
Brasileira desenvolve proteína regenerativa contra lesões medulares e reacende debate científico sobre cura da tetraplegia
Por Beatriz Ciglioni – Especial Ciência e Saúde | São Paulo TV

A medicina sempre tratou lesões graves da medula espinhal como um território quase irreversível. Quando neurônios são rompidos, os axônios — prolongamentos responsáveis por transmitir sinais elétricos — raramente voltam a se reconectar de forma funcional. O resultado costuma ser paralisia permanente, seja paraplegia ou tetraplegia.
Uma pesquisa liderada pela professora Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pode alterar esse paradigma.
Após quase três décadas de investigação, a equipe desenvolveu uma proteína experimental chamada polilaminina, capaz de estimular a reconexão de neurônios danificados na medula espinhal. A molécula, produzida a partir de proteínas derivadas da placenta humana — estrutura fundamental no desenvolvimento do sistema nervoso durante a gestação — atua criando um microambiente biológico favorável ao crescimento axonal.
Em termos simples: funciona como uma espécie de “ponte bioquímica” que ajuda o sistema nervoso a religar circuitos interrompidos.
Como a proteína atua no sistema nervoso

A laminina é uma proteína natural da matriz extracelular, estrutura que sustenta células e tecidos. No desenvolvimento embrionário, ela orienta o crescimento neuronal. A polilaminina desenvolvida pela equipe brasileira potencializa essa função, formando uma matriz tridimensional que favorece regeneração e reconexão.
Aplicada por injeção diretamente na região lesionada da medula, a substância não substitui neurônios, mas cria condições para que fibras nervosas voltem a crescer e se organizar funcionalmente.
O desafio histórico da lesão medular sempre foi duplo: impedir a formação de cicatrizes gliais que bloqueiam regeneração e estimular o crescimento coordenado de axônios. A pesquisa tenta enfrentar exatamente esses dois obstáculos.
Testes clínicos e aprovação regulatória
O desenvolvimento ocorre em parceria com o laboratório brasileiro Cristália. A fase 1 dos testes clínicos recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), etapa destinada a avaliar segurança e possíveis sinais iniciais de eficácia.
Até o momento, 16 pacientes obtiveram autorização judicial para receber a aplicação experimental. Segundo dados divulgados pelos pesquisadores, pelo menos cinco apresentaram recuperação parcial de movimentos.
Entre os casos relatados:
– Luiz Fernando Mozer, 37 anos, tetraplégico após acidente em motocross, relatou retorno de sensibilidade e contração muscular menos de 48 horas após aplicação.
– Um paciente de 35 anos voltou a apresentar movimentos no pé e sensibilidade nas pernas.
– Bruno Drummond de Freitas, 31 anos, diagnosticado com tetraplegia, conseguiu voltar a andar após o tratamento experimental.
Os procedimentos foram conduzidos sob coordenação do neurocirurgião Bruno Alexandre Côrtes, no Hospital Municipal Souza Aguiar, no Rio de Janeiro.

A cautela necessária da ciência
O entusiasmo é compreensível. Lesões medulares sempre foram uma das fronteiras mais difíceis da neurologia regenerativa. No entanto, a própria comunidade científica destaca que fase 1 não comprova eficácia ampla — apenas segurança inicial e sinais preliminares.
Para validar o tratamento, serão necessárias:
– Fase 2: avaliação de eficácia em grupo maior de pacientes
– Fase 3: comparação controlada em larga escala
– Estudos de longo prazo sobre efeitos adversos
A ciência avança por evidências acumuladas, não por relatos isolados. Recuperações iniciais são promissoras, mas precisam ser reproduzidas de maneira estatisticamente consistente.
Nobel da Medicina? O que é realista
Alguns pesquisadores internacionais já mencionam o potencial transformador do estudo. O Prêmio Nobel em Fisiologia ou Medicina costuma reconhecer descobertas que alteram paradigmas terapêuticos globais.
Se a polilaminina demonstrar eficácia robusta e replicável, poderemos estar diante de uma revolução comparável ao desenvolvimento de terapias celulares ou à descoberta de antibióticos.
Mas o Nobel é consequência, não objetivo científico. Primeiro vêm dados sólidos, revisão por pares, replicação internacional e validação clínica rigorosa.
O impacto humano
Por trás da biotecnologia, há histórias concretas. A lesão medular não afeta apenas movimento; compromete autonomia, saúde mental, função respiratória e qualidade de vida.
Se confirmada, essa abordagem pode representar não apenas avanço médico, mas transformação social — reduzindo custos de reabilitação crônica e ampliando horizontes para milhares de pessoas.
A medicina regenerativa é uma das áreas mais fascinantes da ciência contemporânea porque desafia um dogma antigo: a ideia de que o sistema nervoso central não se regenera.
A pesquisa brasileira sugere que talvez não seja uma impossibilidade biológica — mas uma questão de ambiente molecular adequado.
A ciência exige prudência. Mas também exige coragem para explorar fronteiras que pareciam inalcançáveis. Se a polilaminina cumprir o que promete nas próximas fases clínicas, o Brasil poderá ter contribuído com um dos capítulos mais significativos da medicina do século XXI.
E isso, por si só, já é um feito extraordinário.
