicas e função renal. Por isso, a orientação de um nutricionista ou médico é indispensável.
O acompanhamento precisa olhar além dos quilos
Um tratamento responsável não deve avaliar apenas o peso total. Outros sinais também merecem atenção:
- perda de força;
- cansaço excessivo;
- tonturas ou fraqueza;
- dificuldade para realizar tarefas comuns;
- redução muito rápida do peso;
- baixa ingestão de alimentos;
- perda visível de volume muscular;
- queda importante no desempenho durante os exercícios.
Quando possível, medidas de composição corporal, circunferências, testes de força e avaliações funcionais ajudam a acompanhar melhor a evolução. Nenhum método isolado é perfeito, mas observar vários indicadores oferece uma visão mais completa do que simplesmente subir na balança.
Medicamento não substitui mudança de vida
A tirzepatida pode ser uma ferramenta importante quando corretamente indicada. Os estudos mostram redução significativa do peso corporal, principalmente da gordura, e benefícios metabólicos relevantes. Entretanto, o próprio tratamento medicamentoso é recomendado em conjunto com alimentação adequada e aumento da atividade física.
Não se trata de condenar o medicamento nem de negar seus benefícios. Trata-se de compreender que nenhuma caneta substitui o estímulo muscular, a alimentação equilibrada, o sono, o acompanhamento médico e a construção de hábitos sustentáveis.
O Mounjaro pode ajudar no emagrecimento. Mas músculo não se preserva sozinho.
Antes de comemorar apenas os quilos eliminados, pergunte:
Estou perdendo gordura ou também estou perdendo a força que sustenta minha vida?
A balança comemora. Seu músculo pode não.
Professor Andrei Spinelli
Coluna Movimento que Transforma
Aviso: Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica, nutricional ou de um profissional de Educação Física. A tirzepatida é um medicamento sujeito a prescrição. Não inicie, interrompa ou altere o tratamento sem orientação médica.

