
“Resíduos, Clima e Cidades Inteligentes: o grande desafio brasileiro às vésperas da COP30”
Artigo – * Marcos Mendes Martins
Estamos às vésperas da COP30, um momento histórico em que o Brasil deixará de ser apenas palco de conferências e passará a ser vitrine global de soluções climáticas — ou de contradições ambientais. O mundo inteiro estará olhando para nós. E, diante dessa oportunidade única, há uma verdade inescapável: não existe política climática séria, cidade inteligente ou justiça socioambiental sem enfrentar de forma decisiva o tema dos resíduos sólidos. O Brasil discute energia limpa, floresta em pé, crédito de carbono, mobilidade sustentável. Tudo isso é vital. Mas existe um eixo silencioso, negligenciado e ao mesmo tempo explosivo, que conecta clima, saúde, desigualdade e economia: o lixo. O que chamamos de “resíduo” revela quem somos como sociedade, como planejamos o território, como tratamos nossos recursos e como enxergamos o futuro.
O país produz mais de 82 milhões de toneladas de resíduos por ano e ainda enterra mais de 40% disso de forma inadequada. Quase metade do lixo brasileiro vai para lixões ou aterros irregulares, liberando metano — um gás 28 vezes mais potente para o aquecimento global que o CO₂. Isso significa que nossas cidades estão literalmente emitindo mudança climática. Quando se fala em gases de efeito estufa, muitos pensam em veículos ou indústrias, mas esquecem que os aterros sanitários são uma das maiores fontes de metano do planeta e, no Brasil, um dos setores mais atrasados em inovação. Ou seja: enquanto o mundo inteiro discute descarbonização, o lixo brasileiro continua sendo uma bomba climática a céu aberto. E pior: uma bomba que nos rouba riqueza.
Porque resíduo não é lixo. Resíduo é recurso. Resíduo é matéria-prima, energia, emprego, inclusão social, ativo financeiro. Um aterro sanitário bem gerido pode gerar energia limpa a partir do biogás. Uma cooperativa estruturada pode transformar toneladas em renda, dignidade e participação social. Um sistema de logística reversa eficiente pode conectar indústria, comércio e consumidores em uma economia circular real. E um país que capta, trata e transforma metano pode entrar de forma competitiva no mercado global de créditos de carbono. Mas, para isso, é preciso coragem política, governança ambiental e inteligência urbana. E esse é o ponto: cidades inteligentes não são cidades cheias de tecnologia — são cidades capazes de planejar.
Planejar o território, a água, as áreas verdes, o ar que respiramos. Planejar o uso do solo, a drenagem urbana, a prevenção de desastres climáticos. Planejar a integração entre resíduos, mobilidade, habitação e saúde. Uma cidade inteligente reduz risco, antecipa problemas e transforma passivos em oportunidades. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) já apontava esse caminho há 15 anos. É uma das legislações mais modernas do mundo. Estabeleceu responsabilidade compartilhada entre fabricantes, comércio, poder público e cidadão. Instituiu a logística reversa. Reforçou a inclusão de catadores. Criou instrumentos de planejamento: planos municipais, estaduais, nacionais. Proibiu lixões. Definiu metas. Era para termos virado a página. Não viramos.
Por quê? Porque faltou vontade política, capacidade técnica e modelo de governança. Municípios ficaram sozinhos, sem apoio estrutural. Empresas resistiram às exigências de logística reversa. Consumidores não foram educados para separar corretamente. Catadores foram romantizados, mas não integrados com dignidade. Os planos saíram do papel, mas não saíram das gavetas. E o resultado é que o Brasil continua preso ao modelo linear: extrair, produzir, consumir, descartar. Isso é ambientalmente insustentável, socialmente injusto e economicamente burro. O mundo está migrando para um modelo circular, e nós ainda estamos presos à lógica do aterro.
Entretanto, algo importante mudou: o debate climático internacional agora coloca os resíduos no centro da estratégia de descarbonização. A nova regulamentação do mercado de carbono no Brasil abre uma janela histórica. Capturar metano, gerar biogás, recuperar materiais recicláveis e incluir catadores não é apenas política ambiental — é política econômica. É desenvolvimento regional, geração de emprego, transição ecológica justa. E mais: é oportunidade de pagar a conta da modernização do setor de resíduos com recursos do próprio carbono evitado. Estamos sentados em cima de uma mina de ouro invisível. Mas é preciso enxergá-la. E só quem reúne técnica, gestão, visão e coragem conseguirá liderar essa transformação.
A engenharia ambiental tem hoje uma responsabilidade que vai além do cálculo técnico. Precisamos ser tradutores entre ciência, gestão pública, legislação e inovação. Precisamos costurar soluções integradas que envolvam consórcios públicos, financiamento, participação social e tecnologia. Sozinho, nenhum município consegue. Juntos, é possível criar sistemas regionais, com usinas modernas, triagem mecanizada, valorização de orgânicos, unidades de biogás, digitalização de processos, rastreabilidade e transparência. Isso é governança ambiental inteligente. Isso é cidade inteligente na prática — não no marketing. E isso só acontecerá se entendermos que catadores não são problema: são parte da solução. Eles já fazem o que o poder público não faz. Reciclam. Reutilizam. Evitam emissões. Geram economia circular. Mas ainda operam sem equipamentos, sem estrutura, sem reconhecimento. Incluí-los é fazer justiça climática e social ao mesmo tempo.
Falar de resíduos é falar de clima. Falar de clima é falar de governança. Falar de governança é falar de cidades. E falar de cidades é falar de dignidade. O planejamento urbano ambiental precisa integrar água, áreas verdes, qualidade do ar, drenagem, mobilidade e o ciclo completo dos resíduos. Precisamos acabar com a ideia de que lixo é assunto de limpeza urbana. Lixo é política climática. Lixo é saúde pública. Lixo é infraestrutura. Lixo é tecnologia. Lixo é futuro. E o futuro será decidido nas cidades, porque é nelas que mora 85% dos brasileiros. O Brasil não será sustentável a partir da floresta apenas — será sustentável a partir das ruas, dos bairros, dos aterros, das cooperativas, dos parques, das redes de saneamento, das políticas públicas. É no chão da cidade que a transição ecológica começa.
A COP30 será, pela primeira vez, realizada em solo brasileiro. Isso nos coloca em uma posição estratégica: podemos liderar o futuro ou repetir o passado. Podemos mostrar ao mundo um país capaz de integrar clima, resíduos e cidades inteligentes em um único modelo de desenvolvimento sustentável — ou podemos continuar empurrando lixo para debaixo do tapete enquanto falamos de metas verdes em conferências internacionais. O planeta está olhando. E mais: os fundos internacionais, os bancos multilaterais, os acordos comerciais e as grandes empresas estão exigindo compromissos ambientais reais. Um país que não gerencia bem seus resíduos será excluído das cadeias globais de valor. Um país que transforma resíduos em energia, inclusão, reciclagem e crédito de carbono se tornará potência verde.
Temos todos os ingredientes para isso: matriz energética limpa, legislação ambiental moderna, biodiversidade única, capacidade técnica instalada, empresas capacitadas, cooperativas resilientes, centros de pesquisa de excelência. O que falta? Vontade de integrar. Precisamos de um pacto nacional pós-COP30 que saia do discurso e entre na execução. Que una governos, setor privado, academia, sociedade civil e engenharia. Que fortaleça consórcios públicos para gestão regional de resíduos. Que use o crédito de carbono para financiar infraestrutura ambiental. Que digitalize dados e garanta transparência. Que profissionalize a cadeia da reciclagem. Que transforme aterros em polos de energia renovável. Que crie cidades inteligentes de verdade — não com slogans, mas com planejamento territorial, governança técnico-política e participação social.
E aqui faço uma defesa clara: a engenharia ambiental deve ocupar o centro desse processo. Não apenas como executora de projetos, mas como formuladora de soluções, construtora de políticas públicas, articuladora de atores e guardiã do equilíbrio entre desenvolvimento e sustentabilidade. A MaxLog Engenharia Ambiental tem trabalhado com essa visão: enxergar o resíduo como parte de um sistema territorial mais amplo, que conecta logística reversa, valorização de recicláveis, inclusão de catadores, tratamento de orgânicos, aproveitamento energético, créditos de carbono, educação ambiental e governança integrada. Não existe futuro sustentável sem engenharia com propósito. E não existe cidade inteligente sem gestão ambiental estratégica.
A transição ecológica não é um luxo ideológico. É uma necessidade civilizatória. E o Brasil pode ser protagonista global se transformar resíduos em oportunidade, clima em inovação e cidades em laboratórios de futuro. As maiores soluções ambientais do século XXI não nascerão apenas de grandes acordos internacionais, mas da forma como cada município gerencia o que produz, consome e descarta. Cuidar dos resíduos é cuidar do ar, da água, do solo, do clima, da economia e das pessoas. É proteger vidas. É gerar dignidade. É respeitar a natureza e a inteligência humana. É construir um novo pacto social onde sustentabilidade e desenvolvimento caminham juntos.
Estamos diante de uma escolha histórica. Ou seguimos tratando resíduos como problema e pagamos caro em crises climáticas, doenças, exclusão e desperdício. Ou entendemos que resíduos são o coração de uma nova economia verde, capaz de gerar energia, crédito, emprego, inovação e inclusão. O Brasil precisa decidir agora. E eu afirmo com convicção: se quisermos liderar a COP30 com credibilidade e visão, devemos começar pelo básico — e o básico é transformar lixo em valor.
Resíduos, clima e cidades inteligentes não são temas separados. São partes de um mesmo desafio nacional: construir um Brasil que respeita seus recursos, valoriza sua gente, planeja seu território e usa a engenharia como instrumento de transformação. O futuro do país não será decidido em discursos. Será decidido na forma como lidamos com aquilo que descartamos. E esse futuro começa hoje. Não no ano que vem, não depois da COP — agora.
Chegou a hora de dar ao tema dos resíduos a importância estratégica que ele merece. Chegou a hora de integrar políticas públicas, inovação, inclusão social e planejamento ambiental. Chegou a hora de fazer do Brasil uma potência de economia circular e de justiça climática. Chegou a hora de entender que o lixo pode ser o ponto de virada da nossa história.
A transição ecológica do Brasil não começa na floresta. Começa no chão da cidade. E nós estamos prontos para liderar.
- Marcos Mendes Martins – Engenheiro e Diretor-Presidente da MaxLog Engenharia Ambiental. Especialista em gestão de resíduos sólidos, logística reversa, créditos de carbono e planejamento urbano sustentável. Consultor em políticas públicas ambientais e inovação climática.

