
SUS: um gigante que salva vidas – e o quanto o Brasil pode aprender com outros países Com Dr. Vanderlei de Almeida Rosa
ENTREVISTA SAUDE – São Paulo TV por BEATRIZ CIGLIONI

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São Paulo TV – Dr. Vanderlei, o SUS é frequentemente chamado de o maior sistema público de saúde do mundo. O que torna o SUS tão singular?
Dr. Vanderlei de Almeida Rosa SUS é um dos raros sistemas universais, gratuitos e integralmente financiados pelo Estado. A Constituição de 1988 foi visionária ao estabelecer que saúde é um direito de todos e dever do Estado. Isso significa que qualquer cidadão, independentemente de renda, pode entrar em uma unidade de saúde e receber atendimento, exames, medicamentos, internação e cirurgia. Poucos países têm essa abrangência. A singularidade do SUS está na combinação de universalidade com um território continental. Isso não existe em nenhum outro lugar.
São Paulo TV – Muitos brasileiros criticam o SUS no dia a dia. Onde está o desencontro entre percepção e realidade?
Dr. Vanderlei de Almeida Rosa A percepção do cidadão é moldada pela porta de entrada: a unidade de saúde do bairro, que às vezes enfrenta superlotação, falta de profissionais ou estrutura desgastada. Mas o SUS é muito maior do que isso. Ele realiza desde vacinas em massa até transplantes, vigilância epidemiológica, hemodiálise, UTI neonatal, cirurgias oncológicas, regulação de redes e políticas assistenciais complexas. A crítica do cidadão tem fundamento quando há dificuldade local, mas a realidade é que o SUS funciona diariamente, em escala gigantesca, salvando milhões de vidas. Poucos países fariam o que o Brasil fez na pandemia, por exemplo.
São Paulo TV – Falando em outros países, como o SUS se compara a sistemas como o NHS britânico, o modelo canadense e o sistema espanhol?
Dr. Vanderlei de Almeida Rosa Cada país tem sua arquitetura própria. O NHS, no Reino Unido, é financiado por impostos e oferece cobertura universal, como o SUS, mas com maior centralização e forte presença de médicos de família. A população, em geral, começa o atendimento pelo clínico geral e segue por encaminhamento. É um sistema eficiente, mas também enfrenta filas e crise de financiamento, assim como o Brasil.
O Canadá opera com sistemas provinciais integrados por um princípio universal. Não é gratuito em tudo, mas a atenção primária é robusta e bem distribuída. A força deles está na prevenção.
A Espanha, por sua vez, tem um sistema público com alto grau de regionalização. As comunidades autônomas gerem seus próprios serviços. O país investe pesado em atenção primária e saúde digital.
O SUS não perde em qualidade técnica. O que diferencia é o tamanho do Brasil, a desigualdade territorial e o subfinanciamento crônico. Nenhum desses países cobre uma população tão grande, tão diversa e tão distante geograficamente como o SUS faz com seus 5.570 municípios.

São Paulo TV – O subfinanciamento é mesmo o maior desafio?
Dr. Vanderlei de Almeida Rosa Sem dúvida é um dos principais. O SUS recebe menos investimento per capita do que os sistemas europeus e mesmo do que o canadense. Isso pressiona profissionais, equipamentos, unidades básicas e hospitais. Mas, além do financiamento, há outro grande desafio: a gestão. É preciso fortalecer governança, tecnologia, integração de dados, regionalização de serviços e ampliação de equipes.
São Paulo TV – Apesar das dificuldades, o senhor costuma dizer que o SUS é motivo de orgulho. Por quê?
Dr. Vanderlei de Almeida Rosa Porque o SUS entrega muito mais do que o mundo imagina. Basta lembrar que o Brasil tem um dos maiores programas de transplantes do planeta. Tem o maior programa público de vacinação da América Latina. Tem vigilância sanitária e epidemiológica reconhecida internacionalmente. Tem políticas pioneiras, como combate ao HIV, saúde mental comunitária, atenção obstétrica humanizada e tratamento para doenças raras. É um sistema que enfrenta desigualdades profundas e, mesmo assim, alcança resultados admirados globalmente.
São Paulo TV – O que o Brasil poderia aprender com outros países para fortalecer o SUS?
Dr. Vanderlei de Almeida Rosa Podemos aprender a valorizar mais a atenção primária, como fazem Canadá, Espanha e Reino Unido. Podemos aprofundar a digitalização dos processos, ampliando telemedicina, prontuário eletrônico integrado e inteligência epidemiológica. Podemos aprimorar carreiras regionais e estímulos para fixar médicos em áreas remotas. E também precisamos incorporar inovação sem perder a essência: universalidade, gratuidade e cuidado integral.
São Paulo TV – E o que outros países podem aprender com o SUS?
Dr. Vanderlei de Almeida Rosa O SUS é um laboratório de soluções criativas. A capilaridade da vacinação brasileira, por exemplo, é objeto de estudo em várias universidades internacionais. A política de transplantes e a regulação de leitos são referência. A capacidade de mobilização nacional para emergências sanitárias também impressiona. O SUS é resiliente e, mesmo subfinanciado, entrega resultados compatíveis com sistemas ricos. Isso chama atenção do mundo.
São Paulo TV – O senhor acredita que o SUS pode se tornar um dos sistemas mais admirados do planeta?
Dr. Vanderlei de Almeida Rosa Acredito que já é. Falta reconhecimento interno. Quando fortalecemos a atenção primária, ampliamos financiamento, investimos em inovação e qualificamos a gestão, o SUS mostra sua verdadeira grandeza. O Brasil tem todas as condições para tornar o SUS uma vitrine global de saúde pública. Basta tratá-lo como projeto de Estado, não apenas como programa de governo.
São Paulo TV – Para encerrar, que mensagem fica ao cidadão que depende do SUS todos os dias?
Dr. Vanderlei de Almeida Rosa O SUS é seu. É patrimônio nacional. É conquista civilizatória. E ele se fortalece quando a sociedade o defende, quando cobra, quando participa e quando reconhece que saúde pública é um alicerce de um país justo. O SUS não é apenas um sistema: é a expressão prática do direito à vida.
