
Vale Sagrado dos Incas: o aniversário em que descobri que a maior riqueza da vida é saber agradecer
Entre montanhas que parecem tocar o céu, rituais milenares, sabores inesquecíveis e um povo que aprendeu a viver em harmonia com a natureza, Stânia Moraes relata a viagem que transformou para sempre sua maneira de enxergar o mundo.
Por Stânia Moraes especial para São Paulo Tv

Existem viagens que planejamos durante muito tempo e existem aquelas que, sem que percebamos, parecem ter sido preparadas por Deus para acontecer exatamente no momento em que nossa alma mais precisa delas. Assim começou minha viagem ao Peru. Na manhã do dia 31 de julho, embarquei no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, levando comigo a alegria de realizar um sonho antigo. Sempre admirei a história da civilização inca, sua capacidade extraordinária de construir cidades em meio às montanhas, a riqueza de sua cultura e a fama de uma gastronomia considerada uma das melhores do planeta. Mas confesso que, mesmo depois de tantos livros, documentários e reportagens, eu não fazia ideia do quanto essa viagem iria transformar minha forma de sentir a vida.

Depois da conexão em Lima, segui para Cusco. Durante praticamente todo o voo permaneci olhando pela janela. Quando a Cordilheira dos Andes começou a surgir entre as nuvens, meu coração acelerou. Aquelas montanhas imensas pareciam tocar o céu. Não eram apenas montanhas. Eram muralhas naturais que atravessam diversos países da América do Sul, formando um dos cenários mais impressionantes do planeta. Nosso guia explicou que a Cordilheira dos Andes é muito mais do que picos elevados. Ela reúne montanhas cobertas de neve, rios cristalinos, lagos de altitude, vales profundos, altiplanos e uma biodiversidade extraordinária. Cusco está situada a cerca de 3.400 metros acima do nível do mar, e, em vários momentos da viagem, subiríamos ainda mais. Respirar naquele lugar era sentir que o céu estava muito mais próximo de nós.

Enquanto seguíamos viagem, o guia começou a contar histórias que me deixaram completamente fascinada. Explicou que milhões de anos atrás aquela região fazia parte do fundo de um antigo mar. Com o movimento das placas tectônicas, a terra foi lentamente se elevando até formar a Cordilheira dos Andes, uma das maiores cadeias de montanhas do mundo. Também falou sobre evidências geológicas que apontam antigos impactos de meteoritos em áreas da região, acontecimentos que ajudaram a moldar parte daquela paisagem impressionante. Muito tempo depois surgiria ali uma das civilizações mais extraordinárias da história da humanidade: os incas. Um povo que aprendeu a construir cidades, templos, terraços agrícolas, canais de irrigação e estradas em perfeita harmonia com a natureza. Séculos depois veio a colonização espanhola, trazendo uma nova arquitetura, uma nova religião e novos costumes. Hoje, caminhar pelo Peru é testemunhar o encontro dessas duas culturas que convivem lado a lado.

Nossa chegada ao Vale Sagrado dos Incas foi simplesmente emocionante. Permaneci quase todo o percurso em silêncio. Não porque faltassem palavras, mas porque qualquer tentativa de descrever aquela paisagem parecia insuficiente. As montanhas cercavam nosso caminho por todos os lados. O rio Urubamba serpenteava lentamente pelo vale. Os antigos terraços agrícolas desenhavam as encostas como verdadeiras obras de arte. Em vários momentos tive a sensação de que aquelas montanhas me observavam e, ao mesmo tempo, me protegiam. Era uma paz que eu nunca havia experimentado.

Nossa hospedagem foi no Sonesta Posadas del Inca Yucay, um lugar encantador, cercado por jardins floridos, ruas de pedra, construções coloniais e uma atmosfera acolhedora. Desde o primeiro instante fui recebida com enorme carinho por toda a equipe do hotel. A gentileza de cada funcionário fazia com que eu me sentisse muito mais do que uma visitante. Parecia que estava sendo recebida por velhos amigos.

Então chegou o dia 2 de agosto, meu aniversário.
Acordei antes mesmo do despertador. Ainda estava escuro quando meu telefone começou a tocar. Desde as seis horas da manhã, no horário de Brasília, familiares, amigos e pessoas muito queridas começaram a me ligar para desejar feliz aniversário. Aqui no Peru existe uma diferença de uma hora em relação ao Brasil. Enquanto muitos já iniciavam suas atividades pensando em mim, eu ainda despertava lentamente entre as montanhas dos Andes. Recebi tantas mensagens de carinho que meu coração ficou completamente emocionado. Mesmo tão distante de casa, senti que nunca estive tão perto das pessoas que amo.

Abri a janela do quarto e imediatamente senti o frio típico das manhãs andinas. Um vento gelado entrou suavemente no ambiente trazendo aquele ar puro que parece renovar a alma. As montanhas começavam a ser iluminadas pelos primeiros raios do sol, enquanto uma leve neblina cobria parte do vale. Permaneci alguns minutos em silêncio apenas contemplando aquela paisagem. Depois fechei os olhos e fiz minha oração. Agradeci a Deus pelo dom da vida, pela saúde, pela minha família, pelos amigos e pela oportunidade de viver aquele momento tão especial. Naquele instante tive a certeza de que aquele seria o aniversário mais inesquecível da minha vida.
Após um delicioso café da manhã preparado com muito carinho pela equipe do hotel, seguimos rumo a Chinchero, uma das comunidades mais tradicionais do Vale Sagrado. Logo na chegada fui recebida por um cenário encantador. Mulheres usando roupas típicas extremamente coloridas preservam até hoje técnicas ancestrais de tecelagem transmitidas de geração em geração. Cada tecido, cada cor e cada desenho representam histórias, símbolos e tradições do povo andino. Enquanto observava aquelas mãos trabalhando delicadamente a lã de alpaca, pensei no quanto a cultura pode sobreviver quando existe orgulho pelas próprias raízes.

Foi também em Chinchero que vivi um dos momentos mais emocionantes de toda a viagem. Enquanto caminhava pela comunidade, encontrei uma pequena menina vestida com roupas típicas. Seu sorriso iluminava o rosto de uma maneira impossível de esquecer. Ela olhou para mim, sorriu e, mesmo sem falarmos a mesma língua, senti uma conexão imediata. Algumas pessoas entram em nossa vida durante poucos segundos e deixam lembranças para sempre. Foi exatamente isso que aconteceu.
Depois daquele encontro tão especial em Chinchero, seguimos viagem até um lugar que eu jamais imaginei existir: o Potato Park, conhecido como o Parque da Batata. Confesso que, antes de chegar ali, eu nunca havia parado para pensar na importância que uma batata pode ter para um povo. Nosso guia começou a explicar que o Peru é considerado o berço mundial desse alimento e que aquelas comunidades preservam milhares de variedades cultivadas pelos seus antepassados há centenas e até milhares de anos. Enquanto caminhava entre as plantações, via batatas de cores, formatos e tamanhos completamente diferentes das que estamos acostumados a encontrar no Brasil. Havia batatas amarelas, vermelhas, roxas, pretas, rajadas e tantas outras que seria impossível decorar todos os nomes. Ao lado delas também cresciam inúmeras variedades de milho, igualmente preservadas como um patrimônio da humanidade. Naquele momento compreendi que não estava apenas visitando uma plantação. Eu estava conhecendo um verdadeiro banco vivo da biodiversidade agrícola do planeta.

Foi impossível não sorrir ao encontrar as lhamas e alpacas caminhando tranquilamente entre as pessoas. Elas parecem fazer parte da família das comunidades andinas. Carinhosas, curiosas e extremamente dóceis, aproximavam-se naturalmente de quem estava por perto. Passei alguns minutos brincando com elas, fazendo carinho e registrando fotografias que certamente levarei comigo para sempre. Também conheci os famosos cuy, como os peruanos chamam os porquinhos-da-índia. Para nós, brasileiros, eles costumam ser vistos apenas como animais de estimação, mas aqui representam uma tradição muito antiga, presente na cultura andina há séculos. Cada descoberta fazia aumentar ainda mais meu respeito por esse povo que preserva com tanto orgulho sua identidade.

Enquanto seguíamos viagem, nosso guia chamou nossa atenção para uma grande movimentação em uma comunidade próxima. Diversas pessoas estavam reunidas acompanhando um dos candidatos ao governo regional do Peru. O mais interessante era perceber que, mesmo em meio à atividade política, as tradições permaneciam presentes. Homens e mulheres usavam suas roupas típicas, conversavam em quéchua e mantinham viva uma identidade cultural que atravessa gerações.
Pouco depois chegamos à impressionante Zona Arqueológica de Moray. Assim que olhei aqueles enormes círculos escavados na montanha, fiquei completamente sem palavras. Parecia um gigantesco anfiteatro construído pela própria natureza. Nosso guia explicou que, na verdade, aquele local funcionava como um extraordinário laboratório agrícola da civilização inca. Cada nível dos terraços possui temperatura, umidade e incidência de vento diferentes, permitindo que fossem realizados experimentos com diversas espécies cultivadas em todo o império. Enquanto caminhava por Moray, pensava em como aquele povo, sem tecnologia moderna, conseguiu desenvolver conhecimentos científicos tão avançados. Era impossível não admirar a inteligência dos incas.

Mas o momento mais emocionante do dia ainda estava por vir.
Nosso guia explicou que eu havia chegado justamente em um período muito especial para os povos andinos. No início de agosto, diversas comunidades realizam cerimônias em homenagem à Pachamama, palavra em quéchua que significa Mãe Terra. Mais do que uma tradição, trata-se de uma filosofia de vida. Para eles, a terra é um ser vivo que alimenta, protege e sustenta todas as famílias. Por isso, antes do início de um novo ciclo agrícola, é preciso agradecer por tudo aquilo que ela ofereceu e pedir bênçãos para as futuras plantações.
Tive o privilégio de acompanhar uma dessas celebrações.
Homens, mulheres, idosos e crianças estavam reunidos em torno de uma sacerdotisa andina, responsável por conduzir o ritual. Sobre um tecido colorido eram cuidadosamente colocadas folhas de coca, sementes, grãos, flores, frutas e diversos alimentos produzidos pela própria terra. Nosso guia explicou que aquela oferenda simbolizava a devolução à Pachamama de tudo aquilo que ela havia proporcionado ao longo do ano. Foi uma lição de humildade que jamais esquecerei.
Enquanto a sacerdotisa fazia suas orações em quéchua, todos permaneciam em absoluto silêncio. Era possível sentir o respeito que aquele povo tem pela natureza. Em seguida, a oferenda foi colocada sobre uma pequena fogueira. A fumaça subia lentamente em direção ao céu, levando simbolicamente os agradecimentos da comunidade. Logo depois começaram as músicas, os instrumentos típicos e as danças. Homens e mulheres celebravam juntos o início de um novo ciclo agrícola, acreditando que a terra retribui com fartura quando é tratada com respeito e gratidão.

Naquele instante, senti meus olhos se encherem de lágrimas.
Pensei em quantas vezes nós, no mundo moderno, nos esquecemos de agradecer pelas coisas mais simples da vida. Ali, entre aquelas montanhas, aprendi uma lição que levarei para sempre: antes de pedir, é preciso agradecer. A Pachamama representa exatamente isso. O reconhecimento de que tudo o que somos depende da terra, da água, do sol, das montanhas e da natureza criada por Deus.

Depois daquela experiência seguimos para outro lugar extraordinário: as famosas Salinas de Maras. Quando cheguei, fiquei completamente fascinada. Milhares de pequenos espelhos brancos desenhavam as encostas da montanha. Nosso guia explicou que aquelas salinas são abastecidas por uma nascente rica em minerais que brota da própria montanha e que, há séculos, as famílias da região extraem o sal exatamente da mesma forma que seus antepassados faziam. Enquanto caminhava entre aqueles tanques, observava os trabalhadores realizando um ofício passado de geração em geração e compreendia que ali cada família preserva não apenas uma atividade econômica, mas também uma herança cultural.

Ao longo daquele dia também me lembrei das explicações que nossa querida guia Angela havia nos dado durante a visita a Ollantaytambo. Foi ela quem mostrou os antigos canais de água construídos pelos incas, que continuam funcionando perfeitamente até hoje. Ver aquela água correndo pelos mesmos caminhos traçados há centenas de anos me fez perceber o quanto essa civilização dominava a engenharia, a agricultura e o respeito pela natureza.

Quando o sol começou a se esconder atrás das montanhas, senti algo que jamais conseguirei explicar completamente. Em qualquer direção para onde eu olhasse, parecia que a Cordilheira dos Andes me abraçava. As montanhas não eram apenas parte da paisagem; elas transmitiam proteção, serenidade e um profundo sentimento de pertencimento. Meu coração estava leve. Meu espírito estava em paz. Pela primeira vez compreendi por que tantas pessoas dizem que o Vale Sagrado dos Incas possui uma energia única.

Naquele aniversário eu não recebi apenas parabéns, presentes ou um bolo preparado com carinho pela equipe do hotel. Recebi um presente muito maior. Conheci um povo que aprendeu a agradecer à terra antes mesmo de pedir por uma nova colheita. Descobri uma cultura que preserva sua história com orgulho, respeita seus antepassados e vive em profunda harmonia com a natureza. Aprendi que riqueza não é apenas aquilo que acumulamos, mas também aquilo que somos capazes de sentir.
Minha viagem ainda continuará até o dia 5 de agosto, mas uma certeza já levo comigo: nunca mais serei a mesma pessoa que embarcou em Guarulhos no dia 31 de julho. Voltarei ao Brasil levando fotografias maravilhosas, lembranças inesquecíveis, novos amigos e sabores que jamais esquecerei. Mas, acima de tudo, levarei no coração uma lição que os Andes me ensinaram: a felicidade começa quando aprendemos a agradecer pela vida, pela natureza e por cada novo amanhecer.
Sobre Stânia Moraes
Stânia Moraes é executiva financeira (CFO), conselheira, mentora e escritora, com sólida trajetória em finanças corporativas, governança e planejamento estratégico. Reconhecida por sua atuação na liderança de grandes organizações, assumiu recentemente a Diretoria Financeira (CFO) do Grupo Melo Cordeiro, onde conduz iniciativas voltadas ao crescimento sustentável, inovação e fortalecimento da governança corporativa. Também é autora e coordenadora de obras da Série Mulheres®, destacando-se pelo incentivo ao protagonismo feminino no ambiente empresarial.

