
Resíduos geram bioenergia
*José Renato Nalini
São Paulo, a maior cidade do Brasil, produz mais de 15 mil toneladas diárias de lixo doméstico. Boa parte desse volume é de resíduos orgânicos, resto de comida principalmente. E a transição para uma economia circular, que priorize a reciclagem de materiais, a redução do desperdício e o tratamento de agentes poluentes é urgente e essencial.
Não é diferente a situação de todos os demais municípios brasileiros, embora a dimensão possa variar. Quanto menor a cidade, mais fácil administrar o grave problema dos resíduos sólidos. Quanto maior, mais complexa a situação.
A boa notícia é que a Usina de Bioenergia e Biofertilizantes com resíduos orgânicos, do Instituto de Energia e Ambiente, da USP, já utiliza esses restos de comida como matéria prima para a produção de eletricidade, combustível veicular e fertilizantes. Com isso, reduz o descarte desse material em aterro sanitário e a geração de gases de efeito estufa.
A maior universidade brasileira continua a produzir soluções concretas para os desafios da sociedade, como esclarece o coordenador do projeto, Professor Ildo Luís Sauer. Iniciado em 2018, entrou em operação parcial em 2021. Agora implementou-se a Unidade de Produção de Biometano e a usina opera com todas as suas funcionalidades.

Ainda é pequena a capacidade de processamento: 25 toneladas de resíduos orgânicos por dia. Mas é promissora a perspectiva de ampliação do aproveitamento, principalmente se o modelo tecnológico for adotado por Prefeituras, Regiões Metropolitanas e por grandes geradores de resíduos da cadeia alimentar, como indústrias alimentícias, centrais de abastecimento e restaurantes.
Para atender à capital, seriam necessárias trezentas usinas, mas seiscentas seriam suficientes para tratar todo o volume de resíduos orgânicos domésticos gerados no nosso Estado.
O caminho está aberto e agora é necessário sensibilizar os setores responsáveis por essa produção de resíduos orgânicos, para que a saudável e exitosa iniciativa se converta em realidade. Ganham todos: ambiente, economia e qualidade de vida.
A planta foi planejada para operar majoritariamente com resíduos alimentares, mas também pode ser abastecida com resíduos orgânicos da agroindústria e resíduos alimentares externos. É urgente a vontade política dos gestores municipais, para a implementação dessa valiosíssima ferramenta de enfrentamento de uma das questões que atormenta o mundo inteiro. A China já possui mais de mil UREs – Unidades de Regeneração Energética e a surpresa de quem viaja àquela potência asiática é constatar que já não existe lixo nas ruas, ao contrário do Brasil.
Um desafio enfrentado pelo projeto é a regulamentação. A usina foi a primeira operação que utiliza essa tecnologia a ser licenciada pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). Também obteve registro como produtora de material secundário no Ministério da Agricultura e Pecuária e está em conformidade com as determinações da SP Regula, a Agência Reguladora de Serviços Públicos do Município de São Paulo responsável, entre outras coisas, por gerir e fiscalizar os serviços de coleta domiciliar de resíduos na capital paulista.
Por isso, o mais difícil já está feito. Agora, é fazer com que todos os municípios brasileiros convertam um flagelo em solução. O volume de comida manipulada que se joga fora é incrível, a comprovar esse paradoxo cruel: metade da população passa fome e a outra metade desperdiça alimentos. Vamos dar um jeito nisso!
*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.
