
Último Capítulo no Vale Sagrado: a Montanha Colorida e a certeza de que todos fazemos parte da mesma história
Por Stânia Moraes – leia também Vale Sagrado dos Incas: o aniversário em que descobri que a maior riqueza da vida é saber agradecer – São Paulo Tv Broadcasting
O meu último dia completo no Peru começou antes do nascer do sol. Ainda era madrugada quando deixei Cusco em uma van rumo a um dos lugares mais aguardados de toda a viagem: a Montanha Colorida, conhecida mundialmente como Vinicunca. Durante o percurso, enquanto o dia clareava lentamente sobre a Cordilheira dos Andes, eu observava pela janela pequenas comunidades, rebanhos de lhamas e alpacas e uma paisagem que parecia mudar de cor a cada quilômetro.

Depois de algumas horas de viagem, iniciamos a caminhada. Foram cerca de um quilômetro e meio em direção ao topo, em um terreno que exige preparo físico e respeito à altitude. Cada passo era sentido de forma diferente, afinal eu estava subindo até aproximadamente 4.800 metros acima do nível do mar. O ar se tornava mais rarefeito, a respiração mais lenta, mas a expectativa aumentava a cada metro percorrido.

Quando finalmente alcancei o mirante, compreendi por que aquele lugar emociona pessoas do mundo inteiro.
Diante dos meus olhos estava uma verdadeira obra de arte criada pela própria natureza.
A Montanha Colorida, ou Vinicunca, não recebeu suas cores por acaso. Os geólogos explicam que, há mais de 200 milhões de anos, toda essa região fazia parte do fundo de um antigo oceano. Com os intensos movimentos das placas tectônicas que deram origem à Cordilheira dos Andes, os sedimentos marinhos foram sendo elevados lentamente até formar essas montanhas monumentais.

Cada faixa de cor representa diferentes minerais depositados ao longo de milhões de anos. Os tons avermelhados são ricos em óxidos de ferro; os amarelos indicam compostos sulfurosos; os verdes revelam minerais como a clorita; os brancos estão ligados ao quartzo e aos calcários; enquanto outras tonalidades refletem a presença de manganês e diferentes formações geológicas. É como se a própria Terra tivesse pintado sua história em camadas, revelando diante de nós milhões de anos da evolução do planeta.

Enquanto contemplava aquele cenário, pensei em como a natureza escreve sua própria história com uma paciência impossível de ser medida pelo tempo humano.
Durante todo o percurso encontrei lhamas, alpacas e moradores locais preservando tradições que atravessaram séculos. Tudo ali parecia viver em perfeita harmonia com a montanha.

Na volta, antes do retorno para Cusco, tivemos uma surpresa especial: um piquenique preparado com alimentos naturais da região. Em meio ao silêncio dos Andes, compartilhamos frutas, produtos típicos e sabores simples que pareciam completar aquela experiência. Não era apenas uma refeição. Era um momento de contemplação, gratidão e despedida.

Enquanto observava novamente aquelas montanhas, uma frase nasceu naturalmente dentro de mim:
“É curioso perceber que todas essas montanhas, hoje tão imponentes, um dia foram o fundo do mar. Os movimentos da Terra transformaram minerais em cores, e as cores transformaram a paisagem em uma verdadeira pintura. A natureza nos ensina que tudo muda, tudo evolui e tudo faz parte de uma mesma história.”
No dia 5 de agosto, chegou o momento de voltar para casa. Ainda pela manhã, embarquei para o Brasil levando muito mais do que fotografias.

Levei comigo o silêncio dos Andes, o carinho do povo peruano, os ensinamentos da Pachamama, a riqueza da cultura inca, a grandiosidade de Moray, Chinchero, Ollantaytambo, Maras e da Montanha Colorida. Levei também o perfume da terra, os sabores da culinária peruana, a generosidade das pessoas que encontrei pelo caminho e uma profunda gratidão por ter celebrado meu aniversário em um lugar tão extraordinário.
Volto renovada.
Volto compreendendo que conhecimento, cultura e respeito às diferentes civilizações ampliam nossa visão de mundo.
Em tempos marcados por tantas divisões e extremismos, uma viagem como esta nos lembra algo essencial: todos nós viemos da mesma Terra, compartilhamos a mesma origem e fazemos parte da mesma humanidade.

O Peru me ensinou isso da forma mais bonita possível.
Deixo também meu carinho e agradecimento ao nosso guia, cuja dedicação e profundo conhecimento transformaram cada passeio em uma verdadeira aula de história, geologia, arqueologia e cultura andina.
Tenho absoluta certeza de que um dia voltarei.
Porque algumas viagens terminam quando o avião decola.
Outras permanecem para sempre dentro de nós.
E o Peru, sem dúvida, será para sempre parte da minha história.





