
Trump lança “Conselho da Paz” em Davos e expõe contradições na diplomacia internacional
Da Redação da São Paulo Tv Especial WDC
Durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, formalizou nesta quinta-feira (22) a criação do chamado Conselho da Paz (Board of Peace), iniciativa apresentada como um novo mecanismo internacional voltado à mediação de conflitos e à promoção da estabilidade global. O anúncio, feito diante de representantes de pouco menos de vinte países, foi recebido com cautela por diplomatas, analistas e aliados históricos de Washington, que veem no projeto mais incertezas do que consensos.

Trump descreveu o conselho como uma estrutura capaz de agir com rapidez onde, segundo ele, os organismos multilaterais tradicionais se mostram lentos ou ineficazes. Em seu discurso, afirmou que o novo órgão poderia oferecer “soluções reais” para conflitos prolongados e chegou a sugerir que o modelo seria mais eficiente do que instâncias consolidadas do sistema internacional. A declaração, no entanto, reforçou críticas de que o projeto nasce com viés personalista e pretensão de substituir, e não complementar, instituições já existentes.
A origem do Conselho da Paz está diretamente ligada ao plano apresentado por Trump em 2025 para a Faixa de Gaza, que previa desmilitarização, reconstrução e uma administração técnica temporária da região. À época, o conselho surgia como um instrumento específico de supervisão desse processo. Em Davos, porém, o escopo foi ampliado de forma significativa, passando a abranger conflitos globais sem que houvesse a definição clara de limites, critérios de atuação ou mecanismos de coordenação com o sistema internacional vigente.
É justamente nessa ampliação que surgem os principais pontos desconexos da iniciativa. O primeiro deles é a concentração de poder. Documentos preliminares indicam que Trump ocuparia a presidência do conselho por tempo indeterminado, com amplos poderes decisórios. Esse desenho contrasta frontalmente com a lógica de governança multilateral, baseada em colegialidade, mandatos temporários e mecanismos de freios institucionais.
Outro ponto sensível é a ausência de um mandato jurídico definido. Diferentemente de organismos reconhecidos pelo direito internacional, como a Organização das Nações Unidas, o Conselho da Paz não possui respaldo em tratados multilaterais nem regras claras de adesão, financiamento ou resolução de controvérsias. Na prática, trata-se de uma instância política sem base normativa consolidada, o que limita sua legitimidade e eficácia.
A composição inicial do conselho também despertou questionamentos. Enquanto algumas nações do Oriente Médio e países com regimes menos alinhados às democracias liberais demonstraram interesse, aliados tradicionais dos Estados Unidos, como França, Reino Unido, Noruega e Suécia, optaram por não participar. Esses governos manifestaram preocupação com a criação de uma estrutura paralela que possa enfraquecer o multilateralismo construído no pós-Segunda Guerra Mundial.
Há ainda uma contradição evidente no discurso de cooperação com a ONU. Embora Trump afirme que o Conselho da Paz atuará de forma complementar, suas declarações públicas frequentemente colocam o novo órgão como alternativa à ONU, sugerindo inclusive que esta estaria “ultrapassada”. Essa ambiguidade reforça a percepção de que o conselho pode se tornar instrumento de disputa política e influência geopolítica, e não um espaço neutro de mediação.
Especialistas em relações internacionais avaliam que a proposta reflete uma tendência mais ampla de fragmentação da ordem global, marcada pela desconfiança em instituições multilaterais e pela busca de soluções ad hoc lideradas por grandes potências. Nesse contexto, o Conselho da Paz aparece menos como um projeto estruturado de governança internacional e mais como uma extensão da visão política de Trump sobre soberania, poder e negociação direta.
O lançamento do Conselho da Paz, portanto, gera mais perguntas do que respostas. Sem clareza institucional, sem consenso entre aliados estratégicos e com um desenho fortemente centralizado, a iniciativa expõe os limites de uma diplomacia personalizada em um mundo cada vez mais complexo. Ao prometer paz global, o projeto acaba revelando as próprias tensões e contradições do sistema internacional contemporâneo, no qual liderança, legitimidade e cooperação já não caminham necessariamente juntas.
