
União Europeia aprova acordo com o Mercosul após mais de 25 anos de negociações
Redação – São Paulo TV Broadcasting Internacional da Europa por Samys Montanaro
09/01/2026 | Atualizado às 08h48

A União Europeia aprovou na manhã desta sexta-feira (9) o aguardado acordo comercial com o Mercosul, encerrando um ciclo de mais de 25 anos de negociações marcadas por avanços, impasses e forte pressão política interna. A decisão foi tomada em Bruxelas, durante reunião de embaixadores dos 27 Estados-membros, que alcançaram maioria qualificada para destravar o tratado, apesar da oposição de países como França, Polônia e Irlanda.
Com a aprovação, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, está autorizada a viajar a Assunção, no Paraguai, na próxima segunda-feira (12), para assinar formalmente o acordo com os países do bloco sul-americano. Mesmo assim, o tratado ainda não entra em vigor de imediato: do lado europeu, será necessária a aprovação do Parlamento Europeu, etapa que promete novos embates políticos e jurídicos.
O acordo UE–Mercosul, negociado desde 1999 com Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, prevê a criação da maior zona de livre comércio do planeta, reunindo mais de 700 milhões de consumidores. O texto estabelece a eliminação de tarifas em mais de 90% do comércio bilateral, ampliando o fluxo de bens industriais, agrícolas e serviços entre os dois blocos.
Avanço histórico e resistências internas
O resultado, no entanto, está longe de ser consensual. Cerca de 150 eurodeputados, de um total de 720, já sinalizaram que podem recorrer à Justiça europeia para tentar barrar ou retardar a aplicação do acordo. A resistência se concentra especialmente no setor agrícola, que teme uma concorrência considerada desigual.
Agricultores europeus argumentam que a entrada de produtos sul-americanos — como carne bovina, aves, arroz, mel, soja e etanol — pode pressionar preços e comprometer produtores locais, uma vez que as normas ambientais e sanitárias no Mercosul seriam menos rigorosas. Na França, esse descontentamento se materializou em protestos com tratores bloqueando acessos a Paris, em mais um capítulo da crise agrícola que atravessa o país.
Por outro lado, defensores do acordo, como Espanha e Alemanha, sustentam que o tratado é estratégico para a União Europeia diante da crescente concorrência da China e das políticas tarifárias mais agressivas dos Estados Unidos. Para esses países, diversificar mercados e fortalecer parcerias com a América do Sul é uma questão de soberania econômica e geopolítica.
Concessões para acalmar o campo europeu
Para viabilizar a aprovação, a Comissão Europeia incluiu uma série de salvaguardas voltadas ao setor agrícola. Entre elas, estão limites de cotas para produtos do Mercosul isentos de tarifas e mecanismos automáticos de intervenção caso haja desestabilização do mercado. Ficou estabelecido, por exemplo, que a Comissão poderá abrir investigações se o preço de um produto importado for ao menos 8% inferior ao equivalente europeu e se o volume das importações crescer mais de 8%.
Além disso, o bloco europeu anunciou medidas mais duras sobre resíduos de pesticidas em produtos importados. Três substâncias — tiofanato-metilo, carbendazima e benomilo — foram proibidas, sobretudo em frutas como cítricos, mangas e papaias. A França, em movimento paralelo, decretou a suspensão temporária da entrada de alguns produtos agrícolas tratados com defensivos vetados na União Europeia.

Impacto para o Mercosul e o Brasil
Do lado sul-americano, a aprovação é vista como uma vitória diplomática e econômica. O bloco vinha demonstrando impaciência com a demora europeia, e, durante a cúpula de dezembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apelou publicamente por “coragem” e “vontade política” da União Europeia para não perder a oportunidade histórica.
Para o Brasil e os demais países do Mercosul, o acordo amplia o acesso a um dos maiores mercados consumidores do mundo e fortalece a posição do bloco em cadeias globais de valor, especialmente no agronegócio e na indústria de base. Em contrapartida, abre espaço para maior entrada de produtos europeus de alto valor agregado, como veículos, máquinas, queijos e vinhos.
A aprovação desta sexta-feira marca, portanto, um ponto de inflexão em uma das negociações comerciais mais longas da história recente. Ainda cercado de controvérsias, o acordo UE–Mercosul avança como um movimento de peso na reorganização do comércio internacional, em um cenário global cada vez mais fragmentado e competitivo.
