
É só vantagem
*José Renato Nalini
Depois da escassez hídrica, o maior problema paulistano é o excesso de resíduos sólidos. Esse é o nome pelo qual hoje chamamos o que era “lixo”, pois tudo o que se desperdiça tem valor e precisa entrar na economia circular e na logística reversa.
São Paulo produz mais de quinze mil toneladas diárias de resíduos sólidos. E um percentual mínimo desse volume chega à reciclagem, porque a população não descarta corretamente aquilo que desperdiça. Bastaria separar o resíduo orgânico, tudo o que apodrece, daquilo que é seco e pode ser reciclado e aproveitado economicamente.
Mas o resíduo orgânico é um bem valioso. Vai ser transformado em biometano, um gás não fóssil, que substitui diesel e gás natural como combustível para veículos e energia para o funcionamento da máquina industrial.
O biometano é valiosa alternativa ao diesel e concorre com a eletrificação das frotas, hoje ainda obstaculizada por falta de infraestrutura para carregamento das baterias.
Esse gás é 100% renovável e neutro em carbono. A vantagem é deixar de ocupar áreas ambientalmente destinadas a formar parques, bosques, jardins, com os aterros sanitários. Montanhas infindáveis de lixo acumulado, causando transtorno para a atmosfera e para a saúde.
Quanto aos resíduos secos, estes precisam se converter em energia limpa, o que já acontece em países mais adiantados do que o nosso. Pense-se que a China já se serviu de tudo aquilo que foi descartado e hoje está a desenterrar antigos aterros sanitários, para converter o que sobrou em energia e gerar, como subproduto, um tijolo ecológico.
Algo que terá de vir para o Brasil, restando o desafio de conscientizar a sociedade que mais consome, desperdiça e descarta o que não usa. É preciso lembrar sempre o alerta do Papa ecológico, Francisco, autor da “Laudato Si”, a encíclica verde, editada em 2015. Ele disse: não existe o conceito de “jogar fora”. Tudo o que se joga está dentro desta frágil e modesta esfera azul, cuja continuidade no sistema solar depende de cada um de nós.
*José Renato Nalini é Secretário Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.
