
Gilberto Natalini: “Sem enfrentar a crise climática, a saúde continuará enxugando gelo.” COP30
ENTREVISTA ESPECIAL – SÃO PAULO TV BROADCASTING | COP30 – SAÚDE CLIMÁTICA
Ex-vereador de São Paulo, médico e referência nacional em saúde ambiental alerta: planeta já vive uma epidemia silenciosa causada pelas mudanças climáticas.
A COP30, que será realizada no Brasil, coloca o país e especialmente São Paulo no centro da discussão global sobre clima, saúde e futuro das cidades. No mundo, hospitais já registram aumento de internações por ondas de calor, doenças respiratórias agravadas pela poluição atmosférica e surtos de vírus e fungos acelerados pelas mudanças climáticas.
Não é exagero: estamos vendo a mudança do clima entrando pelas portas dos prontos-socorros.
É nessa urgência que surge a entrevista com Dr. Gilberto Natalini, uma das vozes mais influentes da saúde climática no Brasil. Médico, sanitarista, ex-vereador de São Paulo por cinco mandatos, autor de políticas estruturantes como o Programa Município Verde e Saudável e ex-secretário municipal de Meio Ambiente, Natalini é hoje um dos principais articuladores da integração entre meio ambiente, saúde e planejamento urbano no país.
Reconhecido internacionalmente, participou de conferências do clima, influenciou leis ambientais e sempre defendeu que arborização urbana, qualidade do ar e saúde pública são partes do mesmo sistema. Para ele, “cidade sem árvore é cidade doente”.
Nesta entrevista exclusiva para a Série Semana COP30 – São Paulo Construindo uma Cidade Sustentável, Natalini conecta ciência, política e vida real: das mortes por calor extremo ao papel da Amazônia na produção de água que abastece o Sudeste.
A seguir, a entrevista com as respostas na íntegra.

Entrevistado: Dr. Gilberto Natalini – Médico e especialista em Saúde Ambiental
1. Quais políticas de saúde climática devem ser adotadas em grandes metrópoles como São Paulo?
Resposta de Gilberto Natalini :
As mudanças climáticas têm desencadeado uma série de doenças e agravos da saúde, como por exemplo, viroses, infecções bacterianas por fungos e também mortes e adoecimentos por ondas excessivas de calor, que também têm produzidos mortes pelo mundo todo. Além, obviamente, dos desastres climáticos, que matam durante as enchentes ou as secas, e as queimadas. Portanto, as políticas públicas de saúde precisam levar em conta essa nova realidade global, que são as mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global, senão a gente vai ficar enxugando gelo e as pessoas vão continuar adoecendo e morrendo.
2. Como integrar o meio ambiente à política de prevenção de doenças e promoção da saúde pública?
Dr. Gilberto Natalini
Nos dias de hoje, não é possível planejar qualquer política de prevenção de doenças ou promoção da saúde pública sem levar em conta as questões ambientais. A grande parte das doenças que acometem as pessoas hoje é devida ao lugar em que a pessoa mora, ou seja, o meio ambiente, ou então à maneira que a pessoa vive, os hábitos de vida. Por exemplo, a poluição do ar, ela mata em todo
3. O que significa urbanismo verde como instrumento de saúde coletiva?
Dr. Gilberto Natalini
Oitenta por cento das pessoas moram nas cidades. Só 20% das pessoas moram em áreas rurais. Portanto, as cidades são o foco de uma aglomeração humana, sujeito a todas às consequências da degradação ambiental e também do aquecimento global. Por isso, qualquer prefeito que tenha algum juízo deverá intervir na sua cidade, preparar, prevenir, combater os efeitos deletérios de um meio ambiente contaminado, produzindo uma cidade mais sustentável. A cobertura verde, por exemplo, as árvores são fundamentais para combater os efeitos das mudanças climáticas, o calor exagerado, mesmo a estiagem violenta. As árvores são poderosos instrumentos, ferramentas de combate à degradação ambiental. Por exemplo, as cidades devem ser hoje permeáveis, porque as chuvas muito violentas, que caem num tempo muito rápido, inundam as cidades e dão prejuízo enorme, além obviamente, de ameaçar a vida das pessoas. Portanto, o urbanismo verde, é exatamente a transformação de uma cidade numa cidade sustentável, numa cidade resiliente, combatendo, mitigando e adaptando a área urbana da cidade às consequências do aquecimento global, das mudanças climáticas e das poluições ambientais.
4. Quais lições da pandemia e das ondas de calor para o futuro da saúde pública?
Dr. Gilberto Natalini
A pandemia de Covid mostrou ao mundo toda a fragilidade da raça humana diante de um ataque de um agente patogênico, que foi exatamente o vírus da Covid. Na verdade, nós ainda não sabemos a origem exata da pandemia, mas nós sabemos que ela tem relação, sim, com as mudanças ambientais que o planeta está sofrendo. Outras pandemias poderão vir, nós aprendemos muito aqui no Brasil. O SUS foi heroico no combate à pandemia e nós aprendemos muito, como devemos fazer para lidar com uma situação de emergência como essa. A saúde pública tem que entender e tem que se preparar para ondas de viroses violentas, porque as mudanças ambientais do planeta estão provocando a liberação de vírus, bactérias, fungos, agentes patogênicos, que a gente não estava acostumado a enfrentar. Todo planejamento de saúde pública hoje, daqui para frente, tem que levar em conta isso.
5. A Amazônia como “pulmão do planeta” é mito ou realidade?
Dr. Gilberto Natalini
Na verdade, chamar a Amazônia de pulmão do planeta é um erro. Claro que a Amazônia produz uma grande quantidade de oxigênio e retira uma grande quantidade de CO2 do ar. Mas o grande produtor de oxigênio do planeta está no mar, são as algas marinhas. Elas produzem muito mais oxigênio do que as florestas tropicais, por isso, o verdadeiro pulmão do planeta está no mar e são as algas marinhas. Mas isto não tira a grande importância que as florestas têm de retirar do ar CO2, gás de efeito estufa, reduzindo o aquecimento global, além obviamente de produzir oxigênio. Mas principalmente as grandes florestas são grandes produtores de vapor d´água, exatamente a matéria-prima fundamental para a chuva, quando ele se condensa, ele se transforma em água e cai, produzindo a chuva. As chuvas do centro e do sudeste do Brasil se devem particularmente à evaporação de água da floresta amazônica, que vem para cá em forma de nuvens, chamados de rios voadores, e se precipitam nas regiões centro e sudeste, produzindo chuvas e permitindo a agricultura, o plantio. Se a floresta acabar, for derrubada, esses rios voadores acabam e nós vamos ter um problema gravíssimo, como já estamos tendo, de precipitação de chuva, aqui por exemplo na cidade de São Paulo, no estado de São Paulo.
6. Como o SUS pode incorporar o monitoramento climático e epidemiológico?
Dr. Gilberto Natalini
Na verdade, nós estamos bastante atrasados na área de saúde, na incorporação deste conceito de aquecimento global e mudanças climáticas. A medicina no Brasil e no mundo, praticamente quase todo, ela ainda está aprendendo a lidar com esses fenômenos. Muitos médicos, colegas nossos, ainda não sabem como tratar um doente, vítima de uma onda de calor. E muitos profissionais da saúde também ainda não sabem fazer a correlação entre alguns surtos de virose que estão acontecendo e a mudança de temperatura do planeta. Portanto, o SUS tem que correr. Já começou a andar, tanto na área federal, como nos municípios, já começou a andar. Mas estamos atrasados do ponto de vista do preparo cientifico da saúde pública para enfrentar os fenômenos climáticos extremos.
7. A ciência tem papel central nas políticas de adaptação e mitigação climática?
Dr. Gilberto Natalini
A ciência é a principal ferramenta, o principal instrumento, de conhecimento, que nós temos para enfrentar essas mudanças que estão acontecendo na natureza. Em particular, aquelas que afetam a saúde humana, a vida das pessoas. A ciência tem uma importância brutal. E é a ciência que está dando respostas a todos nós e dando orientação para as políticas públicas agirem. São os climatologistas, são os pesquisadores na área médica, são os cientistas que pesquisam as questões da vida, a biologia, a botânica, esses são os que estão dando respostas, estão estudando e respondendo todas as questões e nos dando o caminho que a gente tem que tomar para mudar esta situação. Então a importância da ciência médica no enfrentamento das consequências dos fenômenos climáticos extremos é total. Nós temos que investir, dar todo apoio à pesquisa, ao conhecimento, ao descobrimento de novos remédios, de novas terapias, para poder estarmos preparados para as consequências sobre nós, por exemplo, de uma onda de calor extremo que está matando no mundo. Segundo o Carlos Nobre, 500 mil pessoas no ano passado morreram pelo calor extremo.
8. São Paulo está avançando em arborização e qualidade do ar?
Dr. Gilberto Natalini
São Paulo tem uma boa cobertura vegetal. Nós temos, aproximadamente, metade do território da cidade coberto de árvores. Seja no extremo sul, na região de Parelheiros, com as matas remanescentes, seja na Serra da Cantareira, seja em algumas áreas de matas na zona leste e seja pelas 652 mil árvores que vivem nas calçadas e nas praças de São Paulo. Além, obviamente, dos seus 120 parques. Então, São Paulo tem uma boa cobertura vegetal. Mas o problema é que a cobertura vegetal de São Paulo, ela é desigual. Por exemplo, se você pegar Pari, Brás e Mooca, praticamente não tem árvore. Se você pegar, por exemplo, Cidade Tiradentes, Sapopemba, praticamente também não tem árvores. Itaim Paulista, também tem muito pouca árvore. Agora, se você vier para os Jardins, ou pra Santo Amaro, pro Broklin, pra Pinheiros, você vai ver bairros bastante arborizados. Então, o desafio é você plantar onde não tem, pra dar conforto às pessoas que moram nos bairros onde a cobertura vegetal é pequena. Esse é o desafio. São Paulo, esse ano, já plantou 120 mil árvores. O poder público já plantou 120 mil árvores. Não é pouco, é um número muito grande de árvores que foram plantadas. O importante é plantar a árvore certa, no lugar certo, na hora certa, pra árvore não ficar brigando com as pessoas por causa de raiz, por causa de fio, por causa disto, por causa daquilo. Então, a árvore tem que ser bem escolhida, plantada e cuidada. São Paulo também está fazendo o inventário arbóreo, o inventário fitossanitário das árvores da cidade, através de satélite, uma coisa muito moderna, que a cidade vai ter todo o conhecimento das árvores que tem. Portanto, São Paulo não está fazendo feio nesta questão de arborização. Está melhor do que muitas cidades do mundo.
9. Como avalia o discurso do presidente Lula na COP, integrando saúde e justiça climática?
Dr. Gilberto Natalini
O Lula tem discursado muito, tem falado muito. Ele tem falado coisas certas. Mas existe uma diferença na política entre falar e fazer. Então o Lula precisa falar sim, é importante que ele fale como presidente do Brasil. Mas ele tem que fazer mais do que está fazendo, ainda deixa muito a desejar em muitos aspectos. Ele tem uma boa ministra do Meio ambiente, que é a Marina Silva, e ele tem bons técnicos que trabalham na área ambiental, na área do governo. Então eu acho que o Lula deve sim falar, deve comentar, mas deve também fazer. Ajudar a mudar a matriz energética do país, ajudar a eletrificar a frota de veículos do país, ajudar a melhorar a situação nas cidades com adaptação para evitar os desmoronamentos e as mortes das pessoas, ajudar a tirar as pessoas das beiras de córrego. Combater com toda força, o que ele não está fazendo, o uso de agrotóxicos proibidos no mundo, cancerígenos, que estão sendo usados no Brasil de maneira desbragada. Isso aqui é um crime contra a saúde pública. Então eu acho que o Lula está no caminho certo, mas ele tem que melhorar a atitude dele.
10. Que mensagem deixaria à Carta São Paulo para consolidar saúde climática como política permanente?
Dr. Gilberto Natalini
Olha! Eu acho que tem uma diferença muito grande entre a consciência que as pessoas têm do problema, o conhecimento que os seres humanos têm do problema ambiental e climático que nós estamos vivendo e a atitude prática de cada pessoa, individualmente, de cada instituição governamental, empresarial, religiosa, esportiva, associativa, de bairros, enfim, a sociedade organizada. Existe uma diferença entre saber do problema e fazer alguma coisa para ajudar a resolver o problema. Essa distância ainda é grande. Então, a minha mensagem, que eu quero deixar aqui, é que a gente tem que aproximar a intenção do gesto. Saber mais, sim. Mas, fazer muito mais. Isto é que tem que ser feito. Não só as pessoas simples do povo, mas também as pessoas simples do povo. E as políticas públicas no geral, e os empresários, que têm que diminuir a emissão de carbono. Em particular o agronegócio, que tem que se modernizar, parar de derrubar mata, parar de poluir rio, parar de fazer da natureza como se fosse uma empregada. Não, a natureza não é nossa empregada. A natureza é nossa mãe! Então, se nós conseguirmos avançar, e acredito que nós estamos avançando, está melhorando a situação. Ainda falta muita coisa pra fazer, muita gente ainda está muito devagar. Mas, a gente tem esperança, está trabalhando, convencendo, discutindo, expondo os problemas e expondo também aqueles que são omissos. Essa é a minha mensagem final. Um abraço.
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✅ SECLIMA – Secretaria Executiva de Mudanças Climáticas da Prefeitura de São Paulo
Este não é apenas um evento.
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